18/11/19
 
 
Paulo Maló. A queda do império do homem que distribuía sorrisos

Paulo Maló. A queda do império do homem que distribuía sorrisos

Joana Marques Alves 15/10/2019 20:04

Depois de terem perdoado cerca de metade da dívida da Malo Clinic, alguns credores estão agora atrás da fortuna do famoso fundador da rede de clínicas dentárias.

Das herdades em Angola à fama internacional, Paulo Maló tornou-se um nome incontornável da medicina dentária. Mas o seu negócio começa aos poucos a desmoronar-se e, mesmo tentando sair de cena antes do cair do pano, o fundador do grupo Malo Clinic não consegue escapar à queda do império que demorou anos a criar.

Ontem, a imprensa noticiou que o Novo Banco e o grupo Caixa Geral de Depósitos (CGD) têm em curso um processo de execução que pode chegar à fortuna pessoal de Paulo Maló, pois o médico e empresário deu avales pessoais para cobrir os financiamentos das empresas.

Ao longo dos anos, a Malo Clinic acumulou quase 70 milhões de euros em dívidas. Para fazer face a este problema, entregou a empresa que fundou há 24 anos à Atena Equity Partners, um fundo de capital de risco que, em agosto, decidiu aderir ao plano especial de revitalização (PER), conseguindo firmar um acordo extrajudicial muito vantajoso para o grupo, mas danoso para o Estado.

Este acordo contempla um perdão de mais de 40 milhões de euros. Entre os 19 credores está a Segurança Social, a quem o grupo devia 1,7 milhões de euros. O Novo Banco, principal credor da Malo Clinic com quase 80% dos créditos da empresa, aceitou perdoar cerca de metade da dívida de 51 milhões de euros.

Já aos credores comuns foram impostas perdas de 90% dos seus créditos. É o caso do Banco Nacional Ultramarino, do grupo CGD. Este credor só irá recuperar 10% dos cerca de 6,9 milhões de euros de dívida. Segundo o Jornal de Negócios, esta imposição também se impõe à Nobel Biocare (3,4 milhões de euros), Henry Schein Portugal (55 mil euros), sociedade de advogados PLMJ (19 mil euros), Guimarães Shopping (10,6 mil euros) ou Câmara Municipal de Loulé. O grupo tem agora dois anos de carência e mais oito para pagar a dívida, que baixou para cerca de 27 milhões de euros.

Feitas as contas, o Estado acabou por perder com este acordo, de forma direta e indireta, 30 milhões de euros.

A Malo Clinic tem espaços em 66 cidades, espalhadas por 22 países. Figuras muito conhecidas do grande público – como o ator José Raposo, o apresentador Manuel Luís Goucha, o surfista Garrett McNamara e o músico Rui Veloso – já deram a cara pela clínica.

E onde está Paulo Maló no meio disto tudo? Como foi noticiado no início do mês, o fundador do grupo deixou de ter qualquer vínculo à Malo Clinic. O dentista foi afastado logo após o perdão da dívida. Segundo o Jornal de Negócios, Maló já não tinha funções em Portugal aquando do seu afastamento – nos últimos anos desenvolvia a sua atividade apenas a nível internacional, deixando a responsabilidade do que se passava por cá nas mãos de um comité de médicos.

E porque foram agora os credores procurar a sua fortuna pessoal? O PER é aplicado a sociedades comerciais que se encontrem em situação económica difícil, mas que ainda sejam suscetíveis de recuperação, conseguindo assim continuar a exercer a sua atividade comercial. Um dos seus efeitos é a suspensão de todos os processos executivos que estejam pendentes. No entanto, isso não impede o credor de procurar aquilo que foi dado como garantia para os empréstimos.

“O efeito de suspensão de processos executivos apenas se repercute na esfera jurídica da sociedade devedora, podendo continuar ou iniciar-se na esfera jurídica de terceiros que sejam também estes responsáveis pelo cumprimento da obrigação negociada, em consequência de uma garantia pessoal que tenha apresentado, nomeadamente através de aval”, explica ao i Francisco Morais Coelho, advogado da Carlos Pinto de Abreu e Associados.

Também o advogado Paulino Brilhante Santos, sócio da VCA – Valadas Coriel & Associados, Sociedade de Advogados, explica o que pode ter acontecido no caso de Paulo Maló. “Se nos termos de um plano de revitalização de empresas ou de um acordo de pagamento com os credores homologado pelo juiz do processo houver lugar a um perdão de dívidas, assumimos, ainda que sem conhecer este processo Maló em concreto, que será possível que o plano ou o acordo preveja a manutenção de garantias pessoais sobre as dívidas das empresas do Grupo Maló até ao cumprimento do plano de revitalização ou do acordo de pagamento com os credores, já que a consequência do incumprimento de um plano de revitalização ou de um acordo de pagamento no domínio destes processos especiais consiste na insolvência das empresas ao fim dos dois anos que estes planos ou acordos têm de duração”, diz ao i.

Um homem do campo Paulo Maló nasceu em Angola em 1961 mas, na sequência do 25 de Abril de 1974, a família perdeu todas as fazendas que tinha. Por isso, rumou à África do Sul, onde Paulo iniciou os seus estudos. “Como saímos de Angola e perdemos as fazendas e o gado, comecei a fazer Biologia Marinha, na África do Sul, e depois fui fazer Medicina. Entretanto, no quarto ano de Medicina pensei em seguir Neurocirurgia mas, depois, estive em casa dos meus tios, que são dentistas e, muito influenciado por eles, acabei por me desviar para a Medicina Dentária”, contou numa entrevista ao site Magg, em fevereiro deste ano.

A verdade é que esta área nunca esteve nos seus projetos: “Se alguém me dissesse que ia ser dentista, eu dizia que essa pessoa estava louca. A minha primeira opção era veterinária ou engenharia agrónoma”, contou na altura. E não é de estranhar – Paulo Maló teve desde miúdo uma grande ligação à terra, à agricultura e à pecuária. O pai era agricultor e incutiu-lhe o gosto pelo campo e pelos animais.

Aliás, esse amor continuou mesmo na vida adulta. Daí ter fundado a Malo Tojo Wines, uma empresa de produção vitivinícola, enoturismo e turismo rural que já venceu vários prémios nacionais e internacionais.

Mas apesar de ter tido clínicas espalhadas pelos quatro cantos do mundo e de os seus produtos fazerem sucesso lá fora, que ninguém lhe tire o seu pedaço de terra, longe das multidões: “Eu detesto cidades. Não consigo viver com tanta gente e com pessoas a reclamarem com tudo e a falarem mal umas das outras a toda a hora. A minha vida é fugir das pessoas o máximo possível. Eu era incapaz de ser político por causa disso. Se não tiver de estar a trabalhar na clínica, vai ver-me sozinho, ou com dois ou três amigos no campo, a tratar das cabras, das ovelhas, a pintar ou a fazer uma casa. Sim, porque eu também sei pôr tijolos e fazer cimento. Não me vai ver em restaurantes, bares ou discotecas. Isso só acontece em ocasiões especiais”.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×