24/10/19
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 02/10/2019
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

Tancos é um lamentável caso de regime

A imagem que dá de Portugal ao mundo é lamentável e imerecida. Entretanto, estamos na reta final da campanha eleitoral e é fundamental que haja a maior participação democrática possível para que não sejam outros a decidir por nós.

1. As peripécias trágico-cómicas que envolvem o caso de Tancos podem fazer rir mas, olhando bem, elas são reveladoras de uma situação que ilustra que o regime no seu todo tem um problema grave, começando na organização militar, nos encobrimentos quanto ao roubo e achamento e em toda a sucessão de factos envolvendo a investigação, onde houve de tudo entre fugas de informação e guerras de bastidores, não faltando uma gravíssima tentativa de envolver o Presidente da República. Nada do que aconteceu é tolerável e dignifica o país. Portugal, que teve sempre umas prestigiadas Forças Armadas, caiu no ridículo, sendo, obviamente, alvo de gracejos e chacota no estrangeiro por causa deste enredo. Imagine-se o que dirão do caso as descrições dos diplomatas que estão cá sediados nos relatórios que regularmente mandam para os seus países. Por mais voltas que se dê ao texto, é forçoso reconhecer que há neste processo todo um sinal claro do habitual laxismo nacional, que está patente em muitos setores. Portugal tem um Estado tão grande como incompetente. Tancos não é mais do que a demonstração viva dessa evidência que está em todo o lado, começando na falta de ética de alguns dos seus responsáveis, sejam eles civis, políticos, militares, polícias ou magistrados. O que hoje se sabe do comportamento de Azeredo Lopes no caso de Tancos põe às claras a sua clara falta de sentido de Estado para uma função tão importante como ministro da Defesa, coisa que era previsível. De facto, Azeredo foi o presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) durante seis anos, precisamente aqueles em que Sócrates foi primeiro-ministro e em que mais ataques foram feitos à independência dos média. Um deles foi à TVI, que esteve quase para ser comprada por gente amiga do Governo socialista da época, numa tentativa de silenciar a estação de Queluz.

2. Os portugueses decidem no fim de semana que vem o futuro político do país. As eleições legislativas são um momento relevantíssimo nos países democráticos. É fundamental que cada um reflita sobre o que entende ser melhor para si próprio e para o país. E é por isso fundamental que todos os que têm o privilégio de poder votar o façam, de modo a não deixar que sejam outros a decidir por eles. Analistas e jornalistas têm produzido imensas teses e multiplicam-se as sondagens e estudos de opinião, mas o fundamental é o que as urnas revelarem no domingo. Nesta altura parece afastada a hipótese de uma maioria absoluta do PS, mas a última semana será decisiva quanto a isso. Parece também adquirido que não haverá uma repetição formal da geringonça por ausência do PCP/CDU, que se cansou da solução governativa. Quando muito, os comunistas poderão fazer acordos pontuais duramente negociados. O Bloco, esse está doido para poder ser parte de uma solução à esquerda, o mesmo acontecendo ao PAN. Ao centro-direita, Rui Rio tem recuperado posições e ganhado espaço através de um discurso que é direto e franco, o que é uma raridade. Rio mostra que é bom em campanha, terreno em que Costa é reconhecidamente fraco. Uma das questões fulcrais destas eleições tem a ver com o resultado somado do PSD e do CDS em termos de mandatos de deputados. Um cenário em que os dois partidos, juntos, consigam mais deputados do que o PS sozinho permitiria à direita parlamentar dispor de uma força-travão politicamente relevante, reforçando o protagonismo do Presidente Marcelo. Mas se tiverem menos assentos do que só o PS, mesmo sem maioria absoluta, tal tornaria as coisas mais complicadas e daria a António Costa uma margem de manobra ainda vasta. A partir de domingo, logo se verá o que os portugueses ditarem nas urnas.

3. Arrasador: é esse o termo mais adequado à denúncia jornalística que Ana Leal fez na TVI da situação que se vive na Cruz Vermelha, onde pontifica Francisco George, nomeado presidente da instituição por António Costa. Além de abusar de mordomias, o ex-diretor-geral da Saúde tem substituído pessoas de um dia para outro e não concretiza obras fundamentais, como as que estavam planeadas para uma unidade em Évora, onde a instituição tem instalações que não têm condições mínimas para acolher pessoas de idade. As revelações são graves e já deveriam ter justificado uma posição do Governo e a abertura de uma investigação judiciária.

 

Escreve à quarta-feira

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×