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José Paulo do Carmo 18/10/2019
José Paulo do Carmo

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Praxes de cariz sexual

'Não podemos deixar que proliferem este tipo de abusos, ainda para mais quando estes têm início na instituição que serve para formar e ensinar'.

Mais um ano, mais uma voltinha. Parece que não aprendem. Estes estudantes que têm a mania que o mundo gira à volta deles, como se este se iniciasse nas capas e terminasse nos “kopos”. A realidade é que vamos assistindo impávidos e serenos ao acumular de praxes ridículas que só nos chamam verdadeiramente a atenção quando resultam em tragédia. Depois, passado um tempo, voltam para a caixinha do “não queremos saber”, mesmo que elas se passem ao nosso lado e que invariavelmente ultrapassem os limites do bom senso e da saudável integração académica dos novos iniciados. Desta vez veio da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, o que, por princípio, começa logo mal. Se os nossos advogados e juízes do futuro não sabem o que é o respeito nem respeitam as regras da sociedade, estamos ou estaremos muito mal entregues. Nada de novo, portanto.

No dia 1 de outubro, parece que este grupo de praxe “Capas e Kopos” promoveu um convívio que consistia numa série de práticas de cariz sexual em que as mulheres convidadas eram persuadidas a executar um determinado número de tarefas a troco de bebidas alcoólicas (shots). Desde “escolher alguém para te morder o rabo” a “beijar uma amiga” ou fazer um strip no palco, passando ainda por “mostrar as mamas”, eram muito variadas as formas de gozo para gáudio masculino. O cartaz sublinhava, aliás, que este acordo era apenas válido para as meninas, numa espécie de tribunal machista a fazer lembrar as antigas sociedades secretas das faculdades americanas.

O caso acabou, e bem, por ser denunciado pelo departamento de defesa dos direitos humanos da Associação Académica de Coimbra, o que motivou um vídeo de repúdio em que o referido grupo de estudantes, trajados a rigor e em formação parecida a um jogo de râguebi, vêm tecer uma série de comentários patéticos acerca da inimputabilidade e das liberdades fundamentais, acabando mesmo por referir que estas estarão ameaçadas pelas “feministas nazis”. O que está aqui em causa não me parece que tenha sido entendido por estes “incautos” rapazes. Na verdade, esta horda que subsiste há muito na sociedade portuguesa, criando um direito à parte onde tudo é desculpável e tudo é a brincar (até não ser), acha que está acima de tudo e de todos, e que tudo lhe pode ser permitido. Mas estas ações têm de começar a ter consequências.

Não podemos deixar que proliferem este tipo de abusos, ainda para mais quando estes têm início na instituição que serve para formar e ensinar. Corremos o risco de continuarmos a ver crescer uma sociedade que nasce torta e que acaba, assim, por nunca se endireitar, escolhendo os caminhos errados e aceitando como legais ações que são puníveis por lei. Só porque são estudantes e é tudo “na boa”. Não é de agora que a praxe excede todos os limites e a história, aqui, vai muito para além do que é machismo ou feminismo, mas no poder que uns usam para subjugar e humilhar outros através da violência física, verbal e, neste caso específico, também sexual. Esta impunidade que vai correndo a céu aberto devia envergonhar quem lhe é conivente, já que quem a realiza não tem, pelos vistos, a capacidade de perceber o que faz. E isto envergonha-nos a todos enquanto país que vai permitindo que se escondam, atrás de uma capa de clandestinidade e tradição, uma série de atitudes cobardes que prejudicam e marcam de forma indelével pessoas e que estragam, sujam e partem património público por onde passam. Como se tudo fosse deles. Ao funcionarem em bando, instigam-se e acicatam-se uns aos outros, saindo como o grande líder precisamente aquele que é mais parvo ou que tem a capacidade de cometer mais atrocidades. Espírito académico não é isto. Se não aprendem a funcionar em sociedade agora, mais tarde, tudo tenderá a piorar nos seus percursos.

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