21/11/19
 
 
Manuel Alegre. Uma cidade em ciano abriu as ruas ao poeta do País Azul...

Manuel Alegre. Uma cidade em ciano abriu as ruas ao poeta do País Azul...

João Porfírio Afonso de Melo 21/10/2019 22:35

Penafiel já pintou quatrocentas mãos de azul para construir uma casa de luz e cor. Durante esta semana irá homenagear Manuel Alegre e levar a sua obra aos bairros e às escolas.

 

Também lhe chamam cião e até é mais bonito, mais poético, porque vem a propósito. “Ciano: é uma cor subtrativa (pigmento) primária e cor aditiva (luz) secundária, resultante da mistura das luzes azul e verde no sistema RGB, tendo como cor complementar o vermelho. Também chamado de verde-água ou azul-piscina ou de cor água (acqua)”. É este o arrazoado que vem na enciclopédia e nada como uma enciclopédia para irmos à procura das palavras que o povo não repete.

Uma cidade em ciano para Manuel Alegre, o poeta do País Azul. Ou o poeta das Lágrimas Azuis de Portugal. Já estavam lá, em O Canto e as Armas. “Fecha os teus olhos que me fazem mal./Que por vê-los me nasce aquela mágoa/Feita de sal e mar que não é água/senão a dor azul de Portugal./Que por vêlos as pérolas de sal/dos teus olhos são lágrimas que provo/que por vê-los eu vi chorar o meu povo/as lágrimas azuis de Portugal./Fecha os teus olhos que em Paris não cabe/todo o luar que tem essa tristeza/que nos teus olhos voa e não é ave/nem vento ou flor. Só lágrimas de sal./Que são frutos da terra portuguesa/teus olhos: lágrimas de Portugal”.

Não, agora não é Paris nem a gare de Austerlitz. Agora é Penafiel, já a partir de hoje. 21 de outubro de 2019: uma casa feita de mãos no Escritaria. Ciano ou cião, tanto faz. Homenagem à obra de Manuel Alegre. Bairro dos Livros, isto sim, faz todo o sentido. Ergue-se de novo a voz de Abril, a voz de Argel, agora que Abril já se fez há mais de trinta e cinco anos mas ainda há muitas vozes que se calam e muitas vozes que não se deixam ouvir.

“Não são de pedras estas casas, mas de mãos”, quis Penafiel dizer aos autores que a visitam. E a Manuel Alegre que viverá dias ocupados, entre honrarias e escolas a falar com crianças, levando-lhes a voz da poesia. “Com mãos se faz a paz se faz a guerra./Com mãos tudo se faz e se desfaz./Com mãos se faz o poema - e são de terra./Com mãos se faz a guerra - e são a paz./Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra./Não são de pedras estas casas, mas/de mãos. E estão no fruto e na palavra/as mãos que são o canto e são as armas./E cravam-se no tempo como farpas/as mãos que vês nas coisas transformadas./Folhas que vão no vento: verdes harpas./De mãos é cada flor, cada cidade./Ninguém pode vencer estas espadas:/nas tuas mãos começa a liberdade”.

Fonte da cruz. Nas mãos de todos começará a liberdade, com letra grande ou minúscula, à vontade do autor, que a festa é dele. Nas mãos dos garotos da Escolas Secundárias Joaquim Araújo, de Penafiel, do Pinheiro, que Manuel Alegre visitará na quinta-feira, se fará muito do futuro. Por toda a semana, a cidade será ciano ou cião, que tanto faz, num tecido nesse tom de azul que já não são mais lágrimas de Portugal mas a alegria de quatrocentas pessoas diferentes que ofereceram as suas mãos para construírem uma casa tridimensional e iluminada.

