21/10/19
 
 
Alfredo Barroso 30/09/2019
Alfredo Barroso
Cronista

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O mistério do “papagaio-mor do reino”

No meu tempo de Chefe da Casa Civil do Presidente da República Mário Soares (durante 10-anos-10, entre 1986 e 1996), lembro-me de que, tanto eu como os dois generais que se sucederam no cargo de Chefe da Casa Militar, cumpríamos à risca o dever de informar com rigor o Presidente da República (que nesse tempo já era Chefe do Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas), sempre que dispúnhamos de informações importantes e delicadas, fossem civis ou militares.

1. Esta é a penúltima crónica semanal que escrevo graciosamente. É o que faço há vários anos e acho que basta. Já é altura de cuidar um pouco mais de mim, no tempo que ainda me resta. E nada melhor, agora que estou à beira de deixar de escrever graciosamente, do que tentar desvendar um mistério, daqueles que são usualmente comparados aos segredos de Polichinelo. Escrevo, aliás, de chinelos porque, aliviando os pés, a minha cabeça funciona muito melhor.

Era eu chefe da Casa Civil do Presidente da República Mário Soares – cargo que desempenhei durante 10-anos-10 – quando, certo dia, recebo um telefonema de Fulano de Tal, director de um semanário muito em voga (no qual, aliás, cheguei a colaborar escrevendo crónicas sobre a TQT), que me perguntou se eu lhe poderia dizer qual tinha sido o menu de um jantar oferecido pelo Presidente da República a vários juristas para trocar impressões, informalmente, sobre uma futura Revisão Constitucional. Repondi-lhe que sim senhor, podia dizer-lhe, já que os menus não eram “segredos de Estado”, pelo menos naquela época do século XX.

Pedi então à minha secretária Manuela que me trouxesse o menu para eu o ler ao telefone, ipsis verbis, dando-o a conhecer a Fulano de Tal. Assim fiz. E qual não foi o meu espanto ao perceber a indignação do meu interlocutor quando me pergunta se, afinal, não havia vichyssoise no menu?! Disse-lhe que não, que a vichyssoise só era servida, regra geral, nos almoços. E pareceu-me então ouvir, do outro lado do fio, a mesma exclamação do Governador Civil Baltasar Moscoso, refém de um doido, no final da peça de teatro de Raul Brandão O Doido e a Morte: “Ai o grande filho da puta!”… É que Fulano de Tal também me perguntou se o jurista Sicrano de Tal, presente no jantar, teria feito determinadas declarações? Disse-lhe que não – que não tinha ouvido tais declarações – e que Sicrano de Tal até interviera muito pouco durante o jantar (ao qual, aliás, chegara atrasado). A fúria de Fulano de Tal, sentindo-se enganado, era notória e justificada: “Olha se eu tivesse acreditado no que ele me disse! Seria gozado e bem gozado por publicar mentiras na edição de amanhã!”… Três décadas passadas, são várias as versões desta estória mas posso garantir que esta é a única verdadeira – e com duas testemunhas!

2. Eis um post do jornalista Joaquim Vieira no Facebook, em 25 de Setembro:

- «O PAPAGAIO-MOR DO REINO. Excerto da conversa telefónica do major Vasco Brazão com a sua irmã a 5 de abril deste ano: “Vais ver que o papagaio-mor não vai falar sobre Tancos tão cedo. O papagaio […] do Reino não vai falar sobre Tancos tão cedo. Pois, porque eles sabem. Aliás, o Sá Fernandes já fez chegar à Presidência que eu tenho um e-mail que os compromete. Portanto, eles não vão falar sobre Tancos tão cedo.” Bem pode agora vir Ricardo Sá Fernandes garantir que o seu constituinte Vasco Brazão não se referia ao Presidente da República. Esta escuta indicia o contrário».

3. Reproduzo agora o que eu, Alfredo Barroso, tão sensatamente escrevi no Facebook em 25 de Setembro, antes de conhecer o post do Joaquim Vieira:

- QUEM SERÁ O PAPAGAIO-MOR DO REINO? ORA ESSA, EU SEI LÁ!

