24/9/20
 
 
José Cabrita Saraiva 26/09/2019
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

O negócio do regresso às aulas

Devemos também ver as consequências disto para lá da despesa para os pais que a compra do material implica. Numa época em que tanto se fala dos malefícios do plástico, de meio ambiente e de aquecimento global, as crianças começam desde muito pequenas a tornar-se consumidoras vorazes.

Quando comparo a lista do material escolar obrigatório para um aluno do quinto ano com aquilo que era necessário nos meus tempos de estudante não posso deixar de sentir uma pontinha de inveja. Além dos livros, lápis, borracha e cadernos da praxe, os miúdos têm à sua disposição todo um manancial de artigos que fariam as minhas delícias há uns anos (ou há umas décadas...). Ele é esferográficas de quatro cores, ele é marcadores de ponta de feltro, cartolinas, tesouras, afia-lápis com depósito, tubos de cola, lápis de cera e até plasticina. Claro que, além da pontinha de inveja, como pai fico também preocupado com o custo de toda esta parafernália. Até porque o tubo de cola acaba rapidamente, as canetas ficam sem tampa e secam, o depósito do afia do ano passado já se perdeu, o que exige novas aquisições.

E assim se alimenta todo um negócio que seguramente vai prosperando ano após ano e se vai tornando cada vez mais agressivo. Mas devemos também ver as consequências disto para lá da despesa para os pais que a compra do material implica. Numa época em que tanto se fala dos malefícios do plástico, de meio ambiente e de aquecimento global, as crianças começam desde muito pequenas a tornar-se consumidoras vorazes. A profusão de material escolar contribui para se habituarem a comprar e a exigir muito.

Atenção – não creio que tenhamos de ser miserabilistas. É bom que os miúdos não se limitem ao lápis e à sebenta e que possam sentir prazer na escolha e na utilização do seu material escolar. Mas nem oito nem oitenta. O que se verifica hoje é que há um exagero e um apelo ao consumo que não é benéfico para ninguém. Nem para os pais, que têm de gastar rios de dinheiro, nem para as crianças, que acham normal comprar tudo à tripa forra e começam a dar menos valor ao que têm. Pior: adquirem hábitos de consumo que vão repercutir-se ao longo da sua vida adulta e contribuir, cada vez mais, para dar cabo do ambiente.

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