24/10/19
 
 
Carlos Gouveia Martins 10/10/2019
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

O último dos quatro

Faleceu Diogo Freitas do Amaral. Foi o fundador do CDS e um homem que nunca parou de pensar e de escrever.

Fechou-se mais uma página na história da democracia portuguesa. Depois de Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Mário Soares, faleceu aquele que era o mais jovem de quatro líderes, Diogo Freitas do Amaral, o último dos fundadores de um dos grandes partidos iniciais do nosso regime democrático.

Seria humanamente impossível, num pensamento que se quer curto como este, reproduzir por escrito a larga escala dos méritos que cada um destes quatro portugueses alcançou.

Acima de tudo, será sempre injusto menorizar ou diminuir tudo aquilo que representaram, representam e irão representar sempre na história do nosso País.

Mas há particularidades, em cada um dos quatro, que por si só refletem a liderança que exerceram. A forma como se dedicaram a um país. Os princípios com que colocaram o bem comum à frente do seu bem pessoal. Trilharam um caminho inigualável, de esperança e mobilização de um país em torno da participação cívica e democrática. Por isso, mas não só por isso, deveremos ser justos e agradecidos sempre.

Serão sempre quatro figuras proeminentes na implementação do regime democrático. Serão sempre quatro líderes a quem devemos seguir vários exemplos.

Álvaro Cunhal, o mais velho dos quatro, nasceu em Coimbra em 1913. É o líder fundador do PCP. Ainda hoje é recordado e foi o primeiro a ter ação política neste grupo de fundadores.

Foi sempre um fiel e assumido militante de oposição ao Estado Novo, em parte fruto dos seus ideais, e em consequência da sua ação de oposição à ditadura esteve preso durante um total de 15 anos, distribuídos entre 1937 e 1960. Esteve, inclusive, em completo isolamento durante quase dez anos sem nunca ter perdido a noção do tempo de forma hercúlea.

Foi Secretário-Geral do PCP, e líder de todos os comunistas portugueses, durante mais de trinta anos. Ainda hoje é tido como exemplo maior da família política que coordenou desde o Comité Central entre 1961 e 1992.

Dedicou-se à pintura e à escrita, enquanto preso, e destacou-se também nessa forma de pensamento.

Foi ministro sem pasta no I, II, III e IV governos provisórios e igualmente esteve na Assembleia da República, entre 1975 e 1992, enquanto Deputado. Foi ainda membro do Conselho de Estado de 1982 até 1992, quando saiu da liderança do seu PCP.

Ficou na memória como um comunista que nunca abdicou do seu ideal, tendo mantido sempre o mesmo discurso ao longo de uma vida que culminou em 2005 num funeral que teve mais de 200.000 pessoas. É um claro exemplo de liderança, de acreditar em alguém, de partilhar ideologia. Cunhal teve e tem isso em milhares de portugueses.

Mário Soares será sempre o líder sociológico do PS. Foi, dentro deste grupo de quatro líderes, o que teve maior longevidade em vida. Nasceu em 1924 e faleceu em 2017 com 92 anos de idade.

Foi Primeiro-ministro entre 1976 e 1978 e repetiu a experiência posteriormente entre 1983 e 1985. De 1986 a 1996 foi Presidente da República, e a história nunca irá esquecer as eleições presidenciais de 86, as únicas com duas voltas, em que só à segunda bateu Freitas do Amaral.

Foi a única eleição presidencial com segunda volta e envolveu de forma direta três destes quatro líderes políticos: Mário Soares, Diogo Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal.

Na primeira volta, realizada a 26 de janeiro de 1986, Freitas do Amaral obteve 46,31% dos votos contra os 25,43% de Mário Soares (para registo e justiça, Francisco Salgado Zenha teve 20,88% e Maria de Lurdes Pintasilgo 7,38%), o que exigia uma segunda volta eleitoral em consequência de nenhum dos candidatos ter alcançado mais de 50% dos votos validamente expressos em urna.

