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Maçonaria. Irmãos desavindos prometem luta até ao fim

Maçonaria. Irmãos desavindos prometem luta até ao fim

Miguel Silva Vítor Rainho 03/10/2019 18:19

Grande Oriente Lusitano “expulsa” Grande Loja Simbólica. Grande Oriente de França no meio da discórdia.

Se a Maçonaria ainda prima pelo secretismo, já as zangas entre irmãos são bem públicas. Ritos, ordens, grandes capítulos e cartas patentes fazem parte da ementa da discórdia. É uma mistura explosiva e se para os profanos, aqueles que não vestem avental, tudo não passa de uma imensa intrigalhada indecifrável, para os maçons é mesmo uma questão de honra que promete fazer estragos. Anunciam-se cisões, há ameaças veladas e a única certeza maçónica é que os irmãos não se entendem nem com a ajuda dos “brothers” internacionais.

Mas vamos aos factos. O Grande Oriente Lusitano (GOL), a loja com mais membros, não reconhece legitimidade à Grande Loja Simbólica de Portugal (GLSP) e Fernando Lima, na sua mensagem como sapientíssimo grão-mestre à Grande Dieta, foi direto ao assunto. “Que fique desde já claro, e porque muito se fala dessa situação, o Grande Oriente Lusitano considera perante si irregular a Grande Loja Simbólica de Portugal, na medida em que esta viola princípios constitucionais e jurisdicionais vigentes, quer em termos territoriais, quer em matéria ritual, por trabalhar em ritos para os quais o Grande Oriente Lusitano tem jurisdição anterior atribuída por Tratado ou Carta Patente mais antiga. Deste modo, as nossas portas não se lhes poderão franquear seja em que circunstância for”.

Para os leigos explique-se que falamos numa espécie de autorização superior de uma entidade internacional que autentifica uma loja a poder seguir os seus ritos. E aqui surge um dos problemas. É que a Grande Loja Simbólica de Portugal também tem a carta patente do Grande Oriente de França, à semelhança do GOL, que reivindica a antiguidade como um posto. Para complicar ainda mais as contas, o antigo grão mestre da Loja Simbólica foi reeleito para a direção da Aliança Maçónica Europeia, lugar onde também está Fernando Lima, grão mestre do GOL.

Desencontros de irmãos e vaidades pessoais “A criação de novas Lojas não pode ser a solução para a desavença, para a falta de conciliação entre Irmãos e para o exercício de vaidades pessoais”, lembrava Lima na mensagem do sapientíssimo grão-mestre à Grande Dieta.

O GOL não ficou sem resposta: “A regularidade da Grande Loja Simbólica de Portugal é legitimada pelas Cartas Patente do Grande Oriente de França, para a prática do rito Escocês Antigo e Aceite, Rito Emulação e Rito Antigo Memphis Misraim. A regularidade da Grande Loja Simbólica de Portugal espelha-se ainda no seu carácter democrático, através da alternância democrática interna, com a limitação de dois mandatos consecutivos de três anos cada, para a função de Grão Mestre, bem como, na separação inequívoca entre Maçonaria Simbólica, e as jurisdições de Altos Graus ou maçonaria Filosófica”.

Recorde-se que a Grande Loja Simbólica de Portugal, segundo os próprios, “é uma obediência Maçónica Portuguesa, que nasceu no palácio maçónico, em Lisboa, na presença de todas as obediências maçónicas portuguesas, em 2011”.

Guerras à parte, seja de poder ou de influência, o grão mestre do GOL na sua mensagem não deixou de falar no papel dos irmãos, acabando por os recriminar “pela falta de interesse no apoio à catástrofe provocada pelo furacão Idai em Moçambique, que alguns se apressaram a exigir, ao mesmo tempo que se esqueciam de contribuir, como é dever de todos”. Antes deste raspanete, Fernando Lima falou sobre o papel do GOL em diferentes atividades, salientando o papel da Loja no “apoio à reconstrução de uma escola em Moçambique – obra que perpetuará a solidariedade dos Maçons portugueses por terras de África”.

O rito da discórdia e ameaças de fuga Mas a convivência entre os diferentes “clubes” maçónicos é tudo menos pacífica. A Grande Loja Regular de Portugal nem quer ouvir falar de outras lojas que acolhem mulheres, não quer ver ateus por perto e segue outro caminho. Já no GOL a história é fascinante para um profano, pois os seguidores do Grande Capítulo Rosa Cruz não se entendem com o Grande Capítulo Geral de Portugal, que tem em Vasco Lourenço a figura principal. Em causa está o rito francês, quem detém a sua legitimidade, e a qual das organizações cabe decidir acerca da atribuição dos altos graus – para simplificar, os chefes. O GOL acusa a Loja Simbólica de se aproveitar desta divisão para tentar recrutar altos membros dos capítulos desavindos. Algo que Pedro Rangel, antigo grão mestre da Loja Simbólica, desmente: “Fomos convidados pelo Adelino Maltez para tentar fazer as pazes entre as duas partes, mas não o conseguimos. Só isso”. E assim vai o reino maçónico.

 

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