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Um país à esquerda. Do pós-‘geringonça’ ao adeus de Cristas

Um país à esquerda. Do pós-‘geringonça’ ao adeus de Cristas

AFP Jornal i 07/10/2019 08:19

Nem sempre quem é o mais votado sai vencedor, como ficou provado nas legislativas de 2015. Mas, desta vez, o PS ganhou e António Costa tem tudo para formar Governo, mesmo que, agora, sem ‘geringonça’.

No rescaldo desta, foi o PCP quem pagou a fatura. À direita, a derrota  mais estrondosa foi do CDS, que volta a ser o ‘partido do táxi’ e deixa de ter Assunção Cristas na condução dos seus destinos.

VENCEDORES

António Costa

Ainda que sem maioria absoluta, o líder do PS foi o grande vencedor das legislativas, pela primeira vez. Sobretudo porque, tal como tinha pedido ao eleitorado, não ficou refém do BE e de Catarina Martins para garantir  uma maioria parlamentar que viabilize o seu Governo, como, em Espanha, Pedro Sanchez e o PSOE ficaram reféns do Podemos de Pablo Iglesias, criando um bloqueio insuperável. Com mais deputados do que a direita junta, o PS pode até governar ‘à vista’. Ou seja, para Costa, melhor resultado só mesmo a maioria absoluta – o que, para o PS, continua a ser um feito só alcançado por José Sócrates.

Catarina Martins

O Bloco de Esquerda consolidou-se como terceira força política nacional. Mas o que o BE reclamou como uma vitória estrondosa nestas eleições não se traduz num crescimento da sua representação parlamentar (tinha 19 mandatos) e muito menos chegou para que Catarina Martins e as suas camaradas e os seus camaradas pudessem acalentar a esperança de chegar ao Governo e negociar o programa do Executivo para a legislatura. Ou seja, no final das contas, o BE pode ter menos capacidade para influenciar o que quer que seja do que o fez nos últimos quatro anos na ‘gerinçonça’.

André Silva

Após quatro anos como deputado único do PAN, André Silva vai passar a ter um grupo parlamentar, como estabeleceu como objectivo para estas eleições. É certo que, para isso, bastava-lhe ser eleito e ter mais um dos seus pares de partido nas mesmas condições. Mas foi bem mais além e colocou-se no mesmo patamar do CDS-PP na hora da despedida de Assunção Cristas. Desta vez, os animais não tiveram direito a entrar no quartel general do PAN na noite eleitoral, que nem por isso deixou de estar lotado na hora das celebrações – está a crescer o partido de André Silva.

Guimarães Pinto e André Ventura

Imaginativa e dinâmica, a campanha da Iniciativa Liberal marcou a diferença em relação a todas as outras e conseguiu passar a mensagem e ultrapassar a falta de carisma e até de notoriedade de Carlos Guimarães Pinto, que apostou e bem numa linguagem de serenidade e no esforço para ultrapassar as suas dificuldades de comunicação para conquistar empatia com o eleitorado.

Além da Iniciativa Liberal, também o Chega apostou na diferença e soube conduzir a campanha de forma a explorar a notoriedade de que goza o comentador televisivo e ferrenho benfiquista André Ventura.

 

VENCIDOS

Assunção Cristas

A líder do CDS não perdeu tempo: mal foram anunciadas as projeções de resultados das legislativas de ontem – todas antecipando uma hecatombe do partido – anunciou a convocação de eleições internas no partido e a sua não recandidatura. Estava escrito que o seu tempo na liderança do CDS tinha chegado ao fim. Se suceder a Paulo Portas não seria nunca tarefa fácil, a verdade é que Assunção Cristas teve uma liderança de quatro anos com resultados díspares, beneficiando, por exemplo, de um sucesso estrondoso (e enganador) nas eleições autárquicas em Lisboa. Esse foi o seu canto de cisne.

Jerónimo de Sousa

O PCP ficou com a fava da ‘geringonça’. Se o PS ganhou as eleições e o BE consolidou a sua posição como terceira força política nacional, o PCP sofreu uma pesada derrota e uma penalização enorme na sua bancada parlamentar, agora reduzida a uma dúzia de mandatos. Não é de estranhar, por isso, que Jerónimo de Sousa, no rescaldo das eleições, tenha imediatamente recusado a hipótese de uma reedição da ‘geringonça’ ou a possibilidade de o PCP assinar de cruz o programa de Governo do PS para os próximos quatro anos. O PS tem de começar a preparar-se para o regresso do PCP – e da CGTP-In ­ – às lutas sindicais e de rua.

Santana Lopes

Se a não eleição de Paulo Sande para o Parlamento Europeu já fora um revés para o Aliança, a não eleição de Pedro Santana Lopes para a Assembleia da República é uma machadada maior para as ambições do antigo líder do PSD_e ex-primeiro-ministro. Santana Lopes é um político corajoso e persistente, mas ficar atrás sobretudo da Iniciativa Liberal e do Chega deixa-o numa posição muito pouco confortável e com muita pouca esperança para o futuro do partido. Sobretudo porque vai continuar a não ter a visibilidade que sempre favorece os partidos com assento parlamentar – e os outros têm.

Marinho e Pinto

Depois do desaire nas eleições Europeias de Maio (perdeu os dois mandatos que tinha no Parlamento Europeu), sofre agora uma nova derrota, que provavelmente o levará a dar por determinada a sua carreira política. Não conseguiu ter qualquer expressão na eleição para o Parlamento, nem tão pouco teve sucesso no oportunista convite ao seu colega advogado do sindicato dos motoristas de matérias perigosas, Pedro Pardal Henriques. O cabeça-de-lista do PDR por Lisboa nunca teve a ilusão de poder ser eleito. Vai, com certeza, manter-se muito mais ativo nas lutas sindicais.

 

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