18/10/19
 
 
Carlos Gouveia Martins 19/09/2019
Carlos Gouveia Martins

opinião@ionline.pt

Não herdamos a Terra dos nossos pais, pedimo-la emprestada aos nossos filhos

 A Indonésia vai mudar de capital porque Jacarta está a afundar-se. É isso mesmo que leu. Jacarta é uma das regiões urbanas mais densamente povoadas do mundo e tem vindo a perder no “duelo” com o aumento do nível do mar.

É atual. Cada vez mais devemos ter o foco maior em deixar um ecossistema global em condições de habitabilidade para as gerações futuras. Sim, não chega deixar apenas o Planeta Terra a girar.

Não é tema inferior ou menos importante. É “o” Tema.

Vejamos dois exemplos para começar a conversa e, em parte, refutar a irresponsabilidade de dizer-se que as alterações climáticas são teóricas ou, tão mau quanto a primeira premissa, podem esperar.

Será inaugurada no final deste ano, na China, a primeira Cidade 100% sustentável do mundo. Em Liuzhou irão viver até 30 mil pessoas, numa espécie de “Cidade Floresta”, com 40 mil árvores e quase um milhão de plantas de mais de 100 espécies distintas. E o que há de contributo em ter um projeto deste tipo, uma espécie de Floresta na vertical? A expectativa é que nesta zona de Liuzhou haja anualmente a produção, aproximada, de 900 toneladas de oxigénio, a absorção de quase 10 mil toneladas de dióxido de carbono.

Naturalmente, e sem fanatismos, não significa isto que todas as Cidades do mundo tenham de se tornar em espaços 100% verdes. Haja equilíbrio e bom senso de todos. É apenas, isso sim, um caminho plausível, nada se opõe à criação de mais complexos urbanos que combinem esta autossuficiência energética com o uso de energia renovável. É um processo inequívoco de como se pode aumentar a biodiversidade e reduzir ainda - de forma eficiente - a poluição do ar. Decoremos este exemplo da China, pelo «lado bom».

Agora vejamos o «lado mau» do que advém das alterações climáticas: Exemplo de Jacarta.

É mais que “um Portugal” em dimensão humana. São mais de 10 milhões de pessoas que atualmente vivem em Jacarta e estima-se que haja mais de 30 milhões de pessoas a habitar nesta grande área metropolitana da “ainda Capital” da Indonésia. Ainda!? Sim. A Indonésia vai mudar de capital porque Jacarta está a afundar-se. É isso mesmo que leu.

Jacarta é uma das regiões urbanas mais densamente povoadas do mundo e tem vindo a perder no “duelo” com o aumento do nível do mar. Não pense que isto é uma fake news, esta mudança foi anunciada publicamente pelo Presidente da Indonésia, Joko Widodo, e esta é uma das consequências do ritmo imposto pelas alterações climáticas no mundo.

Ainda neste caso, não pense que é isolado. O futuro não é risonho para as chamadas “cidades do delta” que estão na linha da frente do impacto da subida das águas. No mesmo estudo, cerca de três quartos de todas as cidades europeias serão também afetadas, especialmente na Holanda, em Espanha e em Itália.

Serão 350 milhões de pessoas que vivem em várias cidades como Daca (Bangladesh), Guangzhou (China), Cidade de Ho Chi Minh (Vietname), Hong Kong, Manila (Filipinas), Melbourne (Austrália), Miami, Nova Orleães e Nova Iorque (as três nos EUA), Roterdão (Holanda), Tóquio (Japão) e Veneza (Itália). Preocupante, não é?

Quer o caso positivo da China como o caso negativo da Indonésia merecem ação (e não só atenção). Hoje, também mas não só por estes exemplos, a sustentabilidade ambiental tem de ser prioridade em qualquer programa eleitoral.

Infelizmente, o nosso planeta é afetado por vários problemas ambientais, muitos deles provocados por diversas ações humanas. Estes problemas afetam tudo e destroem de forma clara a fauna, flora, solo, águas, ar... enfim, o Planeta. O único Planeta que verdadeiramente nos interessa.

Precisamos de agir onde e como podemos: Politicamente.

Não precisamos das cidades que outrora se fantasiavam, se idealizavam em filmes de ficção-científica, as chamadas Cidades Hi-Tec cheias de discos voadores e processos robóticos que nos substituem. Precisamos, isso sim, de um território cada vez mais inteligente. Um território que seja facilitador de mobilidade social. Que seja economicamente viável mas plenamente assente na economia circular.

Mas temos três vetores major para trabalhar esta problemática de forma objetiva: O setor Economico, Social e Ambiental.

