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15 de outubro de 1965. O misterioso assassinato de Manuel, o guarda-freios

15 de outubro de 1965. O misterioso assassinato de Manuel, o guarda-freios

Afonso de Melo 15/10/2019 20:59

Um telefonema anónimo para a Polícia Judiciária levou ao embargo do funeral. Alguém garantia que Manuel fora envenenado pela esposa e pelo amante boticário. A autópsia revelou ingestão de arsénico. A viúva lamentosa mudou drasticamente de atitude.

Manuel Moura era um cadáver ainda por enterrar. A Polícia Judiciária embargara o funeral depois de ter recebido um telefonema anónimo de alguém que garantira que o desgraçado do antigo guarda-freios da Carris tinha sido envenenado pela esposa, Silvana Guerreiro Moura. Ora, Dona Silvana não tardou a ir parar com os ossos aos calabouços da PJ enquanto os ossos do marido aguardavam autorização para baixar à sua última morada, sete palmos abaixo de terra.

O casal Moura habitava na Rua Maria Pia, n.o 545. Logo ao lado havia uma farmácia. O ajudante da botica também foi engaiolado por suspeitas muito fortes de que teria sido ele a fornecer à vizinha Silvana as mezinhas que provocaram a morte do guarda-freios.

Lisboa sempre foi uma cidade atreita a boatos. Num instante começaram a correr por toda a parte, sobretudo por entre os funcionários da Carris, colegas de Manuel Moura, que não tinham quaisquer dúvidas sobre a relação maliciosa existente entre Silvana e o pretendente a farmacêutico.

Os médicos do Instituto de Medicina Legal entraram em funções. Depararam com algo misterioso: a autópsia dava resultados positivos para intoxicação arsenical, mas não ingerida de forma medicamentosa. O inspetor Allen Gomes coçou a cabeça, confuso, mas lançou mãos ao trabalho. Procurou afanosamente o autor do telefonema, que seria muito provavelmente um colega de Manuel Moura, e dedicou-se a entrevistar todos os que tinham relações próximas com o casal.

Desconfianças O inspetor Allen Gomes percebeu rapidamente que o dia-a-dia no n.o 545 da Rua Maria Pia não era propriamente um mar de rosas. Afinal, Manuel já era um homem entradote, na casa dos 60 anos, e Silvana vivia a graça dos seus 35. Além disso, depois de dois dias a fazer o papel de viúva inconsolável, vertendo lágrimas como um chafariz, mudou bruscamente de atitude e tratou de reclamar a sua imediata liberdade à mistura com uns insultos bastante ordinários.

Os agentes da Polícia Judiciária já estavam pelos cabelos com o comportamento da mulher do morto. Nada lhes tirava do bestunto a ideia de que tinha culpas no cartório mas, entretanto, os médicos legistas ainda andavam às voltas com as vísceras na tentativa de esclarecerem que tipo de produto teria condenado Manuel Moura a uma viagem precoce até à quinta das tabuletas. Certos ficaram de que o arsénico fora ingerido oralmente, mas sem muitas certezas em relação à mistela que fora impingida ao malogrado guarda-freios pela sua esposa amantíssima e pelo amante dela.

O inspetor Allen Gomes decidiu que as coisas não poderiam manter-se neste estado de inimputabilidade durante muito mais tempo. E resolveu ter uma conversa séria com Silvana que, por essa altura, berrava como uma desalmada, exigindo que a pusessem na rua. A conversa foi produtiva. Silvana Guerreiro Moura acabaria por confessar a autoria do assassínio. Amancebada com o jovem vizinho boticário, estava ansiosa por se ver livre de um casamento que era como grilhetas que lhe tolhessem os calcanhares. Procedeu, então, à junção de pequenas doses de arsénico às refeições que preparava para o marido, advindo daí a sua morte misteriosa. Mais esperto, o rapaz da botica não esteve pelos ajustes e negou tudo. A polícia que se esforçasse mais se o queria na pildra.

 

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