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Mariano Amaro. Sempre encantado por um sorriso de mulher...

Mariano Amaro. Sempre encantado por um sorriso de mulher...

Afonso de Melo 24/09/2019 16:07

Na semana dos 100 anos do Belenenses, recorde-se uma das suas maiores figuras: mais do que um jogador de excelência, do que o capitão de 1946, ano do título, foi uma personagem de Lisboa, boémio (acabou tuberculoso) e politicamente interventivo.

Em tempo de comemorar os 100 anos de “Os Belenenses” (assim mesmo, com aspas e tudo), também é tempo de recordar algumas das suas figuras ímpares e inesquecíveis. Uma delas foi Mariano Amaro. E nada como começar a falar de Mariano Amaro através de um episódio extraordinário da história do futebol em Portugal. Vamos a isso, portanto.

No dia 30 de janeiro de 1938, na receção à Espanha, no momento de as seleções cumprimentarem o público com a habitual saudação fascista, Azevedo, guarda-redes do Sporting, esticou o braço mas manteve os dedos encolhidos; Quaresma, do Belenenses, limitou-se a ficar em sentido e José Simões, também do Belenenses, e Mariano Amaro levantaram os punhos. Os jornais dos dias seguintes procuraram não tocar no assunto, a revista Stadium chegou mesmo a retocar a fotografia das equipas alinhadas de forma a que nada se notasse. Mas nenhum deles escapou às incómodas perguntas da PVDE, polícia política, antecessora da PIDE, tendo José Simões e Mariano Amaro sido mesmo presos para interrogatório. Uma exibição pública de coragem e de convicção que marcava a sua personalidade e uma certa identidade desse Belenenses que viria a ser campeão nacional oito anos depois.

Mariano Amaro foi, seguramente, a maior figura humana de todos estes rebeldes com causas. Vítor Santos, chefe de redação de A Bola, chamou-lhe Einstein do Futebol por causa do seu génio inato para a resolução dos problemas que os jogos lhe iam colocando. Muito rápido na forma como se antecipava aos adversários para lhes roubar a bola, partia de imediato para o ataque, sempre à procura de alguém a quem dirigir os seus passes certeiros ou de um espaço para aplicar o seu pontapé fulminante. Boémio famoso na Lisboa da década de 40, continuou a ser vigiado pela polícia do Estado graças às suas ideias de esquerda que nunca abandonou, nem na velhice, quando se dedicou às lutas sindicais.

Mariano Amaro foi muito mais do que um jogador ou de que o capitão do Belenenses em 1946, ano do único título de campeão. Era um homem da cidade, uma personagem da Lisboa da época. Adorava tertúlias, frequentava os cafés da Baixa, o seu estilo de malandro tornou-se indispensável no Rossio. As mulheres não desviavam os olhos à sua passagem.

Boémio inveterado, não recusava as cartas, o póquer ou a sueca. Nem que fosse uma lerpa. Era, como gosta de dizer o povo, um bom garfo. Tinha um apetite pantagruélico, adorava ficar sentado à mesa, com os amigos, bebendo o seu copo de vinho e teorizando sobre que matéria fosse.

Alfacinha em tudo. Voltemos ao grande Vítor Santos: “Nada do que fazia em campo, esse rapaz modesto e simples, arrancado às ruas de Lisboa e tipicamente alfacinha em tudo – até naquele seu andar gingão e afadistado – nos dava a sensação de ser resultado de mil congeminações, de exaustivos treinos, de matraquados conselhos do técnico, de um penoso trabalho de estudo dos segredos da bola, segundo as bases do mais fácil e acessível Manual do Bom Jogador. Ao contrário. Amaro transmitiu-nos sempre a sensação que nascera com aquilo dentro de si: um sentido de futebol fácil, fluído, natural, não só quanto a execução mas, principalmente, quanto a uma extraordinária perceção dimensional do jogo dentro das quatro linhas do retângulo”.

Mariano Rodrigues Amaro nasceu no dia 7 de agosto de 1915. Antes dos 20 anos já estava no Belenenses sob o olhar atento de Artur José Pereira, a grande alma do nascimento do clube. Torneiro mecânico de profissão, não tardou a ganhar o respeito absoluto dos companheiros e a criar nos adversários receio e inveja. Era, de facto, de uma personalidade impressionante. O seu jogo era de uma simplicidade absoluta na altura de defender, de recuperar a bola, e temível nos momentos ofensivos: tinha um domínio notável do tempo e do espaço e uma visão periférica incrível.

Nem a perseguição política de que foi vítima o impediu de vir a ser na seleção nacional o que foi no Belenenses: um capitão incontestado e estimado. Durante treze anos consecutivos usou, com um orgulho ufano, a cruz de Cristo do lado esquerdo do peito, sobre o coração. Depois a realidade da sua existência veio ao seu encontro.

A boémia não lhe perdoou. Uma tuberculose fê-lo abandonar os campos. Na manhã em que se preparava para defrontar o Sporting, na final da Taça de Portugal de 1948, a hemóptise imobilizou-o. Nunca mais voltaria a jogar. A doença não o impediu de tentar uma carreira como treinador, mas o sucesso não esteve à altura do seu nome mítico.

Regressou à sua vida lisboeta, menos ativo mas não menos enérgico. Os anos foram passando, mas as suas preocupações sociais, a sua atividade em prol dos desfavorecidos, a sua luta em defesa dos direitos dos trabalhadores continuaram a ocupar a sua existência e a trazer-lhe sarilhos. Participou em manifestações sindicais, sofreu uma trombose que o diminuiu significativamente. Morreu no dia 23 de maio de 1978.

Um dos seus velhos companheiros de equipa, Perfeito Rodrigues, escreveu um poema em sua homenagem. A certa altura, ia assim: “Era jovem e tinha a Cruz/A ‘bela’ que nos prendeu/A ti te mostrou a luz/E mais tarde o apogeu!/Depois, tudo se esboroou/Tudo fugiu num repente/De ti apenas ficou…/Um sorriso para toda a gente”.

 

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