Temos de combater as alterações climáticas sendo realistas e plausível. Temos de começar já por mitigar os danos. Urge reduzir de forma efetiva os gases de efeito de estufa com tecnologias limpas. Temos de olhar para a biodiversidade sem fanatismos ou “clubites” partidárias.

Nas “partidarites” temos é de unir esforços, ter “votações por unanimidade e aclamação” sobre como valorizar do ponto de vista económico as nossas riquezas naturais, preservando-as mas tirando partido económico das mesmas.

É possível. Temos de olhar com atenção para a gestão dos recursos hídricos também. Porque não existe ainda um Plano Nacional de Uso eficiente de Água que responda às problemáticas que já tanto falamos? Os partidos, a sociedade civil e qualquer anónimo português honesto devem exigir, a si próprios primeiro, mas a todos os outros players do nosso território nacional, este Plano e esta estratégia. Devemos exigir isto e muito mais.

Apostar na ecoeficiência é decisivo. Cada vez mais. Temos de ter programas de literacia para comportamentos sustentáveis. Devemos dar desde logo o exemplo a partir do simples quotidiano laboral. No privado, no público ou no setor social. Na rua ou em casa.

Não podemos continuar sem falar afincadamente de um estruturado Plano Energético. O presente, académico e social, refere que há três pilares sobre políticas energéticas: (I) A garantia e segurança no abastecimento; (II) A sustentabilidade sobre as questões de energia; (III) A energia como potenciador de competitividade económica.

A meu ver, a resposta de qual o melhor é: Juntem os três.

Mas onde está Portugal neste trio de pilares? Se nos Estados Unidos da América é evidente que a preocupação é o abastecimento de fonte de energia (pilar I), se na Ásia é a energia o mais barato possível como fator para o crescimento económico (pilar III), na Europa a prioridade é no segundo pilar em que se privilegia a produção de energia com tecnologias limpas.

Portugal seguiu a tendência europeia, pois claro, deu prioridade à questão ambiente e descorou a competitividade económica e o crescimento. Preços elevados com défice causado por um elevado tarifário. E a intensidade energética? Quanto temos de gastar de energia para produzir uma unidade de riqueza? Em Portugal é altíssimo este custo. Como mudar e o que devemos exigir ao nível das propostas políticas ambientais?

Aumentar a eficiência dos processos. Racionalizar os consumos energéticos. Como referem académicos, e muito bem, “o Kw/h mais barato que há é aquele que é evitado”. Portugal tem de ter tecnologias mais eficientes.

O caminho sustentável é apostar num plano energético o mais heterogéneo possível. 

A fonte de energia primária tem de ser um mix. Não podemos ter só uma fonte de energia, isso já não resolve, temos de apostar nos recursos endógenos renováveis. Temos de apostar nas energias renováveis de forma clara sem fanatismo de descorar a questão económica. Sem medos porque o maior medo é perdermos o futuro para as gerações vindouras e atuais.

Temos de responsabilizar e cumprir os objetivos na emissão de gases de efeito de estufa. Fundamental.

É impossível não falar na necessária Reforma das Florestas. É algo decisivo para o futuro de Portugal também. Dizem Académicos, Políticos e quem vive e faz viver os “pulmões verdes” que temos. Enquanto portugueses está na altura de exigirmos, já na próxima Legislatura, que se pense juntamente com os players do setor para um melhor saber na gestão florestal. Em questões pequenas como parcelamentos dos terrenos, os anos recentes demonstram de forma inequívoca que os partidos políticos não souberam dar resposta ao que só os conhecedores e técnicos ambientais defendem.

Ainda nas Florestas. Que se ouse pensar, e talvez usar, os resíduos florestais como fonte de produção de eletricidade, produção de calor e também fonte de dinamismo da economia. Sem fanatismos. Pensemos em reformar e mudar o paradigma do setor primário no campo da energia. Politicamente, quem explica que a Eletricidade esteja a taxa mínima sobre imposto valor acrescentado, que o gasóleo esteja a taxa intermédia mas que os Pellets ou biocombustíveis sólidos oriundos da gestão florestal estejam taxados a níveis máximos? Não se percebe.

Deve ser imperativo pensar no futuro ambiental e, neste simples exemplo, reduziríamos o risco de incêndio e ainda trabalhávamos a pegada ecológica.

Estamos à porta de eleições. Todos os partidos têm responsabilidade em aplicar “exemplos simples”. Têm responsabilidade em mudar, em pensar e em respeitar.

Respeitar. Como diz um conhecido provérbio índio: “Não herdamos a Terra dos nossos pais, pedimo-la emprestada aos nossos filhos”. Respeitemos.

 

Carlos Gouveia Martins

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