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Felicity Huffman. Do arrependimento à condenação

Felicity Huffman. Do arrependimento à condenação

AFP Mariana Madrinha 17/09/2019 16:30

A atriz e vencedora de um Óscar foi a primeira a ser condenada no chamado escândalo das universidades, em que várias celebridades e executivos compraram a entrada dos filhos em faculdades de topo dos EUA. Ao todo foram formalmente acusadas 50 pessoas.

No domingo, Felicity Huffman visitou um centro de crianças, nos arredores de Los Angeles, na companhia da sua filha mais velha, Sophia, de 19 anos. Não foi uma visita inócua: é ali que, muito provavelmente, a atriz cumprirá as 250 horas de serviço comunitário a que foi condenada no final da semana passada, penalização à qual acresce uma multa no valor de 30 mil dólares e 14 dias de prisão. Foi este o primeiro desfecho de um processo que ficou conhecido como o “escândalo das universidades”, no qual vários pais economicamente favorecidos, entre celebridades e executivos de topo, pagaram a um consultor para inflacionar as notas de admissão à faculdade dos filhos, garantindo-lhes assim a entrada no estabelecimento de ensino que desejavam.

A atriz é a primeira a ser condenada num processo em que, segundo o procurador-geral do estado do Massachusetts responsável pelo caso, Andrew Lelling, foram formalmente acusadas 50 pessoas – incluindo professores que supervisionavam os exames, treinadores, responsáveis pelas universidades e pais.

Huffman declarou-se culpada e no próximo dia 25 de outubro vai ter de se apresentar na prisão para cumprir os 14 dias de encarceramento. O nome do estabelecimento prisional ainda não foi revelado. Indira Talwani, a juíza que presidiu ao julgamento, considerou que o facto de a atriz ter admitido o erro “não desculpabiliza” a fraude.

Algo de que a atriz parece estar ciente. “Não há desculpas ou justificações para as minhas ações. Ponto final”, afirmou Huffman num comunicado emitido após a sentença, citado pela BBC. “Gostaria de pedir novamente desculpa à minha filha, ao meu marido, à minha família e à comunidade educativa pelas minhas ações. E quero pedir especialmente desculpa aos estudantes que trabalham arduamente todos os dias para entrar na faculdade e aos seus pais que fazem tremendos sacrifícios”.

O caso Foi o próprio Departamento de Justiça norte-americano, que investigou o caso, a revelar os crimes em março deste ano. Para que a filha Sophia conseguisse entrar numa das universidades de topo norte-americanas, Huffman pagou 15 mil dólares (metade da multa que agora lhe foi aplicada) a um consultor, William Rick Singer, que inflacionou os resultados do SAT – o exame específico de admissão ao ensino superior nos EUA – de Sophia. O consultor declarou-se também culpado de crimes como extorsão assim que o escândalo veio a lume.

“Trata-se da maior fraude de admissão universitária alguma vez descoberta pelo Departamento de Justiça”, disse então Lelling em conferência de imprensa. Para lá da dimensão, os investigadores concluíram que este era um esquema a funcionar há vários anos. “Desde princípios de 2011, e de forma continuada até ao presente, os acusados – principalmente indivíduos cujos filhos estavam a candidatar-se à universidade – conspiraram com outros para usar subornos e outras formas de fraude para facilitar a admissão dos seus filhos em universidades”, lê-se na acusação, citada pela EFE.

O consultor, que operava através da empresa Edge College & Career Network, conseguia que os alunos fizessem os exames em instalações específicas onde se encontravam funcionários “comprados” que deixavam os alunos copiar ou, em certos momentos, até realizavam o exame por eles. Noutras situações foram criados perfis falsos para os alunos que atestavam capacidades atléticas inexistentes e assim lhes conseguiram o acesso a bolsas de estudo para desportistas – em alguns perfis, até a altura dos alunos foi falsificada.

A Universidade do Sul da Califórnia, Georgetown, Yale, Stanford, UCLA e Universidade do Texas são algumas das visadas num processo apelidado pelo FBI de Operation Varsity Blues.

Segundo o procurador, havia alunos que não tinham conhecimento das ações dos pais. Felicity Huffman, que ainda tentou replicar o esquema com a segunda filha, dá conta disso na mesma nota emitida após a leitura da sentença. “No meu desespero para ser uma boa mãe, convenci-me a mim mesma de que tudo o que estava a fazer era dar à minha filha uma oportunidade justa (...). Quando a minha filha olhou para mim e me perguntou, em lágrimas, ‘porque não acreditaste em mim, porque não achaste que eu era capaz?’, eu não lhe consegui dar uma resposta’”, escreveu.

Mas a atriz que deu vida a Lynette em Donas de Casa Desesperadas ou a Sabrina Osbourne em Transamerica (que lhe valeu um Óscar) não é a única celebridade implicada. Lori Loughlin, também atriz e estrela da televisão e o marido, o designer Mossimo Giannulli, são visados no processo. São acusados de ter pago cerca de 500 mil dólares para que as duas filhas conseguissem entrar na Universidade do Sul da Califórnia. Ao contrário de Huffman, não se declararam culpados e rejeitaram, até agora, qualquer proposta de acordo, visto que todas incluíam tempo de prisão. Após terem rejeitado os acordos receberam acusações adicionais de lavagem de dinheiro e conspiração. Tendo em conta a condenação de Felicity Huffman, que não estava acusada de tantos crimes, é muito provável que estejam agora em muito piores lençóis – segundo as leis norte-americanas, podem passar até 40 anos na prisão.

 

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