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Turquia. Operação Fonte de Paz já deslocou 64 mil pessoas

Turquia. Operação Fonte de Paz já deslocou 64 mil pessoas

AFP Filipe Teles 10/10/2019 19:44

Erdogan não gostou das reações europeias e ameaçou enviar os refugiados em direção à Europa.

 

Enquanto Donald Trump lavou as mãos em relação à invasão turca no nordeste da Síria, o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou enviar os refugiados retidos no seu país em direção à Europa. E o segundo dia da Operação Fonte de Paz já conta com quase duas dezenas de mortos, e milhares de pessoas fogem da região. 

Escassos três dias depois de o chefe da Casa Branca ter retirado as tropas norte-americanas do terreno, Ancara avançou sem hesitar contra as milícias curdas. A operação começou com ataques aéreos - durante seis horas - nas áreas controladas pelas Forças Democráticas da Síria (FDS), na quarta-feira. Na quinta-feira de manhã já tinham sido realizados 181 ataques aéreos, segundo o Ministério da Defesa da Turquia. As tropas turcas e os combatentes sírios, apoiados por Ancara, já passaram a linha fronteiriça e encontram-se na Síria.

Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, localizado no Reino Unido, 23 membros das FDS foram mortos e dezenas feridos, também das milícias curdas - terão sido cinco do lado turco. A isso somam-se cerca de 64 mil pessoas deslocadas a fugir das hostilidades, segundo o Comité Internacional de Resgate. Exemplo disso são as vilas Ras al-Ain e Darbasiya, que se encontram desertas devido ao ataque, segundo a mesma organização.

Já os números de Erdogan são bastante diferentes, que afirmou ter morto 109 “terroristas” - referindo-se às Unidades de Proteção Popular. Estas integram as FDS, que Ancara considera serem um braço armado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que luta há décadas contra o Estado turco. Não há, no entanto, indicações de que os números sejam tão elevados, segundo organizações independentes.

Trump, por sua vez, desvalorizou a aliança com as FDS no combate ao Estado Islâmico, dizendo que estas agiram por interesse próprio quando combateram ao lado de Washington. “Os curdos estão a lutar pela sua terra”, vincou aos repórteres esta quinta-feira. “Eles não nos ajudaram na II Guerra Mundial”. Mas acrescentou: “Dito isto, nós gostamos dos curdos”. 

Erdogan quer criar uma zona de tampão no nordeste da Síria (com 30 quilómetros de profundidade) para relocalizar dois milhões de refugiados sírios na Turquia e expulsar as milícias curdas da área fronteiriça. O país recebe atualmente cerca de 3,6 milhões de refugiados do país árabe, o que tem desencadeado sentimentos de racismo e xenofobia por parte da população turca. “A opinião pública é esmagadoramente contra a sua presença”, notou o jornalista curdo Mohammed Salih ao The Intercept. 

Mostrando-se preocupada com a destabilização da região face à possível vaga de refugiados que poderão fugir para a Europa devido ao conflito, Bruxelas também se mostrou preocupada com as suas finanças. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, não podia ter sido mais taxativo: “Se o plano envolve a criação de uma chamada zona de tampão, não esperem que a União Europeia pague isso”. Bruxelas depende de Ancara para estancar os refugiados que se dirigem para a Europa e, para isso, assinou com a Turquia, em 2016, um acordo para fechar a rota do Egeu. 

Sentindo essa fragilidade e não gostando das críticas europeias, Erdogan jogou uma cartada contra Bruxelas. “Vou abrir os portões e enviar os 3,6 milhões de refugiados na vossa direção”, no caso da UE catalogar a ofensiva turca como uma ocupação, disse esta quinta-feira num discurso perante o seu partido.

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