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O projecto industrial do lítio Português

O projecto industrial do lítio Português

António Silva 20/09/2019 09:30

A indústria extractiva e/ou mineira deve ser encarada com a normalidade de uma outra qualquer actividade industrial que se situa a montante de um determinado processo transformador/industrial que visa a produção de materiais de elevado valor acrescentado que contribuem para a melhoria substancial da nossa qualidade de vida e claro está, da economia

O lítio é um elemento químico que apresenta actualmente um elevado interesse económico dada a sua ampla aplicação em baterias e outros equipamentos de armazenamento energético estacionário que contribuem para alavancar a denominada “economia verde”. Nos últimos anos, tem-se assistido à intenção clara de se efectuarem trabalhos de prospecção e pesquisa para a avaliação e quantificação de recursos minerais litiníferos “hard-rock” e as possibilidades de exploração dos minérios que contêm este metal estratégico em Portugal, dadas as evidências claras da sua beneficiação e transformação em compostos químicos precursores de componentes de células de baterias (de ião lítio).

Nesse sentido, a pedido do Governo de Portugal, foi publicado em 2017 o Relatório do Grupo de Trabalho “Lítio” que demarcou as áreas com elevado potencial para se prospectar, pesquisar e futuramente explorar recursos minerais de lítio, das quais se destacam as regiões do Barroso (Montalegre e Boticas), Guarda e Fundão. É ainda referido que o mercado dos compostos de lítio é amplo e diversificado abrangendo um importante espectro de indústrias, tais como cerâmica e vidro, lubrificantes industriais, aplicações médicas e baterias de ião lítio, entre outras. Com efeito, foi assim deliberado na Resolução nº11/2018 do Conselho de Ministros a dinamização de concursos públicos para a atribuição de licenças de prospecção e pesquisa, bem como para a respectiva exploração numa lógica da máxima agregação de valor aos recursos, em lugar de meramente extrair e exportar uma mistura de rochas ricas em lítio ou até concentrados minerais com lítio incorporado na sua estrutura (de espodumena, petalite, lepidolite e também montebrasite).

Dada a extrema dependência dos recursos minerais que a Humanidade apresenta hoje em dia (incluindo os portugueses do litoral, mas também do interior e insulares), a indústria extractiva e/ou mineira deve ser encarada com a normalidade de uma outra qualquer actividade industrial que se situa a montante de um determinado processo transformador/industrial que visa a produção de materiais de elevado valor acrescentado que contribuem para a melhoria substancial da nossa qualidade de vida e claro está, da economia.

A partir destas premissas, contrariamente a uma ideia pré-instalada e deveras catastrofista, é possível afirmar que o que se pretende concretizar em Portugal é a máxima criação de riqueza a partir dos recursos concessionados, ou seja, a produção de compostos químicos precursores de células de baterias como o hidróxido de lítio mono-hidratado ultrapuro - LiOH.H2O a partir de concentrados minerais também de elevada pureza/qualidade numa refinaria. Esta,  constituída por um concentrador e uma unidade hidrometalúrgica (similar a muitas outras unidades transformadores situadas em Portugal e responsáveis pela produção de outros bens basilares da nossa Sociedade), funcionará de acordo com as melhores práticas em termos de eficiência energética, utilização de químicos não agressivos ao meio ambiente,  recuperação de minérios/sub-produtos, tratamento e reciclagem de água, ou seja, ambientalmente sustentável numa lógica de economia circular.

Portanto, independentemente da grandeza do projecto industrial do lítio Português, assumir que a solução para o fim da desertificação do interior de Portugal assenta na futura exploração de minérios litiníferos (a exageradamente alarmista e demagógica denominação de “febre do lítio”) é totalmente descabida, mais ainda quando se fala em “tábua de salvação” para a economia e para o problema demográfico que o país atravessa. Para resolver a questão demográfica no interior, são claramente necessárias outras medidas estruturais, mas é um facto que o projecto industrial referido que visa a transformação química dos minérios de lítio pode efectivamente devolver a parte dos territórios (de baixa densidade onde esses minérios são passíveis de extracção segundo as melhores práticas), a fixação e emprego qualificado a centenas de pessoas da sub-espécie “Homo sapiens sapiens”, nativas e não nativas. Logo, é básico assumir-se que o projecto industrial do lítio Português não depende exclusivamente de máquinas ou “robots” dado que para a sua operação com o mínimo de riscos são necessários que estes espécimes as comandem e procedam à sua importante manutenção periódica.

Não negligenciar que, normalmente, as populações instalam-se onde as condições de vida são as mais apropriadas em concordância com as suas espectativas de futuro, normalmente, onde encontram empregos que remunerem e possibilitem o investimento na constituição de uma família, salvaguardando necessidades básicas tais como a alimentação, segurança e a educação de ascendentes e descendentes. No interior Português envelhecido, muitas foram as famílias desmembradas por falta de oportunidades de educação e emprego e, consequentemente, a fixação nas suas terras de origem não foi possível, não forçosamente porque as concessões mineiras no passado cessaram pela conjuntura económica da época ou os jazigos minerais de volfrâmio, ouro, prata, estanho e ferro foram exauridos, mas sim porque as melhores condições de vida (maioritariamente associadas a emprego industrial) se encontravam noutras regiões onde houve investimentos nas mais variadas indústrias transformadoras, não muito diferentes do projecto pretendido para a conversão dos minerais de lítio em químicos “battery grade”. Realça-se ainda que, os elevados volumes de recursos e as características intrínsecas dos minérios (teores de lítio e pureza) de algumas concessões também levantam a hipótese de que as explorações durem várias décadas e, por esse motivo, é perfeitamente lógico assumir-se que, pelo menos, também várias dezenas de famílias se fixarão junto das áreas de exploração mineira e de transformação industrial durante largos períodos.

É sim urgente que se perceba a importância da ocorrência dos minérios “hard-rock” em solo português para que nos próximos tempos imperem as boas práticas, o sentido de responsabilidade das empresas concessionárias, a honestidade intelectual e o bom senso de todas as partes envolvidas, sem obviamente descurar o valor do real conhecimento científico sobre estes assuntos. Ao longo de milhares de anos até à actualidade, a dinâmica da extracção, transformação e utilização de recursos minerais, reflectido em quase tudo à nossa volta (basta apenas pensar nos componentes dos “smartphones” diariamente utilizados, entre outras coisas, para a divulgação de notícias falaciosas sobre a exploração dos recursos de lítio), sempre dependeu de diferentes contextos geo-políticos e geo-económicos a várias escalas temporais e espaciais. Por esses “pequenos” grandes pormenores, nem a actual República Federativa do Brasil pode estar ressentida com El Rei D. João V pelas enormes quantidades de ouro extraídas e transportadas para ornamentar as igrejas Portuguesas e outros monumentos, nem os habitantes do interior e suas famílias (portugueses e não só) que outrora se dedicaram tão arduamente à lavra mineira de depósitos de volfrâmio, ouro, prata, estanho e ferro podem afirmar que já saldaram uma “dívida” para com o Estado Português. Se assim for, o planeta Terra teria imediatamente de parar a sua trajectória de rotação e translação porque nunca poderemos (nem por sombras), saldar a “dívida” com as milhares de pessoas, incluindo crianças, vítimas de exploração laboral em países ricos nos mais variados recursos que fortemente contribuem para o modo de vida que a maioria das pessoas, incluindo as do interior português, sempre conheceram.

Geólogo

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