14/10/19
 
 
17 de setembro de 1972. A malta só quer entender, ok, Jesus? Vale, meu?

17 de setembro de 1972. A malta só quer entender, ok, Jesus? Vale, meu?

Afonso de Melo 17/09/2019 20:06

Londres começou por receber Jesus Christ Superstar com frieza. Depois entregou-se: 3358 subidas ao palco consecutivas no Palace Theatre do West End. Tim Rice e Lloyd Webber conseguiam ser provocadores.

Ponto obrigatório!

Fica aí a frase, pendurada num parágrafo.

Ponto obrigatório para quem queria ver um espetáculo de encher o olho. Ou olhos de qualquer espécie, parafraseando Vasco Santana.

“Jesus Christ, Jesus Christ

Who are you? What have you sacrificed?

Jesus Christ Superstar

Do you think you’re what they say you are?”

Tanta pergunta sem resposta.

Jesus Christ Superstar ia na vaga.

Juntavam-se centenas de pessoas no West End, em Londres, para ver ao vivo o musical de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber. Depois do êxito na Broadway, chegara a hora de conquistar a sempre difícil crítica inglesa.

Webber diria muitos anos mais tarde: “A produção do espetáculo em Londres acabou por ser tão horrível que se tornou icónica!”

Na Broadway, em 1971, a raiva caíra sobre os autores da obra iconoclasta. E Webber também se viu obrigado a defender-se: “As pessoas têm de entender que nós não vemos Jesus como Deus. Vemo-lo apenas como um homem certo no lugar certo à hora certa...”

Bem pôde pregar Lloyd.

Blasfémia!

Judas, interpretado por Ben Vereen, até parecia um moço simpático. Já Jesus, com Jeff Fennholt no papel, dava ares de moço embirrento.

A moral americana, ainda hoje tão hipocritamente puritana, caiu sobre o espetáculo produzido por Tom O’Horgan.

Em Londres, Jim Sharman resolveu ser revolucionário e ficou responsável pelo cenário. Controverso, anticonvencional, uma versão mais psicadélica. Afinal, o West End não é a Broadway.

Brian Thompson, o adjunto de Jim, confessou a influência de Pasolini e do seu Evangelho Segundo São Mateus.

Não restam dúvidas de que, fosse onde fosse, Jesus Cristo Superstar estava destinado a reinar no meio da confusão.

Na véspera da estreia, no Palace Theatre, Sylvia McNeill, que deveria encarnar Maria Madalena, foi atacada por uma bronquite brutal. Foi a jovem Dan Gillespie, de 22 anos, a subir ao palco no seu lugar. Paul Nicholas foi Cristo.

A estreia foi recebida com uma frieza bem britânica.

 

Luzes, câmara... O sucesso acabou por chegar. Jesus Christ Superstar foi, na altura, o musical com a mais longa permanência em cena e somou mais de 12 milhões de libras de receita total.

Jesus, homem entre os homens, jovem da modernidade, partilhando as angústias e as preocupações de todos aqueles que pertenciam à sua geração.

Não viera ao palco e, depois, em 1973, às salas de cinema, pela mão de Norman Jewison, rodado em Israel, para ser o salvador da humanidade, o Messias de todas as esperanças. Era bem mais corriqueiro, perdoe-se a imprecação, se ela existe.

Tal como Judas (Stephen Tate, em Londres) era bem mais místico do que o dos Evangelhos. Não estava apenas focado nos 30 dinheiros e a servir de vítima para o cadafalso do próprio enforcamento. Era um crítico. Erguia a sua voz para pôr em causa determinadas decisões divinas para ele incompreensíveis. Incompreensíveis igualmente para muitos dos espetadores, que se identificavam com ele.

Ora, esta de um tipo se identificar com Judas não era assunto que se aceitasse de ânimo leve nem nos anos hippies de 70. Havia sempre alguém que não suportava tal descaramento. Mas Tim Rice e Lloyd Webber gostavam de provocar. E 3358 representações ao vivo permitiram que toda a gente pudesse ver e ouvir aquilo que tanto o Iscariotes como o Messias tinham para dizer. Ou melhor: para cantar.

“Every time I look at you I don’t understand

Why you let the things you did get so out of hand

You’d have managed better if you had it planned

Why’d you choose such a backward time in such a strange land?

If you’d come today you could have reached a whole nation

Israel in 4 BC had no mass communication

Don’t you get me wrong

I only want to know...”

Isso mesmo: não me leves a mal, só quero perceber, ok, Jesus? Certo, man?

No meio de uma parafernália de luzes e máquinas, que metiam cores chocantes, elevadores, os vocais surgiam imponentes e Herodes, segundo o Sunday Times, tinha uma interpretação brilhantemente digna de um asno. Que o diga Paul Jabara.

A cena de “Why me?”, com o desespero de Cristo no jardim de Getsêmani, punha o público mais novo de bem consigo próprio. Afinal, havia muita juventude londrina a fazer a si mesma a mesmíssima pergunta sem obter respostas convincentes. E o confronto entre Judas e Jesus era assumido como uma ferida aberta que sangrava abundantemente no coração da realidade do mundo.

 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×