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NBA. Um afundanço chinês que ajoelha americanos

NBA. Um afundanço chinês que ajoelha americanos

Filipe Teles 10/10/2019 09:58

Entre o lucro e a liberdade de expressão, a NBA começou por escolher o lucro. Depois de alguma hesitação, defendeu timidamente o direito de Morey de se expressar politicamente.

A NBA e os Houston Rockets estão no centro das atenções mediáticas e não é por um triplo de James Harden do meio da rua. Entre o lucro e a liberdade de expressão, a Liga norte-americana de basquetebol profissional hesitou e começou por escolher o lucro. Reconhecida por apoiar o direito dos seus membros a expressar-se politicamente e com uma reputação progressista, a questão destoa quando está em causa um mercado de 1400 milhões de pessoas: a China. E tudo por causa de um tweet.

Na sexta-feira passada, o general manager dos Houston Rockets, Daryl Morey, tweetou uma imagem onde se lia “Luta pela liberdade. Apoia Hong Kong”, um cântico muitas vezes entoado pelos manifestantes da megacidade. Pequim não gostou, os fãs chineses odiaram, alguns patrocinadores suspenderam a sua relação com a NBA e dois jogos de exibição entre os Brooklyn Nets e os Los Angeles Lakers, em Xangai e Shenzen, na China, já não vão ser transmitidos pela televisão estatal chinesa.

Morey apagou rapidamente a publicação – segundo os média norte-americanos, por pressão dos donos da equipa texana – e o gestor da equipa pediu desculpa na segunda-feira pelo Twitter: “Estava apenas a expressar um pensamento, baseado numa interpretação de um evento complicado. Tive muitas oportunidades desde esse tweet para ouvir e considerar outras perspetivas”.

A NBA também se amedrontou inicialmente e publicou um comunicado a condenar Morey, no domingo. Pedindo desculpa pelo próprio Morey, lamentou que as visões do general manager tivessem ofendido os seus “fãs e amigos na China”, mas sugerindo que este tinha o direito de se expressar.

Só que, em chinês, a história foi outra e a NBA disse algo bastante diferente do comunicado na rede social chinesa. Na Sina Weibo, o tom de condenação da Liga a Morey foi mais firme e, aí, a NBA nem mencionou que Morey tinha direito à sua opinião. Afinal, a NBA tem apostado no mercado chinês desde a década de 1990 e em causa estão cerca de 4 mil milhões de dólares (3,64 mil milhões de euros). Até Harden, MVP da Liga em 2018 e jogador dos Houston Rockets, que há três anos se pronunciou publicamente contra a violência policial sobre os negros nos EUA e não sofreu qualquer represália por isso, interveio na gestão de danos.

A polémica até juntou ferozes adversários políticos, como Beto O’Rourke e Ted Cruz, ao coro de críticas. “A única coisa por que a NBA devia estar a pedir desculpa é pela sua flagrante prioritização dos lucros sobre os direitos humanos. Que vergonha”, opinou O’Rourke pelo Twitter. “Como fã dos Houston Rockets, fiquei orgulhoso de ver Daryl Morey a denunciar o Partido Comunista Chinês pelo seu tratamento repressivo dos manifestantes de Hong Kong. Agora, à procura dos dólares, recua vergonhosamente”, disse Ted Cruz, pela mesma rede social.

O tom de condenação dos norte-americanos em relação à organização foi tamanho que a NBA voltou a recuar e passou, esta terça-feira, a defender a liberdade de Morey de dizer aquilo que lhe apetecer. “É inevitável que as pessoas pelo mundo fora – incluindo na China e na América – tenham diferentes pontos de vista sobre diferentes questões”, afirmou Adam Silver, comissário da Liga de basquetebol, num comunicado. “Como Liga, não estamos dispostos a comprometer estes valores”, vincou, referindo-se à liberdade de expressão. Mais tarde, em conferência de imprensa, em Tóquio, Silver defendeu o direito de Morey se expressar e que “entendia” que “havia consequências da sua liberdade de expressão” (Silver defendeu no ano passado que o “discurso político é um direito absoluto” na NBA).

Mesmo com os lamentos iniciais e as tentativas de apaziguamento, os chineses não recuaram e, por mais voltas que dê, a NBA parece não conseguir agradar a ninguém – até os ativistas de Hong Kong ficaram desiludidos. A televisão estatal chinesa, controlada pelo Partido Comunista, afirmou não acreditar que “comentários que desafiem a soberania e a estabilidade social” estejam “no âmbito da liberdade de expressão”.

“A maior lição que pode ser tirada deste assunto é que as entidades que valorizam os interesses comerciais devem fazer com que os seus membros falem com cautela”, afirmou o Global Times, jornal conhecido por reproduzir as visões do Partido Comunista, num tom mais desafiador. A censura ao tweet de Morey subiu de patamar e até o Governo chinês sentiu necessidade de se pronunciar sobre o assunto. “Sugiro que a NBA preste atenção à reação do povo chinês”, afirmou Geng Shuang, porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros chinês.

História Comum O South Park, desenhos animados americanos, produziu um episódio em que uma personagem viajava para a China que foi, por sua vez, também censurado por Pequim. Carregado de escárnio, o programa pediu desculpa ao regime, comparando o seu líder, Xi Jinping, a Winnie the Pooh – desenhos animados censurados por Pequim. “Tal como a NBA, saudamos os censores chineses nos nossos lares e corações. Nós também amamos mais o dinheiro do que a liberdade e a democracia”, publicou no Twitter, na terça-feira.

A Tencent, multinacional chinesa que oferece serviços streaming dos encontros da NBA exclusivamente na China, suspendeu a exibição dos jogos da pré-temporada – uma decisão considerável, tendo em vista que cerca de 500 milhões de fãs chineses vibraram com os jogos da Liga norte-americana na sua plataforma, na última temporada. E não foi a única empresa chinesa a repensar a sua ligação com a NBA: a produtora de smartphones Vivo e a ANTA, que oferece produtos desportivos, também se distanciaram e suspenderam a sua parceria com a Liga. Aliás, Yao Ming, antiga estrela chinesa dos Houston Rockets que preside à Associação Chinesa de Basquetebol, também o fez.

Não é só a NBA que se ajoelha sob o poderio de Pequim. Hollywood censura cenas que possam implicar uma crítica à China, como já o fizeram com Martin Scorcese. Há quem diga que Mark Zuckerberg, dono do Facebook, pediu a Xi Jinping para este dar o nome à sua filha. E a retalhista norte-americana Tiffany & Co apagou na segunda-feira um anúncio do Twitter de uma modelo a cobrir o seu olho direito, por parecer que poderia estar a apoiar os protestos em Hong Kong.

“É uma história comum nos EUA, uma democracia capitalista (capitalista primeiro, democracia em segundo)”, defendeu o colunista do Guardian, Bhaskar Sunkara, falando do caso da NBA. “Os capitalistas só enfrentam autoritários quando estes estão a nacionalizar as suas indústrias de petróleo”.

 

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