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Futebol. Um atleta de alta competição pode fumar e beber álcool? Há quem diga que sim

Futebol. Um atleta de alta competição pode fumar e beber álcool? Há quem diga que sim

Instagram Bruno Venâncio 14/10/2019 20:53

Hoje, os jogadores são programados e trabalhados ao mais ínfimo pormenor em todos os aspetos - nomeadamente, em relação ao que podem ingerir. Mas nem todos veem nos vícios tradicionais um obstáculo ao seu rendimento desportivo.

 

A relação entre futebolistas de alta competição e os vícios “mundanos” tem sido objeto de escrutínio, e aprofundados estudos ao longo das últimas décadas. Na semana passada, acabou por voltar à ordem do dia após a revelação de Roberto Carlos, em conversa com Vítor Baía no programa do ex-guarda-redes português no Canal 11, de como o treinador brasileiro Vanderlei Luxemburgo acabou por perder o lugar no comando técnico do Real Madrid, em 2005.

“O Vanderlei Luxemburgo ficou seis meses no Real Madrid. No segundo jogo da liga, tínhamos o costume de chegar à concentração, deixar as malas no quarto e, antes do jantar, tomar a nossa cervejinha e o nosso vinho. Em cima da mesa havia sempre vinho, duas garrafas em cada mesa. Eu e o Ronaldo chegámos ao pé do professor e dissemos: “Temos uns costumes aqui e você vai ver, mas tenta não mudar. Não tira o vinho da mesa e os 20 minutos da cerveja antes do jantar porque senão vai ter problemas”. Aí, o que ele fez? Tirou primeiro a cerveja e depois as garrafas de vinho. Durou três meses, porque o mundo do futebol é pequeno, as notícias chegaram à direção... e tchau. Era o nosso ambiente de balneário”, contou o antigo lateral-esquerdo brasileiro.

Em Portugal, este foi um fenómeno que começou a ser abordado com especial incidência a partir dos anos 80, quando se deu aquilo a que se pode chamar a profissionalização total da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e, por conseguinte, de todo o futebol português. Até então, os jogadores de topo do futebol nacional, integrantes dos plantéis dos “grandes” e presença assídua na seleção nacional, eram profissionais... em teoria; na prática, muitos levavam uma vida completamente distante do protótipo atual de um atleta de alta competição.

Vítor Baptista será o exemplo mais premente de como um futebolista top se deixou arrastar para o mundo dos vícios de tal maneira que nunca mais conseguiu encontrar a saída. Mas há vários outros casos - menos radicais e com fim menos trágico, obviamente.

Futre começou aos 12 anos Obviamente, este fenómeno não morreu com a tal profissionalização do futebol português. Longe disso. São inúmeros os exemplos de atletas lusos que espalharam o seu brilho nos relvados nacionais e internacionais nos anos 90, 2000 e mesmo já na década atual e que não resistiam a fumar os seus cigarros ou beber as suas cervejas com maior ou menor frequência.

António Simões, Carlos Manuel, Jorge Costa, João Vieira Pinto, Rui Costa, Quim ou Paulo Futre são casos conhecidos de atletas portugueses de elite que, ao mesmo tempo, eram fumadores inveterados. Em 2010, no programa da RTP Lado B, o atual vice-diretor da FPF assumia que alguns atletas da sua geração “por vezes fumavam um cigarro no intervalo dos jogos”; um ano depois, em entrevista ao SOL, o esquerdino nascido no Montijo confessava fumar “dois maços de tabaco por dia”, num vício que começou aos 12 anos “para matar o tempo no barco”, nas viagens entre a Margem Sul e Alvalade, quando despontou no Sporting.

“O Cristiano Ronaldo é um talento, mas é também uma máquina perfeita. Provavelmente, só teremos outro daqui a 100 anos - um por século. Acho que ninguém consegue sequer imaginar o Cristiano a fumar um cigarro. Eu estou mais próximo de Cruyff. Nesse sentido, nunca fomos 100 por cento profissionais. Quando jogava, controlava-me. Ao longo da semana ia diminuindo de forma a fumar um cigarro ao domingo, depois do almoço. Depois dos jogos, todos. Era, e é, o meu vício. Uma vez estive quatro dias sem fumar, foi um horror, nem conseguia treinar. Não tinha forças [risos]”, dizia Futre em 2018 ao Notícias Magazine, quando questionado sobre em que atleta mais se revia: Cruyff, o fumador, ou Ronaldo, a máquina.

