27/06/2022
 
 
José Cabrita Saraiva 16/10/2019
José Cabrita Saraiva
Opinião

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Costa trouxe confiança, mas o excesso dela pode ser fatal

 Como certos guarda-redes, que têm o dom de se colocar entre os postes de forma que as bolas parecem ir ter com eles, o primeiro-ministro também possui essa qualidade de se encostar ora mais à esquerda, ora mais à direita, e de formar alianças improváveis que lhe permitem superar os momentos mais críticos.

António Costa apresentou ontem a constituição do seu novo Governo. É uma equipa sem grandes surpresas, que confirma a ascensão supersónica de Pedro Siza Vieira e mantém alguns dos nomes mais contestados, como Marta Temido (Saúde) ou Brandão Rodrigues (Educação). Nisso, o primeiro-ministro faz bem, como já fez noutras ocasiões, em permanecer fiel às suas convicções e não ceder a pressões exteriores.

Sem geringonça e com a atual configuração do Parlamento, parece difícil manter a estabilidade ao longo dos próximos quatro anos, mas Costa já mostrou que é capaz de fazer equilíbrios impossíveis, por isso tudo se pode esperar dele. Como certos guarda-redes, que têm o dom de se colocar entre os postes de forma que as bolas parecem ir ter com eles, o primeiro-ministro também possui essa qualidade de se encostar ora mais à esquerda, ora mais à direita, e de formar alianças improváveis que lhe permitem superar os momentos mais críticos.

Mas há um risco silencioso de que poucos falam. Após o período de austeridade, Costa apresentou-se como o líder da coligação que libertou o país do sufoco financeiro e que devolveu os rendimentos e o otimismo aos portugueses. O problema é precisamente esse: o anterior clima de exigência dissipou-se muito depressa e de um momento para o outro todos pensaram que podiam gastar à vontade.

É verdade que este Governo trouxe confiança – mas toda a gente sabe como o excesso de confiança pode ser fatal. Depois do aperto dos quatro anos anteriores, sabia bem “respirar” um pouco. O resultado deste otimismo está à vista: a poupança (que em 2013 chegou a estar nos 10% dos rendimentos das famílias) atingiu níveis mínimos (5,9%). Inversamente, o crédito ao consumo disparou. Segundo dados ontem revelados pelo Banco de Portugal (BdP), o valor dos novos créditos pessoais subiu 16,9% em agosto, para 282 milhões de euros. Não será a coisa mais grave do mundo. Mas é um sinal preocupante de que continuamos a gastar mais dinheiro (e mal gasto) do que ganhamos. E se a coisa der para o torto, lá fica tudo outra vez ó tio ó tio, sem saber como pagar tanto empréstimo. 

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