13/11/19
 
 

O doloroso regresso ao país real

Passadas as eleições, voltamos a confrontar-nos com os problemas concretos que se agravam sistematicamente.

1. Era previsível. A realidade volta a impor-se no nosso quotidiano. Passou o tempo de campanha que monopolizou os noticiários e a imprensa pelo olhar do jornalismo, tal como as delirantes redes sociais. Volta-se ao quotidiano das surpresas. Começaram pela estranha circunstância de só agora se ter sabido que o próprio ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, viu as suas instalações visitadas no quadro da investigação ao “Golasgate”, intimamente ligado também ao “Familygate”. Há também nota de um ex-governante socialista envolvido como consultor numa empresa que explora o lítio (“Litiogate”?), uma espécie de ouro deste século. Os professores estão em greve às horas extraordinárias e, além disso, não chegam para as encomendas, pelo que há alunos sem aulas ainda agora. Nada de especial, uma vez que Mário Nogueira está mais solto do que nunca. Na saúde há urgências pediátricas a fechar e há falhas por todo o lado no Estado. Na sociedade continua a onda assustadora de feminicídios. Voltámos à informação pesada que nos transmite a face mais horrível do que somos coletivamente. A juntar a isto há problemas do lado do dinheiro. O jornal Público revelou que no Banco de Portugal houve, em 2018, uma discussão séria à volta do Montepio, havendo um administrador que pensa podermos estar perante um esquema de Ponzi na associação mutualista. Tratar-se-ia de uma pirâmide financeira em que os de baixo alimentam os de cima e há uns quantos que acabam sem o investimento. Na América foi o que se viu com Bernie Madoff. Ao que diz a notícia, pode ser um novo BES que, claro, todos os contribuintes irão pagar. Nesta coluna há anos que vimos chamando a atenção para esta situação, mas das autoridades (primeiro, do Ministério da Segurança Social e, agora, do novo regulador) só se ouviu um silêncio ensurdecedor. Vieira da Silva sai de fininho do Governo e deixa um rasto de incompetência e bandalheira. É de esperar que a criatura reapareça um destes dias numa qualquer cadeira de sonho. É também provável que mais para a frente tenha de se sentar perante uma comissão de inquérito para explicar o que sabia ou não sobre situações da sua área, nomeadamente no mutualismo. Esperemos que, se acontecer, não lhe falhem os neurónios da memória. Na Caixa Geral de Depósitos, a gestão de Paulo Macedo é aterradora. Fechou delegações e alimenta-se de comissões. Deve pensar que a Caixa é o fisco e tem direito de saque sobre os cidadãos. Haverá alguém que lhe explique que já não está Autoridade Tributária? Era suposto ser banqueiro e ganhar com o dinheiro que os clientes lhe confiam. Mas, isso, não consegue. Nem ele nem, aliás, nenhum banqueiro nacional há muitos anos. É raça que não é manifestamente autóctone. Estamos cheios de casos tristes, o mais grave dos quais foi Alves dos Reis, seguido de outros já nos nossos dias. A diferença é que Alves dos Reis foi preso, cumpriu pena e morreu pobre…

2. Olhando para a política, estamos na fase da ponderação, o que se percebe. António Costa negoceia a forma de constituir um Governo que, embora com um PS mais forte, será fatalmente mais frágil. Guterres era mais hábil e tinha mais deputados, mas caiu. Costa é um funambulista político. Pode aguentar mais tempo e até completar o ciclo de quatro anos, mas, aí, terá de fazer tantas cedências que dificilmente reformará alguma coisa. Andará ao sabor do vento, mas acabará fatalmente por se confrontar com uma realidade complexa quando Centeno desertar, visto que o ministro é o primeiro a saber que não dá para continuar a governar na mera lógica do défice zero ou do superávite com um país a cair aos pedaços e gente desvalida. Costa escolheu Ana Catarina Mendes para a liderança parlamentar. É o seu braço-direito, é determinada e tem capacidade de diálogo. Uma escolha significativa e inteligente. 

3. No PSD, Rui Rio deve decidir hoje se efetivamente se recandidata à liderança, como lhe possibilita um resultado eleitoral bastante honroso. A sua ponderação parece ser mais pessoal do que política. Até porque, politicamente, há toda uma panóplia de oportunidades que se adivinham em que o maior partido da oposição poderá ser útil ao país e crescer em termos de popularidade. De facto, quem ficar à frente do PSD terá tempo para preparar os próximos combates, designadamente as autárquicas, que são as eleições em que verdadeiramente se mede a força dos partidos no terreno de onde se parte para ganhar legislativas.

4. Entretanto, a análise fina dos locais onde o Chega ganhou eleitores não surpreende e tem razões ancestrais de desconfiança entre comunidades. O Chega tem verdadeiramente proclamações xenófobas e o seu crescimento dá-se em áreas onde tradicionalmente tem havido uma supremacia do comunismo. Se olharmos para França, verificamos que foi assim que o pai Le Pen encetou o seu caminho com a então chamada Frente Nacional. Agora, com um palco na Assembleia da República, André Ventura tem instrumentos que o tornam ainda mais temível politicamente. Isolá-lo e hostilizá-lo não é solução. A técnica do abraço do urso é a mais indicada para o conter.

5. No CDS, a situação é caricata. Todos empurram outro e ninguém quer avançar. O partido agoniza e o mais provável é João Almeida ter de aguentar o petisco porque é, dos deputados eleitos, o que não rejeitou a hipótese liminarmente. Portas nem uma palavra dedicou ao seu partido na crónica de domingo na TVI. Assunção Cristas nada diz quanto à permanência na Assembleia, mas é provável que aguente até resolver a sua vida profissional. 

6. A Iniciativa Liberal já deu que falar. O seu deputado disse que ia votar contra o programa do Governo. Não sabia sequer que o programa não se vota. O mais que acontece é ter de se votar moções de rejeição. E ele, sozinho, não pode apresentar uma. Também disse numa entrevista que era a favor de um IRS único de 15% para toda a gente. Ótimo para os que mais ganham. E péssimo para os muitos milhões que estão isentos. Seria o maior aumento da carga fiscal de sempre. Mais que Centeno! Há que crescer em maturidade política, malta da “pub”!

Escreve à quarta-feira

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