Curiosamente, acabaria por ser na sequência de uma noite de farra com colegas de equipa que o segundo classificado na corrida à Bola de Ouro em 1987 viria a terminar a carreira ao mais alto nível. “O [Radomir] Antic queria tirar da equipa [Atlético de Madrid, em 1997/98] quatro jogadores que foram vistos numa discoteca. E aquilo mexeu comigo porque todos nós tínhamos feito o mesmo. Eu também tinha estado a beber até às três da manhã. Por isso, disse-lhe que ou nos afastava a todos ou não afastava nenhum. Ele não me perdoou”, contou o atual comentador.

Em 2012, a imprensa espanhola publicou fotografias de Fábio Coentrão a fumar à porta de um restaurante onde vários jogadores do Real Madrid (entre os quais Ronaldo e Pepe) festejavam o 24.o aniversário do lateral esquerdo. O caso assumiu enormes contornos mediáticos e Coentrão acabou por ficar de fora dos convocados para o encontro seguinte, com a imprensa a garantir que a decisão de José Mourinho, então técnico dos merengues, se deveu ao comportamento extracampo menos próprio do defesa português.

Já este verão, e numa altura em que se encontrava sem clube, depois de ter terminado a ligação de cinco anos com os russos do Lokomotiv, Manuel Fernandes foi fotografado numa discoteca em Vilamoura a beber álcool e a fumar um cachimbo de água. Algumas semanas depois viria a regressar à Rússia, assinando pelo Krasnodar (carrasco do FC Porto na terceira pré-eliminatória de acesso à Liga dos Campeões).

Os bad boys pelo mundo Lá por fora, como se deve calcular, são igualmente imensos os exemplos de futebolistas de topo que se têm deixado apanhar a sucumbir aos prazeres “proibidos” a atletas de alta competição.

Inglaterra, país conhecido pela ferocidade da imprensa tabloide, é dos países onde será mais difícil um futebolista passar despercebido quando se aventura pelo mundo da noite e das festas recheadas de “perigos”. Wayne Rooney, Peter Crouch, Raheem Sterling ou Jack Wilshere foram apenas alguns dos inúmeros casos conhecidos nos últimos anos. O último destes aconteceu em 2014, com o então médio do Arsenal a ser fotografado em Las Vegas a fumar e a beber na festa de despedida de solteiro do guardião Joe Hart.

“Não concordo com este comportamento. Um jogador de futebol de elite tem de dar o exemplo. Até pode prejudicar a saúde em casa, pode fumar em casa, onde ninguém o vê, mas quando sai é a sua reputação que está em jogo”, disse então Arsène Wenger, mítico técnico dos gunners.

Um dos reis da polémica na atualidade é, obviamente, Mario Balotelli. Entre 2010 e 2013, enquanto jogava no Manchester City, o técnico Roberto Mancini chegou a pedir-lhe publicamente que deixasse de fumar... a não ser que o avançado marcasse “dois golos por jogo”. Quando se transferiu para o AC Milan, uma das alíneas do contrato impedia-o expressamente de fumar - podiam ler-se ainda regras como “não beber álcool em excesso, não sair à noite, não usar penteados e roupas extravagantes e não manchar a imagem do Milan através das redes sociais”.

Ainda assim, ao longo dos anos têm sido várias as situações em que Balotelli é “apanhado” a fumar em público. Mas não só: no mês passado, depois de se ter estreado pelo Brescia, por quem assinou no último mercado, o internacional italiano foi fotografado a fumar um cigarro... no balneário, antes do início da partida com a Juventus.

O futebol italiano, de resto, é pródigo em exemplos de futebolistas que não se coíbem de assumir o vício do tabaco. Radja Nainggolan será o que mais abertamente fala sobre o tema, ainda que tal lhe provoque dissabores - diz-se que o médio, atualmente no Cagliari, depois de passagens de monta por Roma e Inter de Milão, deixou de ser opção para Roberto Martínez na seleção belga devido a esses comportamentos extracampo.

“Não sou um bad boy, como muitos pensam. Faço compras no supermercado, bebo e fumo um cigarro com tranquilidade, toda a gente sabe disso. Esconder-me não é a minha forma de vida. Sei que devo dar um bom exemplo, mas o que tenho mesmo de fazer bem é o meu trabalho”, dizia em março de 2017, à chegada a uma concentração da seleção - onde costumava ficar num quarto especial com direito a varanda, para que pudesse fumar sem disparar os alarmes de incêndio dos hotéis.

