27/9/20
 
 
Memórias Coloniais. Sobre o passado que não passa

Memórias Coloniais. Sobre o passado que não passa

Vera Marmelo Cláudia Sobral 27/09/2019 20:43

Até 5 de outubro, o ciclo Memórias Coloniais desdobra-se, na Culturgest, em Lisboa, entre o teatro, a performance, uma exposição, projeções de filmes, conversas e debates, para repensar a História e as memórias do período colonial.

“Durante muito tempo da minha vida, olhei para esta narrativa com apatia. Foi uma apatia que herdei de um pai e de uma mãe que são frutos de uma época, de um regime onde não se questionava nada. A vida como eles a conheciam estava condicionada desta forma. E não sei se temos distanciamento ainda, talvez a geração seguinte tenha mais capacidade de olhar para este passado com imparcialidade”. Patrícia é uma entre as mais de 100 pessoas que André Amálio vem conhecendo e entrevistando e com quem vem trabalhando ao longo dos últimos sete anos.

Sete anos de investigação sobre o colonialismo português que têm alicerçado o caminho da companhia de teatro Hotel Europa e servido a pesquisa para a sua tese de doutoramento, intitulada Reescrever a História através do teatro documental pós-colonial. Sete anos de investigação que torna, até 29 de setembro, públicos na instalação O Fim do Colonialismo Português, na Culturgest, em Lisboa. E, a 5 de outubro, numa performance com o mesmo título e a duração de 13 horas ininterruptas: André Amálio entre esse mesmo arquivo.

O arquivo em que se inserem também as histórias que serviram o mais recente espetáculo de teatro do Hotel Império – Os Filhos do Colonialismo – estreada ontem e que pode ser vista ainda hoje (21h) e amanhã (19h) no Grande Auditório. Uma peça de teatro documental, que como atores terá não só Patrícia Cuan. Também Celise Manuel, Cláudia Cláudio, Joana Mealha dos Santos, Paulo Estrela Janganga e Soraia Ismael – filhos do colonialismo, todos eles, e nessa condição a fazerem aqui de si próprios.

“Filhos de antigos soldados da guerra colonial, filhos de pessoas que vieram das antigas colónias portuguesas com as independências, filhos de imigrantes africanos em Portugal”, como os enumera Amálio no texto de apresentação do espetáculo que, além de acompanhado da exposição em que se tornará possível o acesso ao resto do arquivo, a Culturgest decidiu alargar a um ciclo de programação que se estende a conferências, conversas e projeções de filmes seguidas de debates, a que chamou Memórias Coloniais, e que termina a 5 de outubro com a performance de André Amálio entre o seu arquivo.

A conferência Políticas da memória seletiva, em que a historiadora marroquina Fatima Harrak propôs uma “reflexão sobre os efeitos da ‘memória seletiva’ no presente político atual”, defendendo uma “‘história cruzada’ dos colonizadores e dos povos colonizados” (com a colaboração dos grupos AFRO-PORT – Afrodescendentes em Portugal, do ISEG, e Discursos Memorialistas e a Construção da História, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), foi apenas o ponto de partida de Memórias Coloniais, como explica ao i Liliana Coutinho, programadora de conferências e debates da Culturgest. “Achamos que está na altura de trazer [para a programação] esta questão. A sociedade civil está também mais disponível para aprofundar todo o debate que é necessário sobre as memórias coloniais e em particular sobre o fim do colonialismo português”.

Dúvidas sobre a pertinência de um ciclo que viesse ajudar a reescrever a História colonial não há, e a confirmação veio logo num ensaio geral de Os Filhos do Colonialismo que a Culturgest decidiu abrir a algumas escolas. “Percebemos realmente que através do teatro [os alunos] tiveram acesso a uma História que ainda é pouco contada nas escolas.”

Uma História que, nas escolas, continua a não ser contada, e uma História que está ainda a ser reescrita. “Está a escrever-se e está também a repensar-se, e é também esse o contexto em que este ciclo é pensado. Há um repensar do que é que é este período tendo em conta as múltiplas perspetivas de que é visto e que podem ser integradas nesta História.” Daí que o ciclo tenha sido inaugurado pela vinda de Harrak de Rabat, onde dá aulas na Universidade Mohammed V, a Lisboa. “Ela defende mesmo esta perspetiva de que a História colonial, para ser contada, deve ser uma História que cruza todas as perspetivas que existem, tanto de quem colonizou como de quem foi colonizado”.

E se juntá-las a todas seria impossível num ciclo, o esforço foi o de ir tão longe quanto possível numa programação construída não só em colaboração com o Hotel Europa e os grupos de investigação AFRO-PORT e Discursos Memorialistas e a Construção da História, mas também como outras instituições, como o alemão Goethe Institut, que ao longo de dois anos está a dedicar-se, num projeto internacional, a um programa centrado nas memórias e na herança colonial no espaço público e nas instituições.

No caso português, o projeto, intitulado Tudo Passa, Exceto o Passado, tem um foco especial nos arquivos cinematográficos. “Em como os arquivos cinematográficos são também testemunho deste momento colonial – e dos movimentos de resistência desse período – e como é que neste momento todos esses arquivos podem ser repensados e organizados”, explica Liliana Coutinho. “Temos um conjunto de especialistas e artistas vindos do Egito, da Nigéria, da Alemanha, de Portugal, de Angola, de muitos contextos, que estão neste momento a trabalhar em conjunto num workshop sobre este tema.”

Mas essa discussão não ficará fechada entre quatro paredes. Hoje, às 18h30, o Pequeno Auditório da Culturgest acolhe uma das três sessões do ciclo de cinema e debate Re-Imaginar o Arquivo Pós-Colonial, com curadoria de Maria do Carmo Piçarra. Sob o título Reflexões/refracções III: Projeções de uma luta que ainda não acabou, a sessão parte de uma projeção de Spell Reel, estreado em 2017 na Berlinale, de Filipa César, à qual se segue uma conversa, moderada por Nuno Lisboa, entre a realizadora e Sana Na N’Hada, realizador guineense e, entre 1979 e 2006, diretor do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Guiné-Bissau, de cujos arquivos partiu o filme de Filipa César.

A 3 de outubro, depois do debate Artes na Europa no tempo da pós-memória, a contar com Dulce Maria Cardoso, Fatima Sissani e Pitcho (18h30), é ainda exibido A Língua de Zahra (21h30), em que a franco-argelina Fatima Sissani retratou a sua mãe que, ao fim de uma vida em Paris, continua a recusar-se a aprender francês, para um filme que, a partir daí, traça também um retrato dos imigrantes argelinos em França, onde “muitas vezes relegados a trabalhos silenciosos e isolados, encontram na língua do país de origem o retorno às suas raízes, memórias e histórias”.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×