“O registo com cianotipia das mãos dos habitantes do bairro social decorre durante as 10h00 e as 17h00 dos dias 19 e 20 de outubro, no espaço exterior do bairro Fonte da Cruz, e será acompanhado de leituras de poemas de Manuel Alegre, em cuja obra o Bairro dos Livros se inspirou para conceber a instalação comunitária”. Ontem e anteontem, portanto. Hoje iniciam-se debates. Jornalistas - André Rodrigues, Fernando Alves, Sérgio Almeida, o inevitável José Carlos Vasconcelos, que conhece como pouco a obra de Alegre, o grande Germano Silva, mestre da cidade do Porto; escritores - Rui Zink, José Fanha, Nuno Meireles, Carlos Dias, Ajowan Freixo, Nuno F. Silva... Depois percorrem-se lugares: Espaço do livro Escritaria, a alma da homenagem, Exposição/Instalação Sophia e os Outros, Museu Principal, Largo Padre Américo, Bairro Dr. Mário de Oliveira...

Fonte da Cruz: bairro social. “A iniciativa pretende mostrar que os bairros não são espaços geográficos reconhecíveis apenas pela sua arquitetura, mas sobretudo pela comunidade que os habita: e todos deixam a sua marca, mesmo que esta não seja imediatamente visível”, conta a organização. Daí as mãos.

Com as mãos também se descerram lápides. Como a que ficará na escultura que leva a frase do poeta: “Não são de pedras estas casas, mas de mãos”. Com as mãos também se lançam livros: no sábado, dia 26, pelas 17h00, no Museu Municipal, do livro Os Sonetos, de Manuel Alegre, pelo professor doutor José Ribeiro Ferreira. Com as mãos se fizeram as naus que demandaram a Índia e a Nau de Verde Pinho não será esquecida em À Pesca de Poema de Manuel Alegre.

Haverá cinema - O Nosso Cônsul em Havana, de Francisco Manso, quarta-feira, às 21 horas, no Cinemax; haverá teatro - Pode Escrever-se um Poema, pela Trupe Palavras Vivas, no sábado, 11h30, Biblioteca Municipal, Auditório Germano Silva; A Vida no Campo, por Narrativensaio, de Joel Neto e Catarina Ferreira de Almeida, pelas 21h00, no mesmo sítio; Mais Olhos que Barriga, encenação do Grupo de Teatro e Novelas, no domingo, 10h30, novamente no Museu Municipal, local de encerramento de uma semana frenética com a conferência sobre a obra de Manuel Alegre, 16h30, com Teresa Saraiva, António Carlos Cortez e José Carlos Vasconcelos como convidados. Depois, sessão de autógrafos.

Escritaria 2019, em Penafiel, prolonga-se no tempo. E vai atrás no tempo, pelo que se percebe: “A performance Nau de Verde Pinho parte das divertidas figuras das obras infanto-juvenis As Naus de Verde Pinho e O Barbi-Ruivo. O Meu Primeiro Camões, de Manuel Alegre, para desafiar os mais novos a navegar pelos mares da Literatura num ambiente de fantasia, onde cabem os Descobrimentos, mas também D. Dinis e aventuras d’Os Lusíadas”. 

Talvez o poeta leia o que o fadista cantou: “Eu podia chamar-te pátria minha/dar-te o mais lindo nome português/podia dar-te um nome de rainha/que este amor é de Pedro por Inês./Mas não há forma não há verso não há leito/para este fogo amor para este rio./Como dizer um coração fora do peito?/Meu amor transbordou. E eu sem navio./Gostar de ti é um poema que não digo/que não há taça amor para este vinho/não há guitarra nem cantar de amigo/não há flor não há flor de verde pinho./Não há barco nem trigo não há trevo/não há palavras para dizer esta canção./Gostar de ti é um poema que não escrevo./Que há um rio sem leito. E eu sem coração”.

Talvez quem o ouça consiga entender a voz antiga dos trovadores e levar pelas gerações a flor de verde pinho que atravessou os cancioneiros. Também é com as mãos que e faz a poesia, mesmo que seja o coração a escrevê-la. Por vezes um coração fora do peito ou um navio que não se dá ao luxo de ter cais. Penafiel começou ontem a festa da poesia, vai trazê-la para a rua, e resolveu homenagear o poeta do País Azul. Mesmo que para isso tenha de pintar quatrocentas mãos dessa cor que se chama ciano, ou cião como os velhos reinos de Camões que outros tanto sublimaram. Com as mãos se fazem casas e cidades, se rasga o campo e o mar. Com as mãos também se faz azul que, como toda a gente sabe, é muito, muito mais do que uma simples cor.

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