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Doclisboa. Entre muros, passados e futuros

Doclisboa. Entre muros, passados e futuros

Cláudia Sobral 14/10/2019 16:05

Com Longa Noite, filme de Eloy Enciso em direção às raízes do fascismo e às feridas deixadas pela Guerra Civil Espanhola, arranca na próxima quinta-feira o 17.º Doclisboa. No ano em que se assinala o 30.º aniversário da queda do Muro de Berlim, com uma grande retrospetiva do cinema da Alemanha de Leste. Uma edição a devolver-nos a memória dos muros de um passado ainda recente, num presente em que continuam a erguer-se muros novos.

Longa Noite

Foi a partir de excertos de peças, memórias e cartas do regime franquista que se foi construindo Longa Noite. Um filme a explorar “as fundações sociais e políticas do fascismo” em Espanha, que o realizador Eloy Enciso levou em agosto passado a Locarno e que, quinta-feira, faz a abertura do 17.º Doclisboa. A ação decorre uns anos depois do fim da Guerra Civil Espanhola, altura em que Anxo regressa à sua vila, na Galiza rural. Naquela vila, a sua chegada será vista como um regresso ao passado e às memórias até então silenciadas.

 

Once Upon a Time in Beirut

Além de Ascensão e Queda do Muro – O Cinema da Alemanha de Leste, o Doclisboa dedica uma outra completa retrospetiva à obra da libanesa Jocelyne Saab – do tempo em que não se tinha feito cinema ainda, quando começou a documentar, enquanto jornalista, com as suas primeiras reportagens a partir de Israel, Egito e Iraque, ao regresso ao Líbano num período em que se vai já tornando cineasta. Once Upon a Time in Beirut (1994) é a história de duas mulheres a descobrirem, numa cidade destruída pela guerra, um país que não conheciam: o do cinema.

 

Leipzig in the Fall

A 9 de novembro assinalam-se os 30 anos da queda do Muro de Berlim. A assinalar o acontecimento, o Doclisboa dedica uma imensa retrospetiva ao cinema da Alemanha do lado de lá do muro: a RDA. Da reconstrução pós-II Guerra Mundial aos anos que se seguiram à queda do muro, um extenso ciclo a contar tanto com filmes apologistas do regime vigente como com outros que foram censurados. A sessão O Muro Caiu (dias 24 e 25) junta Sweep it Up (1990), uma curta de conversas noturnas de desânimo de varredores de rua, e Leipzig in the Fall, sobre as manifestações de 1989 que, em Leipzig, lideraram o movimento que levou à queda do muro.

 

Três Perdidos Fazem Um Encontrado

Na Competição Portuguesa, uma coprodução entre Portugal, Japão, Bélgica e Hungria da autoria do japonês Atsushi Kuwayama. Exibido com Curtir a Pele, de Inês Gil, Três Perdidos Fazem Um Encontrado acompanha a busca de um japonês de coração partido, na companhia de um amigo indiano, por uma nascente sagrada no sul de Portugal. Uma viagem marcada por uma sucessão de encontros “por uma das regiões mais despovoadas e com mais suicídios da Europa em direção ao destino lendário” numa velha autocaravana.

 

Young and Alive

Na secção Riscos, duas sessões para dois filmes franceses a “dois tempos”: primeiro, Naked Hearts (1966), filme de Édouard Luntz sobre a juventude à margem da sociedade francesa da década de 1960. Depois, Young and Alive, de Matthieu Bareyre, um filme de 2018, rodado entre a juventude parisiense ao longo dos anos que se seguiram ao ataque ao Charlie Hebdo, numa “viagem pela noite com jovens que não dormem”. Entre “sonhos, pesadelos, embriaguez, doçura, aborrecimento e lágrimas”. 

 

Eu não sou Pilatos

Na Competição Internacional, uma curta-metragem portuguesa que o realizador, Welket Bungué, se apressa a descrever como “manifesto sobre “o Estado em que nos tornámos”. Nós, Portugal. Sobre o “racismo endémico, purgante e distanciador”, uma curta que Bungué montou a partir das imagens da repressão policial no Bairro da Jamaica no início do ano e da manifestação de jovens na Av. da Liberdade, em Lisboa, que se seguiu àquele episódio. Na mesma sessão, Santikhiri Sonata, do tailandês Thunska Pansittivorakul.

 

Brexit Behing Closed Doors

Ao longo de dois anos, a realizadora belga Lode Desmet teve acesso a Guy Verhofstadt, coordenador do Brexit do Parlamento Europeu, e à sua equipa. Oresultado – Brexit Behind Closed Doors, que o Doclisboa exibe na secção Da Terra à Lua – é como “uma reveladora mosca [...] que regista as conversas e discussões confidenciais dos negociadores europeus enquanto delineiam a estratégia para lidar com os britânicos”. Entre o cómico e o trágico, um documentário a mostrar-nos o falhanço das negociações, a partir de dentro.

 

Chão

Ao longo de quatro anos, a brasileira Camila Freitas documentou a vida de um grupo de trabalhadores sem terra do estado de Goiás. Estreado em fevereiro passado no Festival de Cinema de Berlim, Chão é um retrato da luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por uma redistribuição de terras no Brasil, num tempo em que as forças conservadoras ligadas aos grandes proprietários ganham terreno. Não admira que tenha sido Landless o título internacional desta produção brasileira, integrada na secção Da Terra à Lua.

 

Technoboss

Depois de estreado em Locarno, em agosto passado, Technoboss, o mais recente filme de João Nicolau, tem a sua primeira exibição nacional enquanto filme de encerramento deste Doclisboa. O protagonista é Miguel Lobo Antunes, que interpreta Luís Rovisco: um sexagenário divorciado, à espera da reforma das suas funções como diretor comercial de uma empresa de sistemas integrados de controlo de circulação. À espera e, “a maior parte das vezes, ao volante e a cantar sobre o que lhe vai passando à frente”. Uma produção de O Som e a Fúria, com Mariana Ricardo como coargumentista.

 

Lemebel

Na secção Heart Beat, em que nesta edição são recuperados filmes como Chico: Artista Brasileiro (Miguel Faria Jr., 2015) ou Don’t Look Back (D. A. Pennebaker, 1967), que acompanha Bob Dylan em digressão em Inglaterra, em 1965, é exibido Lemebel (2019), de Joanna Reposi Garibaldi. Uma produção chileno-colombiana centrada no escritor, artista e performer Pedro Lemebel que, como pioneiro do movimento queer chileno, abalou na década de 1980 uma sociedade sob o jugo de Pinochet.

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