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Portugal-Luxemburgo. Entrar assobiando pelo Pátio das Cantigas

Portugal-Luxemburgo. Entrar assobiando pelo Pátio das Cantigas

Afonso de Melo 11/10/2019 12:09

Hoje, no Estádio de Alvalade, pelas 19h45, a seleção nacional dará mais um passo natural em direção à fase final do Euro 2020.

Enche-se, logo, o Estádio de Alvalade, pela hora da janta, ou mais ou menos, 19h45 deste Outono ainda cheio de dias de verão? Faz sentido a pergunta porque, ultimamente, as enchentes no Lumiar são cada vez mais escassas ainda que, há que convir, o adepto do Sporting seja um crente inabalável e, à primeira sensação de retoma, predispõe-se a esquecer o desaire mais recente para erguer alto a sua esperança na vitória que há de vir. Mas, desta vez, não é de Sporting que se trata, é de seleção nacional, ainda que com uma pedra de grande peso do plantel leonino, Bruno Fernandes, pois claro!, essa espécie de faz-tudo-e- -mais-alguma-coisa nas equipas que foram, sucessivamente, de Keizer, de Ponte e de Silas, e com alguns antigos leões que não podem ser esquecidos, por muitas voltas que a sua relação com o clube tenha dado.

Ora bem, depois das bolandas iniciais deste apuramento para a fase final do campeonato da Europa de 2020, com jogos meio à balda aí por todo o Velho Continente, o que lhe trará, com certeza, uma inédita forma de ser encarado por aqueles que costumam acompanhar alegremente as seleções dos seus países, Portugal também parece ter atirado para trás das costas os incomodativos empates caseiros com Sérvia e Ucrânia e, depois de ter despachado os sérvios, em Belgrado, mais ou menos com as mãos nos bolsos e um assobio melodioso de Vasco Santana n’O Pátio das Cantigas, tratou de se colocar em posição de se qualificar sem grandes requisitos posteriores. Mesmo com a deslocação a Kiev pelo caminho, e já na próxima segunda-feira, dá para entender que três vitórias (duas frente ao Luxemburgo e uma, em casa, face à Lituânia) chegam e sobram para aquela contabilidade pontual na qual o eng.o Fernando Santos – et pour cause... – é especialista.

Ora, a primeira dessas três vitórias está marcada para hoje. Só uma borrasca absolutamente inesperada, a roçar o furacão e com laivos de hecatombe, não nos põe desde já nas mãos os tais três pontos em compita. Podem vir falar-me da velha e relha gloriosa incerteza do desporto, que tantas páginas enchia nos jornais de antanho. Sei muito bem do que se trata e basta olhar para o que aconteceu em 8 de outubro de 1962, cumpriram-se agora exatamente 57 anos, na Cidade do Luxemburgo, com aquele estilo barroco da Casa de Nassau, muito tipo Disneylândia, que foi a antiga Cidade das Fadas, e ficamos logo com a ideia segura do que não pode repetir-se. Nesse dia amaldiçoado pelos deuses menores da emérita senhora das paixões, a bola, Portugal, com os seus Águas e Coluna e Costa Pereira, Eusébio em estreia absoluta com as cinco quinas sobre o coração, foi violentamente pisoteado por um grupo de luxemburgueses bons rapazes, perdendo por 4-2 e servindo de chacota um pouco por toda a Europa. Não é, assim, por falta de aviso nem de memória que o jogo de Alvalade não será levado o mais a sério possível, com toda a gente apostada em não baixar um milésimo que seja os graus da máxima competitividade.

 

Confortável

Tirando esse horror de 1962, o Luxemburgo até tem sido um adversário confortável para os portugueses, aliás, como a sua continuada fragilidade ao longo dos anos o obriga. É verdade que há, nos 11 encontros já disputados entre ambos, mais um desafio de franzir o sobrolho, empate 1-1, a 12 de outubro de 1991, mas esse, ao menos, foi amigável, benza-o Deus, com tudo o que arrasta de certos facilitismos.

Como não dou para o habitual peditório das apostas no onze que Fernando Santos irá apresentar, tal como teimosamente o venho dizendo desde o Europeu de 2016, por saber que o selecionador tem ideias muito pragmáticas sobre os conjuntos que gosta de fabricar, peça a peça, e que ninguém lhe peça seja o que for, também não entro agora na especulação habitual dos que insistem em ver os três mosqueteiros em campo (tal como no livro de Alexandre Dumas, são quatro): Félix, Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Ronaldo, faça de D’Artagnan quem fizer.

Não é por isso que deixo de ter a minha opinião, e quem tem, volta e meia, a paciência infinita de me ler, sabe que considero que o talento nunca é descartável, ainda que se torne necessário dar-lhe parâmetros e estabelecer-lhe regras, para bem do coletivo. E, assim sendo, só por estultícia não conseguiria ver com bons olhos os quatro em campo, de início, com a camisola dos escudos azuis. Não há, neste momento, melhores. Mas sou o primeiro a perceber o motivo por que, na Sérvia, o engenheiro apostou em Gonçalo Guedes, ao fim e ao cabo o homem que lhe deu o título de vencedor da Taça das Nações com aquele golo repentista, nas Antas, frente à Holanda.

Contra a Lituânia, no jogo seguinte, os três mosqueteiros mais um foram lançados de início. O adversário não era, como não foi, de facto, capaz de causar arrepios. A vitória, fácil, com Ronaldo a regressar às catadupas de golos, deu a entender que a opção é viável, ao contrário do que tantos recusaram após o jogo do Porto, contra a Suíça, a contar igualmente para a Liga das Nações. E se foi viável em Vilnius, muito mais poderá ser em Alvalade, esta noite, perante um adversário igualmente muito pouco preocupante.

Seja qual for a decisão de Fernando Santos, não há neste momento qualquer tipo de motivo para desconfianças em relação àqueles que têm como tarefa apurarem-se para a fase final de um Europeu onde se apresentam como campeões em título. Ainda por cima, sabendo de antemão que a vitória na Ucrânia será supranumerária, isto para não escrever dispensável, já que os portugueses também têm todo o direito a exigir que a sua seleção não seja derrotada por adversários inequivocamente inferiores, e a Ucrânia é outro deles. Por isso e por muito mais, Alvalade tem motivos para ver as bancadas repletas, e quem for assistir ao Portugal-Luxemburgo pode esperar pela vitória, mais ou menos expressiva. Se assim for, a festa está montada. Três dias depois, na Ucrânia, outras contas se farão e, certamente, Fernando Santos procederá a mudanças no seu onze, como já nos habituámos ao longo destes anos. E vai tendo razão, por muitas embirrações que cause. A palavra volta a ser dele.

 

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