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Bulgária-Inglaterra. Afinal, nem toda a Sófia teve direito à sabedoria

Bulgária-Inglaterra. Afinal, nem toda a Sófia teve direito à sabedoria

AFP Laura Ramires 16/10/2019 09:05

Na capital búlgara faltaram todas as características que estão na origem do nome próprio português de origem grega. UEFA já abriu investigação ao comportamento racista dos adeptos da casa.

“Nojento”; “Vergonha”; “Desprezível”. Foi com estas palavras que a imprensa inglesa acordou nesta terça-feira. Em noite de qualificação europeia para o Euro 2020, a goleada, por 6-0, aplicada pela Inglaterra à Bulgária ficou sobretudo marcada pelo comportamento racista vindo das bancadas do Vasil Levski.

O encontro chegou mesmo a ser interrompido por duas vezes durante a primeira parte – primeiro aos 23 minutos e, depois, aos 43. Em causa estiveram os cânticos com insultos racistas, além das saudações nazis, por parte de um grupo de adeptos búlgaros que visaram os jogadores ingleses Tyrone Mings, Marcus Rashford e Sterling.

A situação condenável durou, de resto, vários minutos e levou a formação dos três leões a exigir medidas por parte do árbitro croata Ivan Bebek. De relembrar que, em julho último, o novo código disciplinar da FIFA sofreu várias alterações em áreas como o racismo e a discriminação, sendo uma das modificações mais notórias neste âmbito o poder atribuído aos árbitros, que passaram a ter a hipótese de suspender um jogo de futebol por incidentes racistas, podendo mesmo dá-lo por encerrado e atribuir a derrota à equipa infratora.

Embora, em Sófia, o jogo tenha sido cumprido na íntegra, a Inglaterra pede agora à UEFA que tenha a mão pesada neste caso, exigindo até a expulsão da seleção búlgara.

“Cânticos de macacos e saudações nazis. Para a UEFA dizemos: expulsem-nos. Para Inglaterra dizemos... RESPEITO. Os heróis colocaram a bola na rede dos racistas SEIS vezes”, podia ler-se no Sun Sport. Já o Daily Mail resumia: “Inglaterra 6 – Racismo 0”. E acrescentava: “Jogadores de Inglaterra sofreram chocantes abusos. Cânticos de macacos para Sterling e Rashford. Adeptos da Bulgária fizeram saudações nazis. Jogo interrompido por duas vezes e quase suspenso”. Por sua vez, o Mirror Sport mostrou-se categórico: “Expulsem-nos. Inglaterra destrói racistas, mas UEFA deve agir contra a Bulgária”.

Durante o dia de ontem, a primeira consequência visível após os incidentes racistas foi a demissão do presidente da União Búlgara de Futebol, Borislav Mihaylov. Agora, e enquanto continuam a ser exigidas fortes e rápidas medidas ao organismo que tutela o futebol europeu, volta a surgir a eterna questão: até quando?

Uma espécie de pergunta retórica, uma vez que este parece ser um problema sem fim à vista, apesar de os castigos atribuídos serem cada vez mais pesados. De relembrar que, em março passado, a seleção inglesa já tinha apresentado uma queixa à UEFA alegando que pelo menos um dos seus jogadores havia sido alvo de insultos racistas durante a vitória por 5 a 1 contra o Montenegro. Na altura, também em jogo referente ao apuramento para o próximo campeonato da Europa, o jogador visado, de acordo com o técnico inglês, foi Danny Rose.

Entretanto, a UEFA fez saber que está a investigar o comportamento racista dos adeptos da seleção da casa, assim como o arremesso de objetos para o relvado durante o hino da Inglaterra. Ontem, através de um comunicado emitido pelo presidente do organismo, Aleksander Ceferin, a UEFA garantiu estar focada em “erradicar do futebol” a “doença” do “racismo”.

De Daniel Alves a Hulk Porém, e enquanto se continua a lutar para encontrar a cura para esta doença, o racismo promete continuar a contagiar vários protagonistas do futebol mundial. Infelizmente, exemplos disso não faltam, com alguns casos a tornarem-se virais. Daniel Alves continua a ser um dos casos mais conhecidos, quando viu uma banana ser atirada para dentro do relvado no jogo contra o Villarreal, em 2014. O então lateral direito do Barcelona protagonizou uma resposta que, cinco anos depois, ainda dá que falar: o brasileiro comeu o fruto e ainda agradeceu o gesto para a bancada. “Incidente com a banana? Estou em Espanha há 11 anos e isto acontece desde o início. Há que rir destes retardados. Não sei quem a atirou, mas tenho de agradecer, pois deu-me energia para outros dois cruzamentos que acabaram em golos”, referiu o jogador, que fez duas assistências para golo após o incidente.

Situação semelhante atravessou Mario Balotelli quando foi alvo do arremesso de uma banana para dentro de campo, num duelo entre a seleção transalpina e a Croácia no Europeu de 2012.

Ainda nos blaugrana, há o caso de Samuel Eto’o. O camaronês, que alinhou pelos catalães entre 2004 e 2009, foi alvo de cânticos racistas, da parte dos adeptos dos clubes rivais, em jogos contra o Real Saragoça, o Getafe CF e o Racing Santander. Mais tarde, quando representava os russos do Anzhi, o avançado foi visado pelos adeptos do próprio clube, que também já tinha feito outra vítima. Roberto Carlos, ex-jogador do Real Madrid e da seleção brasileira, saiu de campo a meio de um jogo diante do Krylya Sovetov após ser recebido com bananas pelos adeptos. Ainda antes, o lateral esquerdo já tinha sido alvo de insultos racistas, desta feita no jogo com o Zenit, da parte dos adeptos de Sampetersburgo.

Também Yaya Touré foi vítima de racismo num encontro do Manchester City frente ao CSKA Moscovo, partida na qual, sempre que o costa-marfinense tocava na bola, eram entoados sons de macacos nas bancadas da equipa russa. Mais recentemente, o médio revelou numa entrevista que esta é uma situação que o acompanha ao longo da sua jornada enquanto futebolista – e que já acontecia quando alinhava pelos ucranianos do Metalurg Donetsk.

Outro dos nomes desta lista é o de Kevin Prince-Boateng. Em 2013, o ganês foi alvo de cânticos racistas num encontro particular entre Milan e Pro Patria. À data, e após rematar a bola para as bancadas, o jogador abandonou o jogo e recusou-se a voltar a entrar. Naquela altura, nas redes sociais, o ponta-de-lança escreveu: “É uma vergonha que estas coisas ainda aconteçam. O racismo tem de acabar, para sempre”.

Mais recentemente, em 2017, Muntari abandonou o relvado a meio de um encontro entre o Pescara e o Cagliari da 34.a jornada da Liga Italiana 2016/17, devido a cânticos racistas – e após o árbitro nada ter feito quando foi chamado à atenção sobre o que estava a acontecer.

Já em Portugal, Hulk disse ter sido vítima de racismo num clássico, na 21.a jornada da Liga portuguesa de 2011/12, em pleno Estádio da Luz.

Foi o próprio jogador do FC Porto a revelar o sucedido numa entrevista. “Só uma vez, num jogo contra o Benfica. Os adeptos fizeram aquele barulho – imitando sons de macaco –, mas fiz um golo e calei o estádio. Quando vemos isso, ficamos tristes”, contou há anos o brasileiro ao Globo Esporte.

 

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