Registar um facto curioso e atual. Se nessa longínqua primeira volta presidencial a abstenção foi de 24,62%. Já facto incrível face à realidade de 2019. Mas há melhor. 22,01% foi o baixo valor de abstenção na segunda volta de 16 de fevereiro de 1986. Quem nos dera…

Recapitulando.

Na segunda volta eleitoral, Mário Soares venceu com 51,18% dos votos contra os 48,82% de Freitas do Amaral. Esta vitória de Mário Soares deve-se, em grande parte, ao PCP liderado por Álvaro Cunhal. Os comunistas, que não sentiam agrado por nenhum dos dois candidatos, optaram por votar numa espécie de “menor de dois males”. Disse então o Secretário-Geral do PCP, Álvaro Cunhal, que “Se for preciso tapem a cara [de Soares no boletim de voto] com uma mão e votem com a outra”. São histórias que ficam.

Francisco de Sá Carneiro nasceu em 1934, no Porto, e é conhecido em todo o mundo a forma trágica como faleceu em 1980 na tragédia de Camarate enquanto exercia funções de Primeiro-ministro. Foi o maior líder do PPD/PSD que fundou em 1974.

É o único cujo trajeto de vida foi interrompido de forma trágica e isso irá levar sempre a fábulas sobre “o que podia ter sido”. Nenhum de nós saberá. O que sabemos é o que fica.

De discurso acutilante, sendo dos quatro aquele a quem a história mais perdura várias citações dos seus discursos por serem replicados nas intervenções de outros atores políticos, ficou reconhecido de entre os seus pares pela liderança e coragem.

Coragem de decidir em função do interesse maior e não do seu. Ficou isto provado quando, em novembro de 1977, se demite da presidência do PPD/PSD numa altura em que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estava em Lisboa para preparar a sua primeira intervenção em Portugal com um governo minoritário – e fragilizado - de Mário Soares. À data, pediam-se consensos de governação mas Sá Carneiro e Mário Soares não se entendiam.

A tensão cresceu no seio do atual PSD e Francisco Sá Carneiro chegou a afirmar estar “rodeado de conspiradores, quer soaristas quer eanistas”. Com partido em crise, os deputados “laranjas” aprovariam no Parlamento a polémica Lei da Reforma Agrária à revelia do próprio líder. Esse líder, Sá Carneiro, perdia a paciência e batia com a porta da Assembleia da República.

Suspendeu a atividade de Deputado e saiu de Portugal, rumo a Paris, de onde regressaria um ano depois para travar o “dito” primeiro grande embate da história do PSD.

A liderança do partido estava a cargo de António de Sousa Franco, que dirigia uma espécie de ala anti-sá-carneirista, de onde se liderava mais de metade dos 73 deputados do PSD na procura de entendimentos com Eanes e Soares. Chamaram-lhes formalmente como o grupo das ‘Opções Inadiáveis’, do qual faziam parte nomes sonantes, como os fundadores Pinto Balsemão e Magalhães Mota, mas o que se tornou mesmo “inadiável” foi a reeleição de Francisco Sá Carneiro, em julho de 1978, de forma apoteótica.

O grupo das “Opções Inadiáveis” saiu derrotado do sufrágio interno contra Sá Carneiro mas manteve durante algum tempo uma importante margem de manobra, já que dominava o grupo parlamentar do PSD. Numa prova de coragem política, Sá Carneiro não desistiu e, até março de 1979, vê 37 deputados do PSD passarem a independentes ficando a bancada “oficial” do PSD de Sá Carneiro apenas com 36 parlamentares.

Resistiu.

Em finais de 1979, criou a Aliança Democrática, uma coligação entre o seu PPD/PSD, o CDS de Diogo Freitas do Amaral, o Partido Popular Monárquico (PPM), de Gonçalo Ribeiro Telles e o Movimento dos Reformadores.

