26/9/20
 
 
José Paulo do Carmo 11/10/2019
José Paulo do Carmo

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O tempo que se acaba

Essa é das coisas mais interessantes que a própria idade nos traz. Reduzir o que não interessa ao mínimo e viver o que nos acrescenta até ao limite.

O centro do nosso mundo é o tempo. Esse é, hoje em dia, o nosso bem mais valioso. Aquele que não podemos desperdiçar. Essa consciência do que fazer com ele e, acima de tudo, do que não queremos fazer leva-nos às opções que tomamos. Nos últimos anos, as pessoas, sobretudo os jovens, desarrumaram a vida em busca de novas sensações, da procura dos seus limites, da inovação e da novidade – ao invés das mais velhas, que sempre foram mais para aquilo que lhes trazia estabilidade, para aquela escolha certa, para os sítios de sempre. Uns e outros começam agora a ter maior noção de que não há espaço para fazermos coisas que não nos acrescentem, que não nos tragam algum tipo de satisfação ou rendimento, que só sirvam para empatar.

Essa fase da experiência, do conceito e das novas terminologias que teimam em adornar o que já existia com novo palavreado dará cada vez mais lugar à consciência da nossa finitude e do que queremos fazer com ela. Queremos experimentar, sim, mas não temos tempo para falhar o alvo. Cada vez estamos, por isso, menos dispostos a desperdiçar o nosso tempo numa refeição aquém das expectativas, numa festa que seja um fracasso ou num investimento que nos ocupe a mente e só nos faça atrasar. É por isso que aquilo que estabiliza em bom ganha uma nova dimensão. Aquilo que não falha e nos dá mais garantias recebe um selo de qualidade que queremos repetir. Seja no que for. Até no próprio relacionamento entre as pessoas. Esta fase mundana, em que todos eram de todos e o que era cool era socializar, dá lugar a uma aposta nos que valem mais a pena, nos círculos restritos. Aqueles a que chamamos nossos.

Começa aos olhos de muitos a deixar de ser interessante ir só por ir, fazer só por fazer, ter só para mostrar. Esta superficialidade que acompanhou a democratização do poder de compra começa finalmente a ser substituída pelos pequenos prazeres, pela qualidade e intencionalidade, mas também pela profundidade do que se quer. É por isso que voltamos a querer espaços mais restritos, clubes mais privados, reuniões mais curtas e conversas mais prolongadas. Deixámos de ter paciência para aturar chatos e para ter de estar só para parecer bem, só porque toda a gente vai ou porque interessa ir. Vamos porque temos prazer, porque vamos retirar algo disso que vai preencher-nos no final do dia. Essa é das coisas mais interessantes que a própria idade nos traz. Reduzir o que não interessa ao mínimo e viver o que nos acrescenta até ao limite.

As nossas escolhas, passada esta fase híbrida do consumismo de produtos tecnológicos que nos induzem a sermos aquilo que não somos e a invejarmos o que não está ao nosso alcance, vivendo a vida de outros, darão lugar a uma nova aproximação ao que realmente me parece ser interessante. As amizades, a família, os que dão por nós e os que recebem de nós de uma forma agradecida e reconhecida. Essa é a razão para que os espaços mais carismáticos não acabem: a alma e a profundidade com que nos fazem voltar. Porque temos cada vez menos tempo para deitar fora. Para saber a pouco ou não saber a nada. Para olharmos para trás e só restar o vazio. Como dizia o ator Billy Crystal num filme, o importante é colecionarmos bons momentos, aquela magia que nos preenche, os segundos ou minutos de prazer que não trocávamos por nada. A altura do desperdício já passou. Não queremos desperdiçar o que quer que seja, mas sobretudo o tempo que nos permite vivermos o que sonhamos viver.

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