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Quem tramou Michael Hutchence?

Quem tramou Michael Hutchence?

Hugo Geada* 17/10/2019 20:35

O controverso caso do suicídio de um dos músicos mais populares dos anos 1990, autor de êxitos como Never Tear Us Apart ou Blond Suicide, é revisitado no novo documentário Mystify: Michael Hutchence.

No funeral do carismático vocalista australiano da banda INXS, Michael Hutchence, Nick Cave, seu amigo e conterrâneo, cantou Into My Arms; os membros da banda transportaram o caixão e, na véspera de ser enterrado, Paula Yates, a sua última companheira e mãe da sua filha, colocou-lhe um grama de heroína no bolso, num episódio recordado pelo seu irmão ao Sydney Morning Herald.

Esta pode parecer a história de um homem peculiar e amado mas, nos dias que se seguiram à sua morte, o seu nome haveria de ser arrastado pela lama por tablóides que, além de o reduzirem a um mulherengo, se apressaram a anunciar a causa da sua morte (só cinco anos mais tarde desmentida pela divulgação dos resultados da autópsia): asfixia autoerótica.

O que esses mesmos jornalistas omitiram foi a depressão de que o músico sofria e os traumas que enfrentou na sua infância ao ser separado do irmão. O que interessava aos tabloides, que meses antes da sua morte divulgaram, como se de um livro aberto se tratasse, a sua vida pessoal, era antes o seu relacionamento amoroso com Paula Yates, casada com Bob Geldof, vocalista de Boomtown Rats e ativista responsável pela organização do Live Aid, e a batalha legal em que estes disputavam a custódia das suas filhas, que impediu Yates e a sua filha Tiger Lily (tinha 16 meses quando o pai morreu) de acompanhar o músico numa tour pela Austrália. Foi um dia depois de receber esta notícia, em 22 de novembro de 1997, que Michael Hutchence foi encontrado morto num quarto do hotel Ritz-Carlton, em Double Bay, Sydney.

A pintura incompleta e descontextualizada da sua vida recebe agora umas novas pinceladas com o documentário Mystify: Michael Hutchence (nome retirado da música lançada em 1987, do álbum Kick), que vai estrear-se dia 18 de outubro nas salas de cinema do Reino Unido, no qual o realizador Richard Lowenstein, responsável por grande parte dos videoclipes dos INXS, pretende mostrar o lado mais sensível de um homem que, nos seus melhores dias, era um animal de palco comparável a Mick Jagger, Iggy Pop ou Jim Morrison.

Com uma narrativa assente na sua maioria em vídeos caseiros e com testemunhos de algumas das mulheres mais importantes da sua vida, como Kylie Minogue (parceira romântica entre 1991 e 1995), Helena Christensen (companheira entre 1991 e 1995) ou Michelle Bennet (namorada entre 1982 e 1987), é revelado um homem carinhoso e gentil. “Eu sentia-me segura e a salvo junto dele”, revela Minogue, que surge com o músico em vídeos caseiros em diversos momentos de intimidade em quartos de hotel.

os últimos dias Apesar de desmistificar muitas das teorias sobre a morte do músico, o documentário relata um acontecimento que pode ter sido fundamental para explicar o seu comportamento nos últimos dias de vida. Para percebermos o que se passou temos de recuar ao ano de 1992 e viajar para Copenhaga, onde Hutchence se envolveu num episódio, descrito por Helena Christensen (a sua companheira da altura), em que um conflito com um taxista fez com que caísse e batesse com a cabeça no chão. “Ele ficou inconsciente no chão e com sangue a escorrer pela boca e pelo ouvido. Pensei que tivesse morrido”, recorda a modelo dinamarquesa. “Quando acordou no hospital, ficou tão violento que os enfermeiros o deixaram ir embora sem fazer mais exames”.

Este incidente deixou sequelas e, segundo relatam os seus ex-parceiros de banda, foi a partir daí que o músico começou a ter um comportamento normalmente associado à bipolaridade. “Deixou de ser o Michael que conhecíamos”, conta Kirk Pengilly, guitarrista do INXS. “Às vezes tínhamos o Michael normal e noutros dias ele era violento e irritante. Era bipolar, errático, e também começou a ser assim na música”.

O australiano revelou em diversas entrevistas que este acidente o ajudou a perceber “o que era realmente importante”. O que nunca revelou foi que o seu crânio e nervos ficaram irremediavelmente danificados e que acabaria por perder de forma total o olfato e o paladar.

Enquanto Christensen insistia com o vocalista para que fosse a um médico procurar ajuda, os restantes associavam este comportamento à pressão que os média exerciam sobre ele e a ansiedade de vir a perder o seu estatuto de superestrela perante os fenómenos musicais mais recentes. Em 1996, Michael entregou o Brit Award, maior prémio da música pop no Reino Unido, a Noel Gallagher para galardoar o videoclipe de Wonderwall, ao qual reagiu imediatamente depois com um “has-beens shouldn’t present awards to gonna-bes” (em tradução livre, aqueles que deixaram de estar na moda não deveriam entregar prémios aos artistas que estão em ascensão).

Apesar de não responder de uma forma concreta sobre a verdadeira razão da morte do artista, este documentário, que não tem ainda data confirmada de estreia em Portugal, oferece, através dos relatos íntimos dos que o amavam, novos contornos a uma personalidade que muitos tomavam como garantida e bidimensional.

O realizador revela que Tiger Lily (que também aparece na montagem final, hoje com 22 anos) viu uma versão inacabada do documentário e disse, depois da descarga emocional que lhe provocou, que nunca mais será capaz de o rever. “Ela ficou muito emocionada, não conhecia estes detalhes da vida do pai. Nunca ninguém lhe tinha explicado”. Se ninguém lhe explicou a ela, a nós também não.

*Texto editado por Cláudia Sobral

 

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