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Cigarro eletrónico vs tabaco aquecido. “A indústria mudou tudo para ficar tudo na mesma”

Cigarro eletrónico vs tabaco aquecido. “A indústria mudou tudo para ficar tudo na mesma”

Daniela Soares Ferreira Daniela Soares Ferreira 19/09/2019 20:16

Os cigarros eletrónicos e o tabaco aquecido vieram mudar a forma como se fuma. A procura cresceu e com ela as vítimas: há já sete mortes nos Estados Unidos que poderão estar relacionadas com o seu uso. A Sociedade Portuguesa de Pneumologia alerta para os riscos.

Foi confirmada esta semana a sétima morte nos Estados Unidos por uma misteriosa doença grave nos pulmões que pode estar diretamente relacionada com o uso de cigarros eletrónicos. As mortes – a que se juntam outras 400 pessoas afetadas – obrigaram o Centro de Doenças a ativar o plano de emergência.

Os casos vieram a público recentemente e assustaram os especialistas devido aos graves danos verificados nos pulmões. Tosse, falta de ar, vómitos, diarreia, dores no peito, fadiga, dores abdominais e febre são alguns dos sintomas apresentados pelos pacientes. Em todos os casos, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) – um organismo do Governo americano – encontrou um fator comum: o uso de cigarros eletrónicos, também conhecidos por e-cigarros.

A febre dos cigarros eletrónicos, como alternativa aos cigarros tradicionais, tem alastrado de forma proporcional ao receio que desencadeiam, a ponto de haver já países, como a Índia, a proibir a sua venda.

Na grande maior parte dos casos, vai na cabeça de quem decide trocar o cigarro convencional pelo eletrónico que este constitui uma opção mais saudável. Mas será mesmo?

A administração de Trump já avisou que vai retirar o produto do mercado enquanto houver dúvidas sobre a sua segurança. Em Portugal, apesar de ainda não haver casos de doença registados, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) mostra-se preocupada com as possíveis consequências. “Dada a grande disseminação destes produtos e fácil acessibilidade, é provável que surjam [problemas] noutros países, incluindo Portugal”, garante a sociedade. E deixa o alerta: “A inalação de compostos químicos presentes no vapor dos cigarros eletrónicos representa um risco real”.

Substâncias fortemente inflamatórias Ao i, o pneumologista Jaime Pina garante não ter dúvida: os chamados Dispositivos Eletrónicos Fornecedores de Nicotina (DEFN) fazem mal à saúde. Até porque, como o próprio nome indica, têm nicotina. Mas não é fácil detetar efeitos a longo prazo, uma vez que se trata de aparelhos ainda relativamente recentes.

Mesmo assim, explica: “Quando se fuma cigarros eletrónicos, fuma-se uma mistura de substâncias aparentemente pouco agressivas: água, nicotina, aromatizantes, glicerina vegetal e uma base que é o propilenoglicol”. O problema é que, quando estas substâncias ardem a 350 graus, formam-se outras substâncias, como acontece no cigarro tradicional. “E essas substâncias são fortemente inflamatórias para o aparelho respiratório. Sem dúvida nenhuma que quem introduz estas substâncias no aparelho respiratório vai ficar doente. As substâncias são formaldeído, acetaldeído, acetona e há uma ainda pior que é a acroleína”, refere o especialista, que explica ainda estar demonstrado que estas substâncias “fazem parte daquilo que metemos no pulmão quando fumamos o cigarro eletrónico”.

E como surgem as doenças? “A experimentação humana diz que [as substâncias acima indicadas] provocam inflamação e cancro. Agora não temos tempo porque como se sabe, o cigarro eletrónico é muito recente”.

Jaime Pina faz ainda referência ao Iqos – sistema de tabaco aquecido –, garantindo que, neste caso, “acontece mais ou menos a mesma coisa”. Mas aqui os produtos inalados já são mais conhecidos e mais semelhantes ao do tabaco normal – portanto os seus efeitos estão mais estudados e são mais previsíveis. “Aquilo que acontece é que o tabaco arde, normalmente, a 900 graus e o Iqos arde a 300. Quanto mais baixa for a combustão, menos substâncias tóxicas se formam e portanto não se formarão no Iqos tantas substâncias tóxicas”, refere.

Mas, para o especialista, uma coisa é certa: “Ambos [cigarros eletrónicos e tabaco aquecido] fazem mal à saúde”.

Uma nova indústria Jaime Pina defende que, dado os malefícios conhecidos do tabaco normal, é natural que as indústrias comecem a optar por outras formas de fumar, aparentemente mais inofensivas. “A indústria fez uma coisa muito engraçada: agora já não há cigarros, são e-cigarros. Agora já não se fuma, ‘vapeia-se’. A indústria mudou para ficar tudo na mesma”, diz.

O especialista considera que o que está a acontecer neste momento é o mesmo que se passava no século XX, altura em que havia muita pressão para que as pessoas fumassem. “Estamos a mudar para uma forma muito mais sofisticada de levar as novas gerações a fumar: é este estilo eletrónico, através de um dispositivo todo bonito”, diz.

No seu entender, quem opta por outras formas de fumar não está a adotar uma solução mais saudável do que o fumador tradicional, uma vez que “estes produtos continuam a ter nicotina e, além de serem perigosos, vão viciar as pessoas”.

 

Tabaqueiras não estão preocupadas

A venda de cigarros eletrónicos podia ser vista pelas tabaqueiras como uma forte concorrência à venda dos cigarros tradicionais mas não é isso que se verifica, até porque as empresas do setor têm também apostado nesse produto, assim como no tabaco aquecido.

Ao i, fonte oficial da Tabaqueira explica que “as vendas acumuladas do dispositivo eletrónico que procede ao aquecimento do tabaco aproximam-se dos 300 mil desde o lançamento do produto em 2016, embora esse indicador seja uma proxy apenas aproximada do número de consumidores”. Em relação ao valor a nível mundial, as vendas “têm aumentado”, estimando-se “que o número de ex-fumadores [de tabaco convencional] que optaram pelo tabaco aquecido eletronicamente seja superior a 11,3 milhões”. Recorde-se que a Tabaqueira é subsidiária em Portugal da Philip Morris Internacional, marca que desenvolve o Iqos.

No caso da Imperial Tobacco Portugal, o aumento de vendas de novos produtos também não constitui uma preocupação -pelo contrário, uma vez que a empresa já disponibiliza esses produtos no seu catálogo. “Vemos este tipo de produtos como sistemas dualistas. As pessoas que estão a optar por este tipo de fumar são pessoas que, neste momento, querem deixar de fumar ou querem ter uma alternativa ao seu cigarro tradicional e não o vemos como um produto que nos vá roubar vendas”, diz ao i Miguel Simões, responsável da Imperial Tobacco Portugal. “Não vemos como inimigo, vemos como alternativa. Há claramente uma queda do tabaco tradicional mas vemos como uma solução alternativa, dualista”, finaliza.

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