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Sporting-Famalicão. Monstros na tarde dos mortos-vivos

Sporting-Famalicão. Monstros na tarde dos mortos-vivos

Afonso de Melo 20/09/2019 21:22

Na meia-final da Taça de Portugal de 1946, os leões foram vorazes. Assassinaram os minhotos – que acabaram com 7 em campo – por 11-0.

Época quase no fim. Como era hábito então, jogava-se a Taça de Portugal, assim de enfiada, para despachar o futebol e a malta poder ir de férias. As meias-finais tinham ditado um Sporting-Famalicão, jogado no campo mais ou menos neutro das Salésias – a verdade é que os do Minho tinham sido obrigados a calcorrear uns bons quilómetros –, e um FC Porto-Atlético, em Coimbra. E, em Coimbra, a surpresa. O Atlético venceu por 2-1. Em Lisboa, a história foi bem mais macabra.

No dia 23 de junho de 1946, nem todos os violinos estavam afinados. Jesus Correia, Travassos e Vasques ficaram de fora. Uma nova linha ofensiva foi inventada: Armando Ferreira, Sidónio, Peyroteo, Marques e Albano. Faria maravilhas.

Diga-se sem rebuço que esse Famalicão talvez tenha sido o melhor de todos os tempos. Tinha Sansão, o guarda-redes sem Dalila. Tinha Jonas Szabó, o húngaro, treinador-jogador, e Adelino no meio-campo. E, na frente, Gita e o fantástico argentino Oscar Tellechea.

De pouco lhe serviu.

Os leões, ávidos, esfomeados, cercaram a defesa adversária com instintos sanguinários.

Só com uma generosidade e um espírito coletivo notáveis é que os famalicenses foram adiando o golo do Sporting. Adiaram-no até aos 27 minutos. Uma proeza!

Mão de Ferrão na grande área. O árbitro Domingos Miranda, do Porto, não teve dúvidas. Barrosa chutou certeiro.

Não havia forma de os minhotos adivinharem que estavam à beira de um dos maiores desastres da sua história. Logo num tempo em que festejavam com satisfação incontida a sua primeira presença numa meia-final da Taça.

Trinta e cinco minutos. remate violento de Veríssimo à barra. Sansão luta com Sidónio para evitar a recarga. Acaba por ser ele a enfiar a bola dentro da própria baliza. Mas isso nem foi o pior. O keeper do Famalicão lesiona-se dolorosamente. Adelino tem de ir ocupar o seu lugar porque substituições ainda não faziam parte das regras dos jogos oficiais.

O dique abriu-se.

A um minuto do intervalo, o Sporting faz 3-0, por Sidónio.

Como aguentar 45 minutos em tão declarada inferioridade? Sansão sacrifica-se. É extremamente abalado que regressa para junto dos postes. Mas não é o verdadeiro Sansão. É um fantasma de Sansão com um esgar de dor a cada movimento.

Quarenta e nove minutos: 4-0 por Peyroteo.

Nada a fazer. Sansão saiu de novo. Era-lhe impossível aguentar o sofrimento.

O jogo transformou-se num massacre.

Sessenta minutos: 5-0 por Peyroteo.

Sessenta e um minutos: 6-0 por Armando Ferreira.

Szabó aleija-se. Também sai de campo.

Sessenta e nove minutos: 7-0 por Sidónio.

Setenta e dois minutos: 8-0 por Armando Ferreira. O Sporting joga por jogar. Contra mortos-vivos...

Setenta e dois e 74 minutos: 9-0 e 10-0 por Sidónio e Barrosa, este de penálti.

Tellechea e Adelino também saem, magoados. A quatro minutos do fim, Armando Marques põe fim à chacina: 11-0. Nem os vencedores conseguiam exibir alegria...

 

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