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Mon€y. À espera de que a consciência não voe

Mon€y. À espera de que a consciência não voe

José Caldeira Cláudia Sobral 17/10/2019 22:15

A consciência que, nesta peça de Deborah Pearson para a Mala Voadora, pode até atravessar um período errático – ironia, claro. O problema é o dinheiro. Mas, dinheiro à parte, para que serve afinal o teatro, ou a arte?

Motivo para uma gargalhada? Talvez, desde que sincronizada. E explicamos: isto, o que vemos no palco, é uma sitcom da qual nós, público da Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, somos plateia. De preferência, plateia que se preste a sentir emoções prescritas. Diversão de espetáculo engarrafado, assim é o showbiz, e disso Jorge Andrade, o anfitrião, parecerá não ter pena nenhuma. Pelo menos, até que venha Deborah Pearson trocar-lhe as voltas.

Mas não largando ainda aquele início, desse primeiro pressuposto partirá esta encenação de sitcom em que se transformou o convite da Mala Voadora à dramaturga e produtora teatral que codirige o Forest Fringe de Edimburgo para a escrita de um texto para a companhia que para este ano se propôs a pensar através das suas produções o tema do dinheiro – já em maio, a companhia havia levado à Culturgest um outro espetáculo (Dinh€iro) em que, num remake da série Dallas, com as figuras que os países orgulhosamente exibem nas suas notas como pano de fundo. Fossem paisagens, fossem animais exóticos, fossem monumentos.

Aqui, teremos de nos contentar com isto: showbusiness, e do televisivo, com aquilo que propõe: “Ficar sentado, relaxar, já escrevemos os sentimentos para saberem quando os devem expressar”, enumera Jorge Andrade, encenador deste novo espetáculo, Mon€y, que estreia esta noite no Teatro Nacional D. Maria II. “Obviamente não é essa a perspetiva que defendemos”, sustenta o diretor da companhia, que em Mon€y encontra também uma reflexão para aquele que se vem sedimentando como o posicionamento da Mala Voadora nas suas propostas. “Durante o processo, a Deborah veio várias vezes a Portugal e, em residência, discutimos os textos”.

Uma das linhas dessa reflexão levou-os de volta a que a Mala Voadora regressa recorrentemente: “Na situação limite de catástrofe ecológica e económica – já paira sobre nós a nuvem negra de um comeback – em que vivemos, parece que nós, artistas, como reflexo do mundo, temos de ter uma espécie de voz, de tomar uma posição, porque a situação é demasiado grave”. E continua Jorge Andrade: “Temo-nos debatido com esta questão na Mala Voadora, porque temos estado constantemente a chamar temas políticos para os nossos espetáculos. Será que enquanto artistas devemos, de facto, imiscuir-nos na área política, que não é a nossa? Ou o nosso papel é o de oferecer mundos, para que as pessoas possam olhar para a realidade de uma outra perspetiva?”.

moralizar ou questionar De respostas fechadas, apenas uma: se for para empurrar essa ideia de arte sempre política para um canto, ao menos que não seja “da forma que a peça sugere”. A forma da cultura televisiva e do descartável acima de tudo: da possibilidade de pensar, de uma consciência. E não esqueçamos as gargalhadas gravadas, pré-programadas. “Para uma geração mais nova, as redes sociais têm ocupado esse papel mas, até agora, tem sido o poder da televisão a massificar opinião, mesmo através dos produtos culturais que [aí] vão sendo oferecidos”.

Daí este dispositivo em que, de repente, até um espetáculo de teatro pode ser produto televisivo. “A Deborah teve esta ideia de uma gravação de uma sitcom em que tudo decorre belissimamente. Em que o assunto do dinheiro nunca aparece, como convém nestes programas, nos quais o que queremos é passar uma hora divertidos”. O problema é quando ele chega. O dinheiro. E não só o feitiço se voltará contra o feiticeiro, mas a autora – Deborah Pearson – contra o seu próprio texto. É no que dá assistir a documentários na Netflix.

Vem então o terramoto da tomada de consciência de quem não mais compactuará não só com o que toda uma vida engoliu: também com o que toda uma vida impingiu. Entre ela e um anfitrião desesperado para que a falta de noção volte como normalidade, escolher quem? Felizmente, isto não é Jorge Andrade a fazer de si próprio. Aquele com que conversamos, dá-nos uma resposta perante esta, ainda assim, hipérbole da realidade. Em que se entopem canos com azeite de trufa ou em que um rabo pode ser contratado em outsorcing para serviços de envio de mensagens, num questionamento sobre uma cultura em que impera a “diluição da responsabilidade” a partir da qual se torna impossível fazer valer qualquer espécie de direito. “Uma coisa é ser-se explicitamente político e moralizante; outra é oferecer-se um produto que possa de facto questionar a forma como as pessoas olham para a realidade”.

De resto, para Mon€y, é tomar como premissa a forma como Jorge Andrade costuma descrever os espetáculos da Mala Voadora: “Uma espécie de OVNI que aterra no quintal da casa das pessoas e que as leva questionar o que é verdade e o que não é.” E, a partir daí, perceber “como se comportam no seu quotidiano quando veem um extraterrestre na parte de trás da sua casa”.

 

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