21/10/19
 
 
Carlos Zorrinho 02/10/2019
Carlos Zorrinho
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A imaginação ao poder

Em Paris, nos idos de maio de 68, os jovens em revolta exigiam a imaginação no poder. A ideia parece-me novamente poderosa, mobilizadora e necessária.

Um pouco por todo o mundo democrático, depois de décadas em que a fraca apetência dos jovens pela participação política foi sendo progressivamente reconhecida como uma das mais preocupantes fragilidades dos regimes de livre participação cívica e política, os temas do ambiente e da sustentabilidade têm vindo a recuperar para a rua e para a cidadania ativa uma parte significativa da nova geração.

Estamos a assistir a uma espécie de Maio de 68 em outubro, com toda a simbologia associada à mudança das estações e também à globalização física de protestos, antes concentrados na mítica Cidade Luz.

A consciencialização progressiva dos cidadãos, e em particular dos jovens, de que estamos perante uma emergência climática leva a que as respostas de mitigação através de pequenos passos saibam cada vez mais a pouco e a que muitos protagonistas, instrumentalizados ou não, apelem a uma revolução no modo de estar e de viver e a uma alteração do paradigma de organização social que prevaleceu nas últimas décadas, de aceleração científica e tecnológica.

A humanidade acumulou um enorme acervo de conhecimento e de tecnologia com consequências na forma como se organiza, produz e multiplica. Os indicadores mostram que o progresso científico e tecnológico permitiu melhorar os padrões médios de vida no planeta, mas falhou em dois domínios chave; a redução das desigualdades e a preservação da biodiversidade e da sustentabilidade do planeta.

Aquilo que os jovens de todo o mundo democrático exigem nas ruas e praças já não é apenas uma melhoria de processos e métodos, incorporando os novos saberes e as novas técnicas. Querem um mundo novo. Exigem uma resposta inteligente, no espírito de Einstein, que nos lembrou que a inteligência se revela primeiro na imaginação que no conhecimento.

Em Paris, nos idos de maio de 68, os jovens em revolta exigiam a imaginação no poder. Sendo a revolta verde mais global e multicultural, torna-se mais difícil extrair do ruído e do mal-estar um slogan agregador. Contudo, a ideia de que temos de levar de novo a imaginação ao poder parece-me poderosa, mobilizadora e necessária.

Não podemos, no que diz respeito ao combate às alterações climáticas, continuar a fazer mais do mesmo, ainda que de forma mais eficaz e eficiente. É necessário repensar a forma como vivemos, como nos realizamos, como somos felizes e como somos dignos perante a sociedade e perante nós mesmos.

A cimeira climática convocada por António Guterres e pela ONU deixou claras as fraturas entre o negacionismo de alguns, a boa vontade de outros e o tom acusatório dos mais radicais, de que Greta Thunberg foi talvez o melhor exemplo. Foi mais uma cimeira em que se partilharam mais acusações do que soluções, mais estados de alma do que sonhos, mais descrições do presente e das suas projeções quantitativas do que imaginação mobilizadora e transformadora.

Se queremos salvar o planeta precisamos de colocar a imaginação no poder, de forma aberta e participada e com coragem para mudar o que tiver de ser mudado. Portugal, com o seu ambicioso roteiro para a descarbonização, é disso um exemplo a seguir. Todos os outros caminhos são atalhos para a mesma catástrofe, capazes de alterar o relógio, mas não o destino.

 

Eurodeputado

 

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