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Porque é que más noites de sono fazem mal à saúde? Há uma nova explicação

Porque é que más noites de sono fazem mal à saúde? Há uma nova explicação

Dreamstime Marta F. Reis 19/09/2019 21:38

Equipa da Fundação Champalimaud descobriu que células vitais para a saúde do intestino e absorção de gordura estão programadas para funcionar em função do ritmo do dia. Quando o Big Ben do cérebro avaria, perdem a orientação.

Porque é que maus hábitos de sono estão ligados a maior risco de obesidade e doenças inflamatórias do intestino? Uma equipa da Fundação Champalimaud descobriu uma nova peça do puzzle que reforça a importância para a saúde de ter horários de sono regulares. Quando se dorme pouco e os sonos andam demasiadas vezes trocados, como é o caso de quem trabalha por turnos à noite, não é só a cabeça que se ressente. Um grupo de células do sistema imunitário que depende de sinais do “relógio biológico” do cérebro para desempenhar as suas funções, importantes para a saúde do intestino e absorção de gordura, perde a noção do tempo e passa a ter dificuldades em cumprir a sua missão.

O trabalho foi publicado na revista científica Nature. Henrique Veiga Fernandes, o principal responsável pela investigação, ajuda a perceber o fio condutor.

Partindo da associação que já tinha sido feita entre horários de sono desregregados ou noites de insónia e doenças inflamatórias do intestinto e excesso de peso, focaram-se num grupo de células do sistema imunitário que têm um papel importante na saúde do intestino e no metabolismo de gorduras, as células linfoides inatas do tipo 3 (ICL3 na sigla em inglês).

A forma como reagem à informação sobre dia e noite era até aqui desconhecida e é essa a novidade da investigação. Como quase todas as células, têm uma marcação do tempo que acompanha o ritmo do dia através da expressão de genes relógio, mas os investigadores perceberam que, para as ILC3, o chamado ritmo circadiano era especialmente relevante. “Conseguimos perceber que estão sob o controlo daquilo a que chamamos o nosso relógio biológico. É como se tivessem um relógio, como todos nós temos um relógio no pulso ou no telemóvel, e é isso regula as funções que têm no intestino”, diz ao i o investigador.

O busílis está na forma “engenhosa” como a evolução programou as suas funções. “Estas células desempenham duas funções: a reparação da parede intestinal e a regulação da absorção de gordura que ingerimos. Acontece que estas duas funções não são compatíveis em simultâneo, pelo que para estarem num lado não conseguem estar no outro. A forma engenhosa como a natureza deu a volta a isto foi estarem sincronizadas em períodos de dia e noite em que a atividade é maior num lado ou do outro”, esclarece o investigador.

Quando o Big Ben avaria Henrique Veiga Fernandes explica que, no fundo, depararam-se agora com um problema de dessincronização, que bloqueia a ação. Como as células do interior do corpo não recebem informação direta acerca da luminosidade exterior, usam sinais do cérebro para marcar a hora e saber se é dia ou noite. “É como se fosse o Big Ben lá do sítio”, compara o investigador.

O relógio biológico do cérebro, neurónios que coordenam o ritmo do organismo e reagem à luz do dia captada pelos olhos, sincroniza os pequenos relógios destas células imunitárias de forma a saberem que nas horas de maior repouso devem estar mais mobilizadas na reparação intestino e durante no dia, quando há ingestão calórica, devem ocupar-se da absorção de gordura.

A equipa percebeu que os padrões de sono irregular continuados, ao interferirem com os ritmos de exposição à luz e escuridão e assim com o relógio do cérebro, causava o colapso deste sistema: as células deixam de saber que têm de migrar para o intestino. “Sabemos que em algumas circunstâncias existe uma adaptação do ritmo circadiano. Quando estamos a atravessar fusos horários de uma forma progressiva, existe por exemplo o jet lag. O problema surge quando há alterações bruscas e constantes dos ritmos biológicos, causadas por exemplo por sonos desregrados. O relógio fica dessincronizado e dá informações contraditórias ao organismo. Estaria preparado para termos uma refeição a uma hora x e vamos fazê-lo à hora y”, diz Henrique Veiga Fernandes. “Há um desacerto nesta capacidade que organismo tem de antecipar os nossos comportamentos. Entra um bocadinho naquela imagem que era dada pelos nossos pais e avós da importância de uma vida regrada. A importância de irmos para a cama à hora em que temos níveis mais elevados de melatonina (a hormona que induz o sono e vai aumentando ao longo do dia), acordarmos quando os níveis de cortisol estão mais elevados e neste caso almoçarmos quando o organismo está mais preparado para receber calorias”. O investigador diz que, mais do que dormir pouco, é uma combinação de ritmos de sono irregulares e privação de sono que acabam por ser prejudiciais.

Para Henrique Veiga Fernandes, além do avanço científico, a expectativa é que o trabalho ajude a reforçar a importância do estilo de vida para a saúde. “Se as pessoas compreenderem estas ligações e isso as levar a uma alteração de comportamento, seria extraordinário”, diz. No futuro, poderá levar a soluções para quem não tem alternativa. “Ao perceber a suscetibilidade superior a obesidade e inflamação, também percebemos as moléculas envolvidas nestes mecanismos e poderemos começar a pensar em fármacos e novas terapêuticas para poder alterar esta limitação por exemplo em pessoas que por razões profissionais, ou outras, tenham ritmos biológicos alterados”.

Por agora, a equipa vai continuar a trabalhar na interação entre sistema nervoso e sistema imunitário, uma linha de investigação que está a dar os primeiros passos. No ano passado, receberam o prémio Allen Distinguished Investigator, criado pelo co-fundador da Microsoft Paul Allen, por estudos pioneiros que permitiram identificar regiões do organismo onde neurónios e células imunitárias comunicam para responder a ameaças como vírus e bactérias.

Além deste financiamento, a investigação agora publicada foi financiada por uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Perceber como é que o sistema imunitário controla o metabolismo é a área em que estão a trabalhar. “Esperamos vir a partilhar resultados tão entusiasmantes como este”, remata Henrique Veiga Fernandes.

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