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Portugal-Luxemburgo. Uma tarde calma antecedeu o terramoto

Portugal-Luxemburgo. Uma tarde calma antecedeu o terramoto

Afonso De Melo 10/10/2019 20:36

O primeiro jogo entre as duas seleções disse respeito ao apuramento para o Mundial de 1962, no Chile. A vitória, no Jamor, foi recorde para a equipa das quinas: 6-0. Mas tudo viria a ruir como um castelo de cartas.

O primeiro jogo entre Portugal e Luxemburgo disputou-se numa nova realidade da seleção nacional. O consulado do dr. José Maria Antunes tinha chegado ao fim com a derrota em Belgrado para o Europeu. O selecionador era agora Armando Ferreira, e o treinador, Otto Glória, que acabara de trocar o Belenenses pelo Sporting. 19 de março de 1961: primeiro jogo da fase de apuramento para o Mundial de 1962, cuja fase final estava marcada para o Chile. Lisboa, Estádio Nacional. Grupo de três equipas: Portugal, Luxemburgo e Inglaterra. Não restavam dúvidas de que vencer os luxemburgueses era obrigatório. Para a história ficará que tudo se cifrou como mais uma grande hecatombe do nosso futebol. E nela coube uma das nossas derrotas mais vergonhosas, precisamente no Luxemburgo (4-2). Mas esse é outro episódio. Ao qual voltaremos...

Era voz generalizada na crítica que Portugal precisava urgentemente de encontrar um estilo lusitano: próprio, estabilizado e inculcado, que desse garantias quanto à média de exibições e diretrizes base de processos de jogo. Para isso, admitia-se que a solução ideal passava pelo reforço da equipa do Benfica, a dar cartas na Europa, com alguns internacionais considerados indiscutíveis.

Não era essa, no entanto, a intenção de Armando Ferreira. Sabendo que apenas os resultados contavam e que os golos marcados não eram importantes (em caso de empate haveria lugar a um jogo de play-off), o selecionador queria aproveitar a debilidade luxemburguesa para algumas experiências. E assim foi. No Jamor, Mário Lino (Sporting) e José Carlos (CUF) vestiram a camisola das quinas pela primeira vez; Hernâni (FC Porto) e Yaúca (Belenenses) foram infiltrados no ataque do Benfica, jogando com José Augusto, Águas e Coluna, ficando de fora Santana e Cavém, este por lesão. Costa Pereira, Ângelo, Germano e David Júlio – o homem que nascera em Joanesburgo como David Abraam Julius – completavam o onze.

Eusébio ainda não contava. Viria a fazer a segunda parte da qualificação. O seu caso arrastava-se nas instâncias jurídicas da Federação Portuguesa de Futebol, opondo o Sporting e o Sporting de Lourenço Marques ao Benfica. O jovem moçambicano já estava na Metrópole, mas impedido de se treinar e de jogar por via da morosidade da burocracia.

Qualidade Certa vez, na sua casa ali perto das Amoreiras, Manuel da Luz Afonso, o homem que seria selecionador pouco mais de dois anos depois e que levaria Portugal ao terceiro lugar do Mundial de 1966, disse-me numa entrevista muito longa, cerca de um ano antes da sua morte: “A seleção portuguesa que disputou as eliminatórias do Campeonato do Mundo de 1962 foi a melhor de sempre! Porque tinha praticamente todos os jogadores de 1966, e bem mais novos, como podia contar ainda com grandes jogadores como Hernâni, Matateu ou José Águas. Nunca tivemos tanta qualidade em tanta quantidade. Se tivéssemos garantido o apuramento, que nem era muito difícil, podíamos ter ido muito longe nesse Mundial. Porque só havia, de facto, uma equipa com melhores jogadores do que a nossa: o Brasil. E o Brasil, nesse Mundial, ficou sem Pelé”.

Pois... Mas a Inglaterra não deixou.

Vivíamos num período em que os pormenores já não eram deixados ao acaso: Armando Ferreira desloca-se a Londres para espiar o Inglaterra-Escócia, jogo final do Campeonato Britânico (disputado entre Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales, e extinto em 1984). Vem de lá espantado com a eficácia ofensiva da nova Inglaterra de Winterbotton: 9-3 foi o resultado final. “Esta exibição da equipa inglesa foi a mais fantástica que vi em toda a minha carreira de homem do futebol! O ataque inglês é verdadeiramente impressionante! Se pensarmos que já marcou 32 golos nos cinco jogos disputados esta época...”

De facto, a carreira dos ingleses era digna de registo: Irlanda do Norte, 5-2; Luxemburgo, 9-0; Espanha, 4-2; País de Gales, 5-1. E, um mês depois de destroçar a Escócia, daria 8-0 ao México. O seu selecionador não tinha dúvidas: “A Inglaterra conta com a equipa mais forte que possuiu depois da ii Grande Guerra. É superior à que contou com homens como Tommy Lawton, Manion e Stanley Matthews”. E tanto otimismo assentava na qualidade de alguns jovens jogadores como Jimmy Greaves (21 anos), Ron Flowers (20) e Bobby Charlton (23) – sobrevivente da terrível tragédia de Munique, quando um desastre de avião matou a grande maioria dos seus companheiros do Manchester United –, e no poder físico de homens como Peter Swan, Brian Douglas, John Haynes ou Bobby Robson, que viria a ficar, muitos anos depois, definitivamente ligado ao futebol português como treinador do Sporting e do FC Porto.

A vitória de Portugal sobre o Luxemburgo foi claríssima: 6-0, goleada recorde nos anais da seleção nacional da altura. Águas marcou o primeiro, Brosius fez o 2-0 na própria baliza, Yaúca arrancou um hat-trick e Coluna fechou a conta.

Reparem: era apenas o segundo triunfo português num Campeonato do Mundo ao fim de 11 jogos: o primeiro fora frente à Itália, em 1957. Mas a exibição de Portugal voltou a deixar muito a desejar. Meio apáticos, os portugueses jogaram com excessos de lentidão, confiando demasiado na fraqueza do adversário. Talvez a meia dúzia de golos tivesse sido prémio imerecido, mas ia servindo para manter o moral em alta nos dias que antecediam a visita da Velha Senhora, a Inglaterra, marcada para maio.

Teríamos de continuar à espera. No jogo de retorno, no Luxemburgo, a derrota foi tão esmagadora como dolorosa. Portugal não estava ainda pronto para as grandes competições.

 

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