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A geração que dá que falar

A geração que dá que falar

Marta F. Reis 09/10/2019 18:08

Greta Thunberg está debaixo dos holofotes internacionais. Tem 16 anos, a idade com que a jovem paquistanesa Malala Yousafzai discursou na ONU, em 2013. Do ativismo à cultura ou ao desporto, há jovens a brilhar nas diferentes áreas e a mostrar que talento e influência não se medem aos palmos. O que há de diferente nesta geração? 

Têm feito correr tinta, mobilizam comentários dentro e fora das redes sociais, ganham o espaço de “gente grande” sem o quererem ser, demarcando-se até disso. As pesquisas por Greta Thunberg dispararam depois do discurso nas Nações Unidas, a greve climática da semana passada teve eventos em todos os continentes e a jovem soma 2,5 milhões de seguidores no Facebook, com quem desabafou depois das críticas à sua intervenção em Nova Iorque.

“Sinceramente não entendo porque é que os adultos escolhem passar o tempo a gozar e a ameaçar adolescentes por promoverem a ciência, quando poderiam fazer algo de bom. Acho que simplesmente devem sentir-se ameaçados por nós”, escreveu numa publicação com 300 mil reações. 

Billie Eilish tem mais de 4 milhões de seguidores, leva os fãs à histeria e saiu em defesa da ativista ambiental. Com 17 anos, é um ano mais velha que Thunberg. “É o ícone pop que define a angústia dos adolescentes no séc. xxi”, escreveu o Guardian em março. 

A jovem ativista paquistanesa Malala Yousafzai fez 16 anos no dia em que discursou na ONU, em 2013, depois do atentado de que foi vítima em outubro de 2012, no Paquistão. No ano seguinte tornou-se a pessoa mais jovem de sempre a ganhar um Nobel, distinguida “pela luta contra a supressão dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”.

Nas próximas páginas traçamos o perfil de jovens que nos últimos anos se têm destacado e mostrado que talento e influência não têm idade. 

Corey Seemiller, investigadora da Wright State University, no Ohio, e autora de três livros sobre a chamada geração Z – onde entram estes protagonistas, nascidos entre a segunda metade da década de 90 e a primeira década do milénio –, vê pontos em comum que se estendem para lá dos rostos que acabam por se tornar mais conhecidos. 

“Embora todas as gerações tenham tido exemplos de crianças incríveis que fizeram coisas extraordinárias, há algo de notável nesta. Talvez devido à capacidade de se conectarem e mobilizarem amplamente nos média sociais ou à cultura que permite que pessoas comuns sejam influenciadores globais, estamos a testemunhar movimentos sociais liderados por jovens, invenções desenvolvidas por jovens e esforços de mudança social liderados por jovens”, diz ao i. “Pode ser um momento da história em que acabaremos por olhar para trás para perceber melhor o impacto que os jovens podem ter e têm na cultura e na política”. 

Uma coisa parece clara, continua Seemiller:“Se é verdade que pessoas de várias gerações têm acesso às oportunidades crescentes dos média sociais, são as gerações mais jovens que estão a aproveitar estas plataformas para partilhar ideias e chamar outras pessoas para a ação”.

Geração de causas Uma análise da consultora McKinsey, publicada em 2018 e que teve por base um estudo feito no Brasil com jovens desta geração, os primeiros nativos digitais, concluiu que parecem mais centrados em causas, mais pragmáticos, mais dialogantes e mais inclusivos. E também menos confortáveis com rótulos, com identidades menos definidas, onde entram também as questões sexuais – 20% dos inquiridos não se consideram exclusivamente heterossexuais, contra uma percentagem de 10% nas gerações anteriores.

As implicações em termos de consumo são um dos aspetos assinalados: pensam em acesso e não em posse, em consumo como expressão da identidade individual e como questão ética, diz a publicação. “Os baby boomers, nascidos entre 1940 e 1959, estavam imersos no contexto pós-ii Guerra Mundial e são melhor representados pelo consumo como uma expressão da ideologia. A geração X (nascida entre 1960 e 1979) consumiu status, enquanto a geração Y (nascida entre 1980-1994) consumiu experiências. Para a geração Z, o principal estímulo ao consumo é a busca da verdade, tanto pessoal como comunitária”, refere o artigo. 

Também a própria visão da sociedade parece alterar-se: “Não distinguem entre os amigos que fazem online e os amigos no mundo físico. Fluem de forma contínua entre comunidades para promover as suas causas, explorando o alto nível de mobilização que a tecnologia torna possível. Valorizam as comunidades online porque permitem a pessoas de diferentes contextos económicos ligarem-se e mobilizarem-se em torno de causas e interesses”.

Corey Seemiller diz que é preciso esperar para perceber que impacto terão na política. Em relação às empresas, a autora norte-americana salienta que elas dão cada vez mais atenção a estes sinais de mudança. “É uma geração que quer fazer negócios com empresas cujas ações estejam alinhadas com os seus valores em torno do meio ambiente, direitos humanos e outras questões sociais. E não tomam apenas decisões sobre os seus gastos com base nos valores das empresas, também estão a entrar no mercado de trabalho a tentar perceber como os seus valores se alinham com o emprego”.

Jaime Casap, consultor na Google (“evangelista de educação” é o cargo), coloca-a nestes termos: “Viram os pais acreditar que tudo o que é preciso fazer é trabalhar muito, manter a cabeça baixa, entrar cedo e sair tarde, e assim é possível avançar e subir nas empresas”, disse ao site Quartz. “Viram os pais fazerem isto e perderem os empregos”. 

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