21/10/19
 
 
Marta F. Reis 02/10/2019
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Alguém falou de envelhecimento?

O que tem sido feito para tornar a sociedade mais inclusiva e segura para os mais velhos? Pouco. 

Assinalou-se o Dia Internacional do Idoso. Em vésperas de mais um ciclo político, o envelhecimento continua a entrar apenas ao de leve na campanha política, quando será – é – dos principais desafios do país a médio prazo. Somos já dos mais envelhecidos da União Europeia e do mundo, com mais de um quinto da população acima dos 65 anos. No início dos anos 90 tínhamos um rácio de 65 idosos por cada 100 jovens; hoje, são 157. Segundo as projeções do Instituto Nacional de Estatística, no final da próxima década terão passado os 200.

O que tem sido feito para tornar a sociedade mais inclusiva e segura para os mais velhos? Pouco. A preocupação devia estar patente nas coisas mais simples, como os passatempos com linhas de valor acrescentado e anúncios que se repetem dia fora, nas televisões, a promover cápsulas e aparelhos auditivos, sem aparente controlo.

Continua no isolamento, na falta de acesso a centros de dia, lares e cuidados continuados, aos quais muitas vezes as famílias – as que podem –, confrontadas com as limitações dos seus e com a sua incapacidade para cuidarem deles, acabam por ter de procurar alternativa, muitas vezes numa corrida contra o tempo, cheia de dúvidas sobre se se estará a fazer o melhor e o suficiente. E garantir o mínimo de conforto e condições de recuperação, para quem tem a possibilidade de o pagar, pode representar milhares de euros ao final do mês.

Os cuidadores informais, esses, que cuidam de parentes com demência, acamados, com toda a pressão física e psicológica que isso representa, passaram a ter um estatuto mas continuam pouco apoiados, sendo a retaguarda invisível de uma proteção social que não chega a todos. E cujo trabalho não remunerado, e que alivia o Estado, está longe de ser quantificado. São precisas mais equipas comunitárias, mais informação sobre os apoios disponíveis, mais integração entre saúde e segurança social. E também perceber que o trabalho de assistência aos velhos com mais limitações, nomeadamente o dos muitos que fazem domicílios, é exigente e tem de ser bem remunerado, para que se promova a qualidade e a humanização, e não o chapa cinco.

A APAV aproveitou a data para chamar a atenção para o flagelo da violência contra os mais velhos. No ano passado recebeu 18 queixas por semana, entre maus-tratos físicos e psicológicos, abuso de confiança, burla. Uma realidade silenciosa, que às vezes temos ao nosso lado sem darmos por isso.

Dezenas de universidades seniores e outras associações fazem um trabalho meritório de aproveitamento de competências de quem ensina e de valorização da própria autoestima de quem continua a querer aprender, mas é preciso mais, combater o abandono do interior, que leva serviços e vida, apostar na transmissão de conhecimento entre gerações. Passar o envelhecimento saudável e ativo da teoria à prática e pensar a fundo no país que vamos ter nas próximas décadas. Ainda não foi desta.

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