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Eusébio. Golos! Golos! Golos! Viagem ao fundo de uma estatística que mete o mistério africano

Eusébio. Golos! Golos! Golos! Viagem ao fundo de uma estatística que mete o mistério africano

DR Afonso de Melo 18/10/2019 21:22

Na semana em que Ronaldo cumpriu o seu destino de chegar aos 700 golos, fomos à procura de todos os golos de Eusébio, oficiais e particulares. O número mais fiável é de 766.

Cristiano Ronaldo cumpriu o seu destino de chegar aos 700 golos, quase aos 35 anos, que Deus o mantenha por mais uns poucos a aterrorizar defesas e guarda-redes. Hoje é fácil chegar às estimativas. As folhas de excel não enganam, os jogos são transmitidos pelas televisões de todo o mundo, não é preciso andar de caderninho no bolso a apontar os golos deste e daquele para atingirmos contabilidades fiáveis.

Já me faz mais impressão, por exemplo, que a nova onda de jornalistas que entraram nas redações ignorem por completo o passado para se fixarem teimosamente na espuma dos dias. Há, claro, tantos que nunca conheceram o Eusébio, por exemplo, muitos outros que nunca devem ter ouvido falar do Eusébio e ainda uma boa maquia que nem quer saber quem foi Eusébio.

Por isso, justifica-se que não apareça algum a perguntar, com a curiosidade própria que a profissão exige: quantos golos marcou Eusébio?

A pergunta não é de fácil resposta exata. A contabilidade dos golos que marcou na sua juventude, em Moçambique, pelo Sporting de Lourenço Marques e pela seleção de Lourenço Marques não é completamente fiável. Ah! Não venham cá com a história dos jogos oficiais ou menos oficiais. Quem decide o assunto são as federações nacionais, não vem depois uma UEFA ou FIFA qualquer estabelecer a sua contabilidade particular à medida dos seus interesses comerciais. O L’Équipe não foi pedir a autorização à UEFA, que só existe desde 1954, para organizar a Taça dos Campeões Europeus. Por isso, a UEFA que se ponha no seu lugar.

Nuno Ferrari Os biógrafos de Eusébio mais dados a estas coisas de estatísticas apontam um número: 1137, contabilizando o seu período moçambicano, o seu tempo no Benfica e nas seleções nacionais, europeias e do mundo, e o seu final de carreira no México e Estados Unidos. A verdade é que o mais cuidadoso de todos os que realizaram registos dos seus golos foi o seu amigo/irmão Nuno Ferrari, extraordinário fotógrafo de A Bola. O Nuno mantinha um caderno com todos os jogos, minutos e pontapés certeiros de todas as presenças em campo de Eusébio desde que chegou à Metrópole. Tive a sorte de me ter escolhido para deixar a obra, que guardo nos meus arquivos com o cuidado e o carinho que o Eusébio e o Nuno sempre me mereceram. Claro que também há a ficha de Eusébio no Benfica, preenchida à mão, a letra requintada, da qual possuo uma cópia. Não são folhas de excel, como é óbvio, nem números escrutinados por computador. Mas, convenhamos, se há organizações nas quais me fio muito, muito pouco, são essas tais UEFA e FIFA, tão cheias de vento como, basicamente, de coisa alguma.

Golos certos, certos são os que aqui ficam: 320 marcados no campeonato nacional (317 pelo Benfica e três pelo Beira-Mar); três golos pelo União de Tomar na ii Divisão; 97 golos marcados na Taça de Portugal (todos pelo Benfica); 57 golos marcados no conjunto das provas europeias – Taça dos Campeões, Taça das Taças, Taça UEFA (todos pelo Benfica); 41 golos marcados pela seleção nacional; nove golos pela seleção militar; 26 golos marcados pelas reservas do Benfica (19 em jogos oficiais e sete em jogos particulares); oito golos pela seleção da UEFA; um golo pela seleção da FIFA; dois golos marcados pelo Boston Minutemen; um golo pelo Monterrey; cinco pelo New Jersey Americans; 21 pelo Toronto Metros-Croatia; e mais dois pelo Las Vegas Quicksilver. Assevera José de Oliveira Santos, num estudo que fez sobre os golos de Eusébio, que este assinou 37 hat-tricks pelo Benfica, tendo marcado quatro golos por 19 vezes, cinco golos por seis vezes e seis golos por quatro vezes.

Peguem na calculadora e façam contas: neste resumo, atingimos os 593. O caderno do Nuno Ferrari não hesita nos particulares: 45 golos distribuídos pelas mais diversas equipas do mundo. Um total que ultrapassa o número de jogos disputados com a camisola da águia: 614.