Gianluigi Buffon, mítico guardião italiano, nunca negou ser fumador, embora sempre garantindo que só fumava nos dias de folga. Uma versão desmentida por Pablo Osvaldo: esse mesmo, que passou pelo FC Porto sem ponta de sucesso em 2015/16 e que tinha convivido com Buffon na Juventus e na seleção italiana. “Costumávamos fumar nos balneários”, contou outro dos grandes bad boys dos tempos modernos - o fim da sua carreira, de resto, deu-se precisamente devido a um episódio relacionado com tabaco: ao ser apanhado pelo treinador a fumar no balneário, foi imediatamente despedido do Boca Juniors e decidiu abandonar os relvados. Tinha 30 anos e, confessou, há muito que desejava deixar o futebol para se dedicar à verdadeira paixão: a música. Isso... e claro, o álcool e o tabaco.

“Não quero ser exemplo para ninguém, só quero que me deixem viver tranquilo, como o padeiro da esquina. O futebol é uma bolha que te aprisiona porque tem coisas muito atraentes, mas no fim do dia dás-te conta de que tudo isso é mentira, que as pessoas não vivem assim. E eu prefiro estar do lado da maioria, não nessa bolha”, dizia à imprensa argentina pouco depois do adeus.

Hoje na Fiorentina, depois de uma passagem sem glória pelo Barcelona, Kévin-Prince Boateng causou escândalo na Alemanha em 2014, devido a imagens onde era possível ver o internacional ganês a fumar e a beber uma cerveja no balneário do assistente do médico encarregado do controlo antidoping, após um jogo entre o Schalke 04 e o Bayer Leverkusen. As fotografias viriam a originar a demissão do médico em causa.

Cruyff, Best e Romário E se falámos dos craques da atualidade que vão ainda hoje sustentando os vícios, que dizer daqueles que maravilhavam o mundo do futebol noutras eras - as tais em que o profissionalismo era encarado de uma forma muito diferente do que acontece hoje.

Após o Euro 2000, Paulo Rink, ex-avançado brasileiro naturalizado alemão, garantia que 18 dos 23 convocados da seleção germânica nessa prova fumavam - entre os quais o capitão Lotthar Matthaus, Bola de Ouro em 1990 e Melhor do Mundo para a FIFA no ano seguinte. Michel Platini, Zinedine Zidane ou Ronaldo Fenómeno também nunca esconderam o gosto pelo tabaco, tal como o lendário Johan Cruyff, que só abandonou o vício após uma cirurgia ao coração em 1991 - ironicamente, acabaria por falecer quase 25 anos depois, vítima de cancro no pulmão.

Já como treinador do Barcelona, ficaram célebres as “discussões” entre Cruyff e Romário. Em 1993/94, o Baixinho era um dos melhores futebolistas do mundo e estava no auge das suas capacidades... também fora de campo: por essa razão, eram quase diárias as noitadas e consequentes atrasos para os treinos - por cada dez minutos, tinha de pagar 50 dólares de multa. “Não tem problema. Vou ganhar a Copa e com o dinheiro pago essas multas”, terá respondido certa vez o avançado... que viria de facto a vencer o Mundial nos Estados Unidos no fim dessa temporada.

O próprio Cruyff contou em 2012, em entrevista ao jornal francês L’Équipe, um episódio caricato a envolver Romário e o seu gosto pelos prazeres da vida. O avançado costumava pedir dias extra de folga para poder ir regularmente ao Brasil, e em janeiro de 1994, na véspera de um clássico com o Real Madrid, o técnico prometeu-lhe um dia por cada golo marcado: Romário fez um hat-trick (o Barça ganhou 5-0).

De George Best, as célebres frases “em 1969 deixei as mulheres e o álcool. Foram os piores 20 minutos da minha vida” e “gastei muito dinheiro em álcool, mulheres e carros velozes. O resto, desperdicei” dizem praticamente tudo; Garrincha, outro mito, sucumbiu ao vício do álcool e morreu antes de completar 50 anos; e depois há os exemplos mais que conhecidos de jogadores que não se ficavam pelo tabaco ou sequer pelo álcool, como Diego Maradona, Paul Gascoigne ou Mário Jardel, que marcou uma era no FC Porto e no Sporting - seria, ainda assim, ao serviço dos leões que começaria o declínio, após sucumbir ao vício das drogas.

Que um desportista de alta competição deve ter uma vida regrada e livre de hábitos nocivos à saúde, parece uma conclusão óbvia; ainda assim, é também bem percetível que nem todos cumprem esses ditames a 100 por cento, com muitos atletas a garantir que alguns desses vícios podem até ser benéficos, na medida em que os ajudam a descontrair e, assim, a melhorar o seu desempenho em campo. Provavelmente, ambas as teorias estarão corretas.

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