A coligação, a famosa “AD”, liderada por Sá Carneiro vencia as eleições legislativas desse ano com maioria absoluta. Durou até 4 de dezembro de 1980 mas ficará para a memória a resiliência do líder fundador do PPD/PSD.

Chegamos a 2019. Na passada semana, a 3 de outubro, faleceu Diogo Freitas do Amaral.

Com 78 anos de idade, ficará reconhecido pela voz moderada (a mesma voz que informou todo um país da morte de Francisco Sá Carneiro em 1980), e também pelo arrojo político de ter feito parte de um governo do PS após ter fundado o Partido do Centro Democrático Social (CDS) em julho de 1974.

Foi o fundador do CDS e um homem que nunca parou de pensar e de escrever.

Já doente, ainda há escassos e curtos três meses, lançou o último volume da sua autobiografia política onde se autodefiniu como "um político com um percurso singular”. Como intitulou nas suas memórias, ao jeito de Frank Sinatra, dizia o próprio de si mesmo que: "I dit it my way". E que bem fez.

Viveu 50 anos de intervenção pública e política. Não só no CDS, e mais tarde apoiando o PS, mas também ao nível académico onde foi catedrático de Direito sendo ainda hoje uma – talvez a maior – referência do Direito Administrativo em Portugal.

Integrou os Governos da Aliança Democrática entre 1979 e 1983, tendo sido Primeiro-ministro interino após a morte de Sá Carneiro. Já referido também, nunca será esquecida a sua derrota de 1986, para Soares, por 138 mil votos.

Em 2005 aceitou ser ministro dos Negócios Estrangeiros de um Governo PS, como independente, após ter saído do CDS em 1992 em total rutura com a direção nacional e com Manuel Monteiro, pelo partido que fundou tentar chumbar o Tratado de Maastricht. Era um Europeísta convicto e isso ficou vincado ao bater com a porta do seu “sempre partido” quando sentiu a veia europeia colocada em causa.

Num livro que publicou com a sua filha Filipa, intitulado de "Pai e Filha em Diálogo", o último dos quatro pais do sistema político-partidário do país, Diogo Freitas do Amaral resumiu a sua vida pública de forma simples. Cito: "Se eu tiver conseguido pôr a maioria dos meus alunos a gostar de Direito e da Justiça, e uma boa parte dos portugueses a compreenderem e a aceitarem a democracia, se tiver podido colocar no Diário da República algumas boas leis e se tiver honrado o meu país em Bruxelas e em Nova Iorque, terá mesmo valido a pena, foi uma vida cheia".

Seguramente, sem demagogias ou facciosismos ideológicos, assumiremos perante a história que então sim, “foi uma vida cheia”.

Foram quatro homens que lideraram pelo exemplo. Quatro homens com percursos de coragem, internamente nos seus partidos políticos – PCP, PS, PSD e CDS – mas sobretudo perante o país e pela democracia. Todos eles tiveram dissabores, derrotas eleitorais e momentos conturbados nas famílias políticas que criaram. Mas a história do exemplo deu-lhes a maior vitória: O respeito do País.

Nenhum construiu Partidos e projetos políticos sozinho. Nenhum deles o negou e sempre tiveram a humildade de reconhecer os seus pares. Viveram numa geração em que não havia “medo da própria sombra”, em que era positivo estarem rodeados dos melhores.

Cícero escreveu em pranchas, no antigo Império Romano, na Escola de Filosofia Grega que fundou, que “se somos o melhor da mesa em que estamos é porque estamos na mesa errada”. Não podíamos aplicar melhor.

Seguramente, o caminho que eternizou líderes a Álvaro Cunhal, Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral foi nesse sentido.

Há ensinamentos que perduram sempre. A história não poderá esquecer os primeiros quatro grandes líderes do regime democrático.

Carlos Gouveia Martins

 

 

 

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