Fica sempre o problema pendente dos golos africanos de Eusébio. Logo na estreia pelo Sporting de Lourenço Marques, para o campeonato moçambicano, frente ao Desportivo, marcou dois do resultado de 4-1. No total, terá marcado 29 no seu ano inicial. Cumpriu, dentro do que é possível apurar com o máximo rigor, 42 jogos com a camisola dos leões de Moçambique, apontando 77 golos. Também envergou a camisola da seleção de Lourenço Marques e há nota de reportagem de uma deslocação à Maurícia na qual, em dois jogos contra a seleção local, Eusébio marcou sete golos.

Pormenores Em 204 jogos oficiais pelo Benfica no Estádio da Luz, Eusébio marcou 285 golos. Pela seleção nacional só marcou um golo na Luz por Portugal, frente à Escócia, em 1971. Na época de 1967-68 cometeu também a proeza de ter marcado em todos os jogos para o campeonato nacional disputados na Luz. Dos 204 jogos oficiais realizados por Eusébio pelo Benfica no Estádio da Luz, os encarnados venceram 176.

Entre o dia 17 de maio de 1962 e o dia 30 de agosto de 1962, Eusébio cumpriu uma impressionante série de 17 jogos consecutivos a marcar golos. Começou no Portugal-Bélgica (particular, Lisboa, 17-5-68) – 1-2 (um golo marcado); e prosseguiu assim: Benfica-Beira-Mar (campeonato, 20-5-62) – 8-1 (três); Sporting-Benfica (campeonato, 27-5-62) 3-1 (um); Al-Ahly-Benfica (particular, 1-6-62) 3-2 (um); Apoel Nicósia-Benfica (particular, 3-6-62) 1-5 (três); Omónia Nicósia-Benfica (particular, 6-6-62) 2-6 (dois); Fenerbahçe-Benfica (particular, 8-6-62) 1-3 (um); V. Guimarães-Benfica (Taça, 17-6-62) 2-2 (um); Benfica-V.Guimarães (Taça, 23-6-62) 6-0 (quatro); Benfica-V. Setúbal (Taça, 1-7-62) 3-0 (dois); seleção de Luanda-Benfica (particular, 4-7-62) 2-5 (dois); seleção de Lourenço Marques-Benfica (particular, 7-7-62) 3-7 (três); Benfica-Montijo (particular, 17-8-62) 9-2 (dois); Copenhaga-Benfica (particular, 21-8-62) 4-5 (três); IFK Gotemburgo-Benfica (particular, 23-8-62) 2-2 (um); Malmö-Benfica (particular, 28-8-62) 0-1 (um); seleção de Oslo-Benfica (particular, 30-8-62) 0-4 (um). Total: 32 golos.

O último golo oficial de Eusébio pelo Benfica foi marcado no dia 23 de março de 1975, no Bonfim, em Setúbal, num jogo a contar para a 26.a jornada do campeonato nacional. O Benfica perdeu por 2-1 e Eusébio fez o 0-1, aos 20 minutos. O guarda-redes era Vaz, que nesse mesmo encontro defendeu um penálti de Eusébio. Já o último golo marcado por Eusébio ao serviço da seleção nacional foi frente à Irlanda do Norte. Finalmente, o último golo de Eusébio pelo Benfica foi marcado no dia 31 de março de 1975, num particular frente ao FC Porto disputado em Paris, no Estádio Colombes. O Benfica venceu por 5-1, com golos de Humberto Coelho (dois), Artur Jorge, Toni e Eusébio para o Benfica e Fernando Gomes para o FC Porto. O golo de Eusébio fez o 2-0 e nasceu aos 17 minutos, na marcação de um livre direto em jeito, estilo folha seca, sem hipóteses para Tibi.

Quando perguntei a Eusébio qual o golo mais bonito da sua carreira, ele respondeu de supetão: “Contra o La Chaux de Fonds, da Suíça, para a Taça dos Campeões”. Dia 9 de dezembro de 1964, Estádio da Luz, 5-0. O golo de Eusébio foi o terceiro, no minuto 52. “Recebi a bola no meio-campo. Como a bola vinha a meia altura, aproveitei para a dominar em movimento e para a passar por cima da cabeça do primeiro suíço que veio ao meu encontro. Continuei a corrida e, conforme a bola caiu na minha frente, voltei a fazer o mesmo ao adversário seguinte, bola por cima da cabeça e eu sempre a correr; finalmente, repeti o gesto, e passei a bola por cima da cabeça de mais um… Com isto, já estava à entrada da grande área e, aí, não hesitei: quando a bola voltou a descer, chutei-a com muita força e ela entrou no ângulo superior da baliza!” E acrescentou: “Quando me preparava para comemorar, vi o guarda-redes suíço correr na minha direção feito doido. Ainda pensei que estava furioso, que queria agredir-me ou coisa que o valha. Afinal, não era nada disso. Queria era ser o primeiro a dar-me um abraço e os parabéns pelo golo”. O guarda-redes chamava-se Eichmann.

 

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