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A água tramou os curiosos das grutas, mas foi só um susto

A água tramou os curiosos das grutas, mas foi só um susto

Rita Pereira Carvalho 22/10/2019 14:51

A aventura dos quatro espeleólogos portugueses não deveria ter durado mais do que um fim de semana. Foram surpreendidos pela chuva que inundou três lagos da gruta Cueto-Coventosa e os transformou num só.

Um susto que acabou em alívio. Barritas energéticas, comida para vários dias e experiência mantiveram a são e salvo os quatro portugueses durante cerca de 24 horas a vários metros de profundidade. Este domingo, a chuva trocou as voltas à expedição de António Afonso, Carlos Mendes, Daniel Pinto e Luís Sousa. No último sábado, os quatro espeleólogos portugueses entraram na gruta Cueto-Coventosa de Arrendondo, no norte de Espanha, altura em que os boletins meteorológicos jogavam a seu favor. O objetivo era claro: aliar a ciência ao desporto, entrando pela entrada de Cueto e saindo pela Coventosa. No total, seriam percorridos quase 20 quilómetros – só a descida é o equivalente a três monumentos do Cristo Rei.

A travessia deveria ter durado entre 20 a 24 horas, mas as horas passaram e no domingo à noite não havia sinais dos quatro portugueses. A chuva forte fez subir o nível da água das galerias da Cueto-Coventosa, uma das grutas espanholas onde são feitos mais resgates. Aliás, em média, registam-se 87 acidentes por ano nesta gruta. Os espeleólogos do Clube de Montanhismo Alto Relevo de Valongo, na região do Porto, conseguiram descer mais de 600 metros e foi na zona conhecida como ‘Os Lagos’, no último quarto da gruta, que ficaram até ontem ao final tarde – momento em que a equipa espanhola de resgate os conseguiu encontrar.

“Nós íamos sair pelo nosso próprio pé”, disse António Afonso aos jornalistas poucos minutos depois de ter saído da gruta. Com uma vasta experiência e confiança, o espeleólogo explicou que, dentro da gruta, o único problema, além das temperaturas que rondavam os 6º C, foi não conseguir dizer à família que estavam bem e que iam conseguir sair dali pelo próprio pé. Aliás, os quatro portugueses estavam à espera da descida da água para continuarem o seu percurso até à saída e tinham comida suficiente para vários dias. O cansaço era óbvio, mas os espeleólogos garantiram que os próximos dias serão iguais a tantos outros, já que este percalço não teve consequências graves e estiveram cientes, desde o início, que iriam regressar a casa.

Ao i, Sérgio Mendes, irmão de Carlos Mendes, garantiu, pouco tempo depois de ter falado com o espeleólogo, que este estava bem e, conhecendo-o como conhece, julga “que não vai desistir” de se aventurar dentro das grutas. “Mas, claro, há momentos em que é preciso parar para pensar”, acrescentou. Esta não foi a primeira vez que Carlos Mendes esteve na gruta Cueto-Coventosa, mas foi o primeiro susto.

Os quatro portugueses, assim como os três elementos que estavam a coordenar a expedição a partir do exterior, deverão regressar esta terça-feira a Portugal.

 

Uma aprendizagem

“Fazer uma travessia destas é um desafio do ponto de vista desportivo e pessoal, e é uma aprendizagem”, explicou ao i Vítor Amendoeira, da Federação Portuguesa de Espeleologia. Conhecer o que está por baixo dos pés é o motor que move os espeleólogos. “Para qualquer espeleólogo é importante perceber como é que funciona o sistema, como é que a água flui dentro de uma montanha – basicamente o que eles estavam a fazer era isso”, acrescentou Vítor Amendoeira.

O desafio começa assim que se entra na gruta, com a ajuda das cordas. Aliás, até à zona dos lagos, a descida é sempre feita através de cordas. “Estamos a falar de grutas com quilómetros e com um desnível de meio quilómetro”, explicou a Federação Portuguesa de Espeleologia. A travessia é feita com recuperação de cordas, ou seja, é sempre utilizada a mesma corda, o que fez com que os quatro portugueses não conseguissem fazer o caminho inverso.

A zona onde estavam os portugueses, normalmente, tem água. No entanto, durante o fim de semana, a chuva fez subir o nível da água e juntou os três lagos que existem em profundidade. Nesta situação, os espeleólogos nem terão tentado nadar: primeiro porque a temperatura da água, de cerca de seis graus, ia dificultar a recuperação, e depois porque as correntes são muito fortes.

 

A gruta mais profunda da europa 

O fator perigo tende a chamar a atenção dos mais aventureiros. E é por isso que a gruta Cueto-Coventosa está na lista das mais perigosas – seja pela profundidade, seja pela possibilidade de a água impedir a saída, como aconteceu com os portugueses. É considerada uma das travessias mais míticas da modalidade, por pôr à prova as diferentes habilidades do espeleólogo.

O resgate que aconteceu ontem constituiu a 25ª operação de socorro na gruta que tem o maior historial de ocorrências em Espanha. Em julho, a Fundação Espeleosocorro Cántabro assistiu três espeleólogas catalãs que se perderam na gruta. As mulheres foram encontradas com sinais de exaustão e hipotermia. Já em 2016, também em julho, foi assistido um grupo valenciano, com dificuldades na planificação da expedição. Ontem o grupo de resgate espanhol deixou uma mensagem nas redes sociais: “Não há maior recompensa do que o sorriso de agradecimento de um companheiro quando é ajudado por outro”, escreveram. “Estrelas solitárias só brilham na escuridão. O trabalho em equipe ilumina o céu”.

 

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