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Varda como só ela

Varda como só ela

Cláudia Sobral 09/10/2019 16:03

Godard, Demy, Truffaut, Rohmer, Chabrol, Rivette. Entre os nomes que a partir da década de 1950 fizeram nascer, em França, uma nova forma de cinema, esteve sempre uma irrepetível mulher. Agnès Varda morreu em março, aos 90 anos, mas antes disso foi ainda capaz de deixar uma última obra: Varda por Agnès. Um filme em que percorre o seu cinema, que chega amanhã às salas.

No início, uma sala de teatro que se enche. De costas, sentada diante da plateia, uma dessas figuras que deixaram de precisar de mostrar o rosto para que as reconhecêssemos. Agnès Varda. “Obrigada por me acolherem. Ver esta sala de teatro maravilhosa transformada em cinema impressiona-me um bocado. Calhando, até há ‘crianças no paraíso’ lá em cima. Alguns dos meus filmes são conhecidos, às vezes muito conhecidos, outros não. Gostava de vos dizer o que me levou a fazer este trabalho durante tantos anos. Três palavras que são importantes para mim: inspiração, criação, partilha”.

As palavras de onde vêm “o porquê, a razão pela qual fazemos filmes, os motivos, as ideias, as circunstâncias, o acaso que põe em marcha o desejo e o trabalho de um filme”;“o como: com que meios, com que estrutura, sozinhos ou não, a cores ou não”, porque “a criação é um trabalho”; e a consciência de que “não fazemos filmes para os vermos sozinhos, fazemos filmes para os mostrar”. Por exemplo, a esta plateia, “exemplo acabado dessa partilha”. 

Lugares preenchidos, Agnès Varda encara agora a câmara, como quem encara esta plateia, que é real. “Gosto de ir buscar elementos documentais, até na ficção”, dirá adiante, debruçando-se sobre a segunda e uma das mais aclamadas das suas longas-metragens, Cléo de 5 à 7 (1962). Sempre olhando-nos, a nós, plateia em cada uma das salas em que se for assistir a esta cena, da mesma maneira como, pelas quase duas horas seguintes, se olhará a si própria e à sua obra, numa viagem pelo seu cinema e por aquelas três palavras, que foram também o ponto de partida para este filme que título não poderia ter outro: Varda por Agnès.

Foi a obra final perfeita para uma realizadora que, aos 27, iniciou uma carreira que se estendeu por mais de seis décadas, e que estendeu até ao fim – neste último projeto, como já em Olhares Lugares (2017), na companhia do fotógrafo JR, na companhia de Rosalie Varda, sua filha com Jacques Demy, como produtora. EVarda não viveria o suficiente para poder completá-lo apenas. Se agora é Rosalie Varda quem dá continuação à partilha do legado de uma das mais influentes cineastas para o Nova Vaga do cinema francês (apesar de ter nascido em Bruxelas) que é este filme, foi Agnès Varda quem o estreou, numa sessão especial no último Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro deste ano. “Os meus filmes nunca deram dinheiro, nem nunca fizeram os produtores ganhar dinheiro, mas sempre encontraram resposta por todo o mundo. Tenho muito orgulho em encontrar, no norte do Brasil, na Coreia, pessoas que conhecem os meus filmes. Em qualquer parte há sempre um grupo de pessoas – não muitas, mas um grupo – que conhecem os meus filmes e que me fazem acreditar que vale a pena”, dizia na conferência de imprensa em que fez questão de estar presente. Foi uma das últimas vezes que o mundo pôde vê-la. Morreria no mês seguinte, aos 90 anos.
Ficou a sua obra, esses mais de 60 anos ao longo dos quais se estendeu uma das mais relevantes filmografias do cinema europeu, e ficou o privilégio que é poder assistir a este filme, com Varda, por si própria, que chega amanhã às salas portuguesas.

