14/10/19
 
 
José Paulo do Carmo 20/09/2019
José Paulo do Carmo

opiniao@newsplex.pt

O amolador

Lá vem, já a meio da rua, devagar devagarinho, o amolador e a sua bicicleta, que faz questão de parar de quando em vez para se agarrar à flauta de Pã a que nos habituámos a chamar gaita e que emite aquele som único que se estende pela ruas e prédios e se aloja suavemente em cada habitante de Campo de Ourique

São nove e meia da manhã e o sol de sábado já irrompe sem autorização prévia pelas janelas de casa. Também não precisava – eu próprio faço questão de as abrir para arejar e agradeço que ele entre para que me deixe na boca aquele gostinho de fim de verão que deixa saudades. Na cozinha, preparo o pequeno-almoço: um sumo da fruta natural que existir no frigorifico e uma baguete de sementes que gosto de ir comprar na padaria da Ferreira Borges. Ainda meio ensonado, começo a ouvir um som ao longe que me desperta de imediato. O sorriso na minha cara veste-se a rigor e desato a correr como uma criança feliz para me debruçar à janela, com os ouvidos bem atentos à procura da imagem que quero ver. Lá vem, já a meio da rua, devagar devagarinho, o amolador e a sua bicicleta, que faz questão de parar de quando em vez para se agarrar à flauta de Pã a que nos habituámos a chamar gaita e que emite aquele som único que se estende pela ruas e prédios e se aloja suavemente em cada habitante de Campo de Ourique.

Ah, como é bom ouvir este som logo pela manhã… Nunca me dirigi ao senhor para afiar uma faca que fosse e, provavelmente, já o deveria ter feito para contribuir para o perdurar deste clássico que nos puxa a memória atrás e arrasta um lastro de infância. Antigamente diziam que trazia chuva porque ele também consertava as varetas dos guarda-chuvas desalinhados ou meio dobrados mas, hoje em dia, já ninguém recorre a esses serviços. Preferem deitar fora e comprar um novo. Dizem-me que também arranjava alguidares colocando habilmente gatos (agrafos) que cobria com uma massa isoladora para que voltassem ao seu serviço sem falhas. E resultava mesmo. Seja como for, a verdade é que aquela gaita faz as delícias dos mais novos e irradia boa disposição pelo bairro. É ver pequenos e mais velhos juntos, à janela, para absorver um pouco mais da magia que parece pairar no ar a cada compasso e de cada vez que a melodia simples calcorreia as nossas ruas.

Como aqueles quadros de chocolates com furinhos da Regina que existiam nos cafés ou os chupa-chupas de caramelo e os barquinhos de chocolate que comia na praia. Há coisas que nos trazem tão boas memórias que nunca deveriam deixar de existir. Que devíamos poder ter a oportunidade de dar aos mais novos, tamanhas são as experiências. Na realidade, se pensarmos bem, somos nós muitas vezes que pouco ou nada contribuímos para que elas continuem. Gostamos de vê-las lá mas, depois, nunca a elas recorremos, esquecendo que, para existirem, tem de existir quem a elas recorra, tem de haver investimento e tem de valer a pena. O nosso egoísmo leva-nos a querer que elas existam só para nosso próprio prazer mas, quando é altura de contribuir para que continuem a existir, assobiamos para o lado ou estamos sempre ocupados.

Eu já decidi que, da próxima, o amolador não me escapa e que irei contribuir para que ele não desapareça como tantas outras coisas desapareceram e não voltaram mais. Caímos sempre na tentação do mais fácil, de recorrer aos grandes centros e ao comércio de massas, esquecendo o tradicional e as nossas raízes, e depois queixamo-nos de que elas vão aos poucos deixando de existir. Devíamos preservar mais a nossa identidade, a nossa cultura e estas pequenas experiências que nos levam para pequenos momentos de magia. Como é bom ter a oportunidade de continuar a ouvir aquele maravilhoso som pela manhã. Como eu gostava que a carrinha dos gelados também passasse nem que fosse só mais uma vez, com aquela música tão característica… Somos tão ingratos com as nossas recordações. Só damos valor quando deixam de existir. É pena, porque são os momentos mais simples que nos trazem a tranquilidade e nos transportam para pensamentos positivos. Espero que pelo menos este continue a percorrer a Coelho da Rocha por muitos e bons anos.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×