Sua Excelência o Chefe do Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas veio a relvado (ou a terreiro, se preferirem) afirmar solenemente que “o Presidente da República não é criminoso”! Ora se Marcelo PR diz que não é “criminoso”, pois claro que não pode ser ele o “Papagaio-Mor do Reino”, por muito que ele gostasse que lhe atribuíssem também esse título tão divertido... Mas a verdade é que, se há político neste país que nunca mentiu na vida – mesmo que Deus Nosso Senhor Jesus Cristo descesse à Terra – esse político só poderá ser o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Perceberam, seus malandros?!

Para a Imprensa que temos – quase toda nas mãos de patrões e jornalistas de direita que fogem das Esquerdas como o Conde Drácula fugia dos alhos e das cruzes – se Marcelo PR desmente, pronto, está desmentido; se ele diz que não sabia de nada, pronto, não sabia de nada; se ele diz que não é “criminoso”, pronto, não é criminoso! Mas se for o ministro da Defesa a fazer um desmentido, é claro que outro galo – perdão, outro papagaio – há-de cantar! É óbvio que a Imprensa que temos nunca acreditará nele! Agora, sendo o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a desmentir, eh pá, que ninguém duvide que este homem só diz a verdade desde que nasceu! Lembram-se da vichyssoise? Julgam que ele mentiu ao Paulo Portas? Claro que mentiu mas foi só dessa vez e foi só a brincar e só para tramar o Portas, então director do semanário Independente...

Saberia o anterior Chefe da Casa Militar do Presidente Marcelo da moscambilha para recuperar, en douceur, a quinquilharia roubada em Tancos? Parece que sim! Mas a que propósito iria ele, no desempenho de tão importante cargo, informar desse facto o Comandante Supremo das Forças Armadas, não me dizem?! Aliás, mais ninguém no Palácio de Belém falou a Marcelo PR de tal assunto! Há mesmo quem diga à boca pequena – mas eu não consegui confirmar – ter visto Marcelo PR a deambular pelos corredores do Palácio de Belém, e a tapar os ouvidos com as mãos, sempre que alguém lhe queria falar da moscambilha de Tancos. “Eu não quero saber nada disso”, terá dito ele. “Mas ó Senhor Presidente, Vossa Excelência é o Comandante Supremo das Forças Armadas”... “Porra, e eles a darem-lhe”, terá atalhado Marcelo PR, acrescentando: “Não há ‘mas’ nem meio ‘mas’! Já lhes disse que não quero saber absolutamente nada desse assunto”!

No meu tempo de Chefe da Casa Civil do Presidente da República Mário Soares (durante 10-anos-10, entre 1986 e 1996), lembro-me de que, tanto eu como os dois generais que se sucederam no cargo de Chefe da Casa Militar, cumpríamos à risca o dever de informar com rigor o Presidente da República (que nesse tempo já era Chefe do Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas), sempre que dispúnhamos de informações importantes e delicadas, fossem civis ou militares. Mas pronto, eram outros tempos, em que nunca se ouviu falar de um “Papagaio-Mor do Reino”, nem se ouviu palrar qualquer Papagaio-Mor...

4. Terá ficado, então, esclarecido o mistério do “Papagaio-Mor do Reino”? Claro que não, ai de mim! Quem sou eu para contrariar as belas palavras do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, a elogiar o Presidente Marcelo e a afastá-lo da moscambilha de Tancos?! Será que está em gestação, na mente de Jerónimo de Sousa, a repetição do “fenómeno Eanes” – e que esse “novo Eanes” será Marcelo Rebelo de Sousa – numa nova e desesperada tentativa de “fazer em picadinho” o Partido Socialista?! Eu cá não sou de intrigas, mas parece-me que não será nada difícil conseguir desvendar o mistério do “Papagaio-Mor do Reino”…

 

Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

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