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Petr Cech. Só mudou a modalidade: a excelência continua toda lá

Petr Cech. Só mudou a modalidade: a excelência continua toda lá

AFP Photo Bruno Venâncio 16/10/2019 18:50

Depois de vários anos a defender as redes de Chelsea, Arsenal e República Checa, o checo resolveu dedicar-se a uma nova modalidade. Continua a ser guarda-redes... e foi herói logo no primeiro jogo.

O anúncio do fim da carreira no final de 2018/19, feito logo com seis meses de antecedência, não surpreendeu ninguém: afinal de contas, Petr Cech teria 37 anos por essa altura e, provavelmente, seria o momento certo para o adeus aos relvados de um dos melhores guarda-redes do futebol mundial nos últimos 20 anos. Bem mais inesperada foi a revelação sobre o seu passo seguinte, feita há pouco mais de uma semana: o antigo internacional checo assinou pelos Guildford Phoenix, uma equipa inglesa... de hóquei no gelo.

E a estreia não podia ter corrido melhor: no primeiro jogo como guarda-redes (sim, há coisas que realmente nunca mudam) dos Phoenix, Cech foi herói, revelando-se decisivo para o triunfo da sua equipa frente aos Windon Wildcats. Além de várias defesas de grande nível durante a partida, o checo deteve ainda duas tentativas dos opositores no desempate por grandes penalidades, sendo eleito o homem do jogo.

Petr Cech, é preciso dizê-lo, não passou a ser profissional numa nova modalidade – até porque no verão passado, depois de quatro épocas a defender as redes do Arsenal, voltou ao Chelsea para desempenhar as funções de conselheiro para a área técnica. Os Guildford Phoenix competem na ii Divisão – Zona Sul da liga inglesa, cujo estatuto é apenas semiprofissional.

Para Bolt e Jordan não deu A mudança de desporto de Cech está longe de ser algo inédito: ao longo da história, muitos têm sido os desportistas que atingem a excelência numa determinada modalidade e depois, seja para perseguir um sonho de infância, pelo desejo de testar os seus limites ou simplesmente pelo desafio, decidem tentar a sua sorte noutra.

Nos anos mais recentes, o exemplo mais mediático foi o de Usain Bolt. Depois de se tornar uma lenda da velocidade na história do atletismo, com oito medalhas de ouro olímpicas e 11 em Mundiais, entre inúmeros sucessos, o jamaicano de 32 anos anunciou o fim da carreira e decidiu lutar a sério pelo sonho (nunca escondido) de jogar futebol a nível profissional. Após ter estado à experiência no Stromgodset, da Noruega, Bolt juntou-se aos australianos do Central Coast Mariners em agosto de 2018 e a 12 de outubro, na estreia como titular, atuou no ataque e apontou dois golos num particular frente a uma equipa secundária, deixando bem patente o desejo de repetir o feito duas semanas depois, na abertura do campeonato.

Acabaria por não conseguir cumpri-lo: por falta de acordo em relação ao contrato, o jamaicano não mais voltou a jogar pelos Mariners e abandonou o clube em novembro – já depois de ter recusado uma oferta para assinar por duas temporadas pelo Valletta, de Malta. Em janeiro deste ano viria a anunciar a retirada definitiva do futebol e de qualquer outro desporto: “Foi divertido enquanto durou”.

O caso mais badalado das últimas décadas, ainda assim, continua a ser o de Michael Jordan. Apontado por muitos como o maior jogador de basquetebol da História, o norte-americano chocou o mundo em 1993 quando, aos 30 anos e acabado de se sagrar tricampeão da NBA pelos Chicago Bulls, anunciou a retirada dos pavilhões. Alguns meses depois, surpresa ainda maior: foi oficializado como reforço dos Chicago White Sox, uma equipa... de beisebol. Mais tarde, Jordan acabaria por revelar que a mudança de modalidade se deveu ao desejo de homenagear o pai, assassinado em 1993 e que tinha o sonho de ver o filho na MLB, a principal liga de beisebol norte-americana.

