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Ucrânia-Portugal. O jantar de dois senhores que vivem bem

Ucrânia-Portugal. O jantar de dois senhores que vivem bem

Afonso de Melo 14/10/2019 16:10

O avanço dos dois adversários de hoje (19h45) sobre a Sérvia é suficientemente largo para um empate convir a ambos.

Vitória após vitória, ucranianos e portugueses tornaram mais fáceis de fazer as contas do grupo B de qualificação para a fase final do Campeonato do Mundo de 2020, a tal que será jogada de mala às costas, aí um pouco por toda a Europa, uma ideia peregrina de um presidente da UEFA muito dado a bizantinices.

As seleções que se defrontam hoje, em Kiev, são como dois senhores que vivem bem e se encontram para um jantar que tem tudo para ser pacífico no caso de assentarem numa estratégia de não agressão que pode muito bem convir a ambos. Com a Sérvia a nove pontos da Ucrânia e a quatro de Portugal, a ameaça não é grandemente séria, embora se sublinhe que os sérvios têm menos um jogo do que a dupla supracitada. Ainda assim, convenhamos que um empate logo à noite deixaria o assunto praticamente arrumado.

Claro que o ponto de vista dos ucranianos é ensombrado por receberem Portugal e irem a Belgrado nos dois encontros que lhes restam. Os portugueses sabem, por seu lado, que vitórias face ao Luxemburgo (fora) e Lituânia (casa) são classificação assegurada, o que tira certo dramatismo a esta deslocação a leste. Se a Sérvia quer ter um resto de esperança, há que conquistar todos os nove pontos que ainda tem para disputar e ficar a rezar pela desgraça de um dos que caminham na dianteira, com a ideia sempre presente que são precisamente nove pontos que a separam da Ucrânia. Ou seja, qualquer ponto que os ucranianos conquistem na compita de logo à noite colocá-los-á de imediato na fase final do Europeu, nota que serve de acicate na sua receção àqueles que não são apenas os campeões continentais como vencedores recentes da Taça das Nações.

Claro que nem Fernando Santos nem Andriy Shevchenko, aquele que foi o melhor jogador ucraniano da sua geração, cairão na fraqueza de clamar publicamente a conveniência desse resultado tão jeitoso, se a expressão é permitida. Manda o bom senso e a exigência dos adeptos que bradem pela vitória e pela imposição das suas equipas dentro das quatro linhas. Shevchenko, porque joga em casa, porque em seis jogos só empatou um, o primeiro, em Lisboa, tendo pelo caminho ganho à Sérvia, em Lviv, por nada menos de 5-0. Fernando Santos, porque comanda aquela que é, na opinião de muitos, a melhor e mais talentosa equipa da Europa.

Rostos A vitória de sexta-feira em Alvalade foi inatacável no aspeto formal e competitivo. Os números não deixarão de corresponder ao que se passou sobre o relvado. Depois dos dois empates caseiros iniciais (Ucrânia e Sérvia), Portugal entrou nos eixos do comboio das vitórias e a maneira como se impôs em Belgrado, com um toque supremo de classe, abriu-lhe em definitivo os portões da qualificação direta sem necessitar de recorrer a um qualquer play-off dos que foram, em tempos, uma espécie de vício nacional.

A aposta do engenheiro nos quatro mosqueteiros do ataque, Félix, Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Ronaldo, foi incisiva e de certo modo esclarecedora das suas ideias para o futuro, mas não se pode dizer que o quarteto tenha enchido os olhos das muitas pessoas que foram ao Campo Grande e das muitas mais que seguiram as peripécias pela televisão. O campeão da Europa cumpriu a sua missão e obedeceu ao seu destino, que o manda impor-se a todos os adversários de menor dimensão, sendo o Luxemburgo exemplo acabado de um deles. 


Mas, convenhamos, a dinâmica foi assim para o pobrete embora alegrete. Ou pior: a dinâmica inexistiu. Portugal limitou-se a esperar pelos erros do adversário, que tem mostrado um nítido avanço coletivo e individual em relação ao tal Luxemburgo da era pré-profissional, mas comete erros básicos como o que deu o golo de Ronaldo, afinal o que sentenciou o jogo e permitiu a poupança definitiva do físico da seleção nacional, embora, nesse aspeto, as obrigações não tenham sido por aí além. O ritmo pausado que tomou conta dos 90 minutos não poderá deixar de ter sido visto por Fernando Santos como uma boa notícia para a deslocação a Kiev. Já a desinspiração dos mais brilhantes talentos portugueses, não incluindo aqui a formidanda execução de Cristiano Ronaldo no chapéu que foi como se mandasse Moris às urtigas, teve o seu quê de incomodativo.

Parece evidente um certo desconforto de Bruno Fernandes neste esquema idealizado para concentrar os quatro mosqueteiros.Fica ali num tem-te-não-caias entre recuar para armar jogo e meter bolas nos espaços que Ronaldo,Félix e Bernardo Silva atacam, e na tentação de subir, deixando, no caso, Danilo e Moutinho demasiado distantes dos seus avançados. Além disso, os luxemburgueses, percebendo que a tentação da saída de ataque nacional era a de fazer a bola passar sempre primeiro por Danilo, lançaram-lhe dois opositores às canelas e obrigaram-no quase sempre a ceder às faltas ou a optar pelo passe para trás, recomeçando aí outra vez todo o processo. Como Moutinho é um motor de rotação contínua mas de pouca explosão, pedia-se a Bruno Fernandes que viesse buscar a bola a terrenos mais recuados, algo que raramente aconteceu no primeiro tempo.

Os tais erros do Luxemburgo aliviaram a equipa e alegraram o público, mas nunca elevaram o espetáculo para um patamar superior. O encontro de Alvalade passou a ser uma questão burocrática e, sobretudo, de contabilidade. Três pontos eram não apenas exigidos como obrigatórios e já sabemos todos como o Portugal de Fernando Santos domina a aritmética como nenhum outro antes dele. Para lá do que se fazia, ou não, sobre a relva, havia a Ucrânia e o jogo de Kiev na cabeça de todos. Resta agora perceber, e já não falta muito, se o atávico pragmatismo do engenheiro o levará a correr riscos ou a esperar pelas condições que Shevchenko decidir impor.

Seria demasiado surpreendente que, depois do que se passou nas últimas quatro rondas deste grupo, a Sérvia ainda conseguisse trepar uma montanha sempre demasiado íngreme para as suas capacidades. Os senhores que vivem bem só têm de não desperdiçar a sua vidinha.

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