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The Irishman. O braço-de-ferro tentado de Scorsese

The Irishman. O braço-de-ferro tentado de Scorsese

Niko Tavernise Cláudia Sobral 15/10/2019 21:52

Para o novo filme de Martin Scorsese, a Netflix exigiu exclusividade de três meses, o que o afastou das grandes cadeias do circuito tradicional de exibição: as salas de cinema. O realizador ainda tentou, mas lá se resignou quanto ao destino de The Irishman, que chega à Netflix a 27 de novembro. “Não havia [outro] espaço para fazermos este filme”.

Scorsese ainda tentou. Em agosto, decorriam as difíceis negociações entre a Netflix e as possíveis distribuidoras do seu novo filme, The Irishman, o New York Times escrevia que o realizador estava a pressionar a gigante de streaming para um “lançamento nos cinemas robusto”, nos Estados Unidos, paralelo à estreia na Netflix. Algo que fosse mais longe, bem mais longe, do que Roma, de Alfonso Cuarón, que, produzido pela Netflix, foi exibido num reduzido número de salas selecionadas. Nem longe nem perto, The Irishman, que acaba de ser exibido no BFI London Film Festival, poderá vir a ficar-se praticamente pelo recato do sofá de cada um. Scorsese ainda tentou mas, pelo tom com que falou na conferência de imprensa que antecedeu a estreia em Londres, cedeu.

Apesar da importância de defender a “experiência conjunta” de assistir aos filmes em salas de cinema, Martin Scorsese rendeu-se às evidências: de todos os possíveis financiadores, foi a Netflix a única, quando os grandes estúdios o deixaram cair, a manter-se firme na aposta neste que tem chamado a atenção por ser o mais dispendioso de todos os filmes do realizador de Taxi Driver. “Não há dúvida de que assistir a um filme com público é muito importante. Há um problema, contudo: é preciso fazer o filme. Ficámos sem margem de manobra, de certa forma; não havia espaço para fazermos este filme, por muitas razões. Tivemos o apoio de uma empresa que nos disse que não haveria interferências, que podíamos fazer o filme como quiséssemos, com uma contrapartida: é exibido em streaming. Percebi que era a nossa oportunidade para este projeto em particular”.

Os direitos de The Irishman – que conta a história de Frank Sheeran (Robert De Niro), um mafioso suspeito do assassínio do líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino), em 1975 – foram adquiridos pela Netflix em 2017, depois de a Paramount Pictures e a STX terem recuado perante a dimensão do orçamento, que os rumores no setor que chegaram à imprensa especializada têm colocado na fasquia dos 160 milhões a 200 milhões de dólares (145 milhões a 180 milhões de euros). O valor é explicado pela necessidade de recorrer a um novo e, por isso, dispendioso efeito digital para rejuvenescer os atores nas extensas cenas de flashback – e que demoveu os estúdios tradicionais de correr o risco, sobretudo depois de Silêncio (2016), o seu último filme, que contava a história de dois padres jesuítas no Japão do séc. xvii, não ter correspondido às expetativas em termos de retorno financeiro.

E se, no caso do filme do mexicano Alfonso Cuarón, que chegou aos Óscares, a Netflix foi capaz de ceder ao permitir que, além da sua plataforma, se estreasse num conjunto selecionado de salas, com The Irishman manteve, desde o início, uma posição bem mais irredutível: a exigência era de uma espera de três meses até que o filme pudesse ser exibido nos cinemas norte-americanos. Isto porque, com o avultado investimento, a fasquia para o retorno foi colocada bem alta: 50 milhões de visualizações nos primeiros quatro dias são o objetivo.

Com a exigência de tamanha janela temporal, não só as grandes cadeias norte-americanas como britânicas mostraram-se pouco interessadas na exibição do filme. A somar a isto, veio o boicote, já por duas edições, do Festival de Cinema de Cannes à Netflix (Roma estreou-se no ano passado em Veneza, onde venceu o Leão de Ouro). Em sala, The Irishman tem exibição confirmada no Belasco Theatre, histórica sala da Broadway, em Nova Iorque, e num reduzidíssimo número de salas norte-americanas a partir do próximo dia 1, antes de ficar disponível na Netflix, a 27 de novembro. Segundo noticiou o Público no início do mês, o filme não chegará às salas portuguesas, ao contrário do que aconteceu com Roma.

A intransigência com que a Netflix tem negociado a distribuição no circuito tradicional tem vindo a levar realizadores como Christopher Nolan, que já se mostrou aberto a colaborar com a concorrente Amazon, por exemplo, a recusarem-se a trabalhar com a gigante do streaming. Mas a verdade é que a entrada de realizadores como Cuarón ou Scorsese na Netflix está a mudar o que era até aqui a relação do cinema com o seu público.

Já Scorsese, que sem outra opção para concluir esta megaprodução cedeu, não se dá por vencido – ou convencido, como fez crer na mesma conferência de imprensa em Londres. “Durante um tempo achei que a TV em longo formato [em episódios] acabaria por ser cinema, mas não é. Simplesmente, não é. É uma experiência muito diferente: podemos ir ao episódio 3, 4, 10, um numa semana, outro na seguinte – é outra coisa. O que tem de ser protegido é a experiência singular, idealmente com uma audiência”.

 

 

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