Tal como no caso de Bolt, também Michael Jordan não conseguiu ter o mesmo sucesso nas duas modalidades. Ainda alinhou em mais duas equipas no beisebol (Birmingham Barons e Scottsdale Scorpions), mas rapidamente poria fim a essa aventura e voltaria ao basquetebol, onde realmente era uma instituição – e onde ajudou os Chicago Bulls a vencer mais três títulos consecutivos (1996, 1997 e 1998).

Dos primórdios aos dias de hoje Estes foram dois exemplos de quem fracassou na tentativa de se destacar noutro desporto. Há, porém, inúmeros casos de atletas que foram, de facto, excecionais em duas (ou mais) modalidades diferentes ao longo da História.

Nos primórdios do séc. xx, dois norte-americanos marcaram o desporto mundial. Mildred Ella Didrikson Zaharias (conhecida por Babe) disputou campeonatos de basquetebol, atletismo, golfe, beisebol, ténis, natação, boxe, voleibol, andebol, bowling, snooker, patinagem e ciclismo, sendo campeã olímpica nos 80 metros barreiras e no lançamento do dardo e medalha de prata no salto em altura em 1932 – e só não participou em mais duas modalidades porque as regras da altura não permitiam. Depois ganhou gosto pelo golfe, ganhando dez majors e 41 competições da Liga Profissional Feminina – em 1999, viria a ser eleita pela Associated Press a melhor atleta feminina do século.

Alguns anos antes, Jim Thorpe mostrava igualmente como se podia brilhar em vários desportos. Medalha de ouro em pentatlo e decatlo nas olimpíadas de Estocolmo, em 1912, o americano de ascendência indígena foi jogador profissional de futebol americano durante 13 anos, de beisebol durante sete e de basquetebol por mais dois. Ainda hoje, o prémio da NFL (liga de futebol americano) para melhor defensive back de cada temporada tem o nome de Thorpe.

No Brasil, a história de Preguinho é lendária. Foi ele o autor do primeiro golo de sempre da canarinha num Mundial, logo em 1930. João Coelho Netto, assim era o seu nome de nascimento, era o capitão de equipa e estrela do Fluminense, do qual ainda hoje é o oitavo maior artilheiro, mas foi igualmente figura em mais nove modalidades: remo, vólei, basquetebol, polo aquático, mergulho, atletismo, hóquei, ténis de mesa e natação. Ao longo da carreira obteve um total de 387 medalhas e 55 títulos, tendo chegado a ser campeão de futebol e de natação... no mesmo dia.

Nos tempos mais recentes encontramos os casos de Bo Jackson (futebol americano e beisebol), Dwayne “The Rock” Johnson (futebol americano e luta livre, antes de se tornar estrela de Hollywood), Rebecca Romero (remo e ciclismo), Fabien Barthez (futebol e automobilismo) ou Paolo Maldini (futebol e ténis). E depois há o exemplo máximo de superação trazido por Alex Zanardi. Antigo piloto de Fórmula 1, sofreu em 2001 um grave acidente na categoria Indy que obrigou à amputação das duas pernas. Mas o italiano não desistiu: primeiro voltou às corridas com um carro adaptado e depois passou a competir no paraciclismo, conquistando duas medalhas de ouro e uma de prata nos Jogos Paraolímpicos de 2012, em Londres, e quatro anos depois, no Brasil.

Jesus Correia, Espírito Santo e Bessone

Não há amante da história do futebol português que não tenha ouvido falar de Jesus Correia, um dos Cinco Violinos do Sporting nas décadas de 40 e 50 do século passado e que foi igualmente um atleta de eleição no hóquei em patins, que abraçou quando obrigado pelos leões a dedicar-se apenas a uma modalidade. Já Espírito Santo destacava-se no Benfica após ter sido campeão nacional de salto em comprimento e triplo salto – deteve durante 20 anos o recorde nacional de salto em altura. O maior rosto do ecletismo em Portugal, ainda assim, será António Bessone Basto: atleta olímpico, internacional em três modalidades (andebol, natação e polo aquático) e competidor em mais sete (caça submarina, karaté, judo, basquetebol, ténis, ténis de mesa e râguebi), tendo conquistado mais de 1500 medalhas ao longo da carreira.

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