Partilha é de facto uma das palavras-chave para entendermos a sua obra. “Propus-lhe fazer este projeto em 2015 porque me pareceu importante esta transmissão e pelo facto de ela falar muito bem sobre os seus próprios filmes. Deu muitas masterclasses, pelo mundo inteiro, sobre cinema, sobre o seu cinema, e pareceu-me interessante a ideia de fazer qualquer coisa que nos permitisse compreender melhor como é que ela escrevia um filme, como é que o punha em cena, a importância da montagem. E sobretudo sobre o facto de ela procurar um modo de narração diferente para cada projeto”, explicou ao i a sua filha, Rosalie, que visitou Lisboa para apresentar uma sessão de antestreia, integrada na Festa do Cinema Francês. “É importante transmiti-lo. Para os jovens que têm agora 30 anos, por exemplo, talvez o primeiro filme que viram da Agnès tenha sido o Les glaneurs et la glaneuse [2000], que tratava um tema muito atual. E foi a partir desse filme que foram dar a outros”.

A partir de Varda por Agnès iremos dar não a todos, mas àqueles que mais marcaram a sua obra. Da sua primeira curta para logo passar para Cléo de 5 à 7. “O mais conhecido dos meus filmes”, dirá. “Já algum de vocês o viu?” Levantam-se uns braços, poucos. “Nada mau.” Em português, esse filme ficou como Duas Horas na Vida de Uma Mulher. Um título tão literal quanto o original. Varda explica porquê, ao contar como a história nasceu: “De duas impressões muito fortes. Naquela época, os anos 1960, havia, como em todas as épocas, medos coletivos. O mais comum era o cancro. As pessoas tinham medo do cancro. Por outro lado, o produtor tinha-me dito ‘faço um filme consigo como fiz com o [Jean-Luc] Godard e com o [Jacques] Demy, tem de ser um filme barato’. Como é que ia fazer um filme barato? Pensei no assunto e decidi que faria um filme em Paris, sem despesas de viagens nem de hotéis, e depois decidi que a ação poderia ter lugar num só dia, para poupar nos cenários, e foi então que me ocorreu a ideia de o circunscrever ainda mais no tempo: vou filmar uma hora e meia da vida dela, 90 minutos, a duração de um filme”. 

Encontrá-la-emos, de seguida, a explicá-lo, numa entrevista de arquivo em que fala daquilo em que, pelas restrições, o filme se tornou também –um filme sobre o tempo: “Falar do tempo é difícil. Há o tempo que sentimos consoante estamos bem, mal, receosos, à espera de alguém ou a divertirmo-nos. Chamo a isso tempo subjetivo. Depois, há o tempo objetivo. O tempo que não podemos contestar, o tempo mecânico, contado em horas, minutos, às vezes segundos. Quis justamente combinar os dois: o objetivo, dos relógios, e o subjetivo, como Cléo o sente ao longo do filme”.

Dizia Varda na sua introdução que se guia, que se guiou sempre no seu cinema, por três palavras e “porque é preciso sabermos porque é que nos dedicamos a este ofício”. A resposta virá na forma como o explica, ao longo de Varda por Agnès. Como olha, depois de Cléo, para os seus filmes, dos mais pequenos e mais próximos – “filmo perto de mim, filmo o que conheço” – como Daguerréotypes (1976), filmado na sua rua, ou a curta documental que dedicou aos Black Panthers, em 1968, aos seus maiores sucessos, como Le Bonheur (1965), Sans Toit Ni Loi, Leão de Ouro em Veneza em 1985, ou ainda Lions, Love (... And Lies), resultado da sua experiência em Hollywood, para onde acompanhou no final da década de 1960 Jacques Demy. A disposição será a mesma perante esses e perante o fracasso, reconhecido em casos como Les cent et une nuits, com Robert De Niro, de 1995. Até Olhares Lugares, com JR, o seu penúltimo filme, quando tinha já dificuldades de visão, Agnès Varda percorre-se até ao fim. Até esta imagem de uma cineasta, de costas, sentada, quando já não precisamos de lhe ver o rosto.

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