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Roberto Leal. Calou-se a voz que no Brasil era Portugal

Roberto Leal. Calou-se a voz que no Brasil era Portugal

Raquel Wise Cláudia Sobral 16/09/2019 11:39

Dias depois de uma última atuação na televisão brasileira, Roberto Leal não resistiu às complicações causadas por um melanoma contra o qual lutava há três anos. Tinha 67 anos.

O “rei de Portugal”. Assim o via Chacrinha, o comediante e apresentador televisivo brasileiro que nos seus programas lançou nomes como Roberto Carlos, Clara Nunes, Raul Seixas – e, no Discoteca do Chacrinha, Roberto Leal. Corriam os primeiros anos da década de 1970. Depois dessa primeira aparição na Globo que Roberto Leal gravou Arrebita, o seu primeiro grande sucesso: “Ai cachopa, se tu queres ser bonita/ Arrebita, arrebita, arrebita”. Era o início de uma carreira que o tornaria o português mais conhecido dos brasileiros – uma sondagem realizada pelo Data Folha em 1999 no Rio de Janeiro, apontava-o como a personalidade portuguesa mais conhecida entre os brasileiros. À frente de Pedro Álvares Cabral, e de Camões.

Era o cumprir do maior dos seus sonhos, da fasquia estabelecida em conversas consigo próprio quando, aos 11 anos, com os pais e os seus dez irmãos, emigrou do interior transmontano para a grande metrópole da língua portuguesa: São Paulo. “Um dia vou voltar a Portugal famoso, vou fazer desta viagem a minha vida”, recordou ainda no passado dia 6 no programa Aqui na Band, da estação Rede Bandeirantes, conhecida como Band. A entrevista em que falou sobre o seu percurso mas também sobre a dura luta que travou, durante dois anos, contra um cancro, que lhe afetou a visão, decorreu na sua casa, onde recebeu o canal, além de ter marcado presença depois em estúdio. “Quem vê este homem hoje mal se dá conta que passou os últimos dois anos lutando contra um cancro”, dizia a voz off. E, olhando para ele, nada faria prever que menos de duas semanas depois chegaria a notícia da sua morte.

Em janeiro passado, Roberto Leal anunciara no programa Domingo Show, da TV Record, que estava a lutar contra um melanoma. Por essa ocasião, Marcelo Rebelo de Sousa serviu-se do programa Agora Nós, da RTP, para lhe enviar uma mensagem de apoio em que sublinhava a importância da sua música para a comunidade portuguesa no Brasil: “Queria saudar [Roberto Leal] com um grande abraço de amizade, acompanhando um período um pouco mais difícil na vida. Sobretudo saudar o papel ao longo de tantos anos na projeção da língua portuguesa, na projeção daquilo que é da música portuguesa e na ligação às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, em particular às comunidades brasileiras”.

Foi por complicações relacionadas com a doença, que o tinham sujeitado já a vários procedimentos cirúrgicos e cujas complicações lhe vinham afetando a visão, que Roberto Leal acabou por ser internado na passada terça-feira, apenas quatro dias depois daquela última atuação na Band, no Hospital Samaritano, em São Paulo, onde acabou por morrer na madrugada deste domingo, aos 67 anos. Segundo o seu porta-voz, citado pela Folha de São Paulo, foi o melanoma maligno que lhe havia sido diagnosticado há três anos e contra o qual continuava a lutar, que causou o síndrome de insuficiência hepatorrenal que levou ao internamento do cantor.

O corpo de Roberto Leal estará durante o dia de hoje em câmara ardente na Casa de Portugal. E será em Congonhas, na zona sul de São Paulo, que será sepultado. Dividido entre Portugal e o Brasil a partir da década de 1980, Roberto Leal fixou-se de forma definitiva no país onde iniciou a sua carreira já em 1998. No ano passado foi até candidato a deputado estadual em São Paulo, pelo PT de Lula da Silva, apesar de os pouco mais de 8 mil votos que obteve não terem chegado para o eleger.

Continuou, ainda assim, a visitar Portugal frequentemente. Já nesta década, gozou aliás de um novo pico de popularidade no país em que nasceu, depois de ter vencido o Último a Sair, um falso reality show da autoria de Bruno Nogueira e João Quadros transmitido pela RTP em 2011.

 

De Vale da Porca ao “roberto carlos dos portugueses” Nascido António Joaquim Fernandes em Vale da Porca, uma aldeia de Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, que, à data dos últimos Censos, tinha apenas 286 habitantes, em 1951, mudou-se para o Brasil aos 11 anos, numa viagem a bordo de um velho navio que, depois de ter cumprido as funções de cargueiro e de navio de guerra, foi comprado pela Argentina e transformado em embarcação de transporte de imigrantes pobres.

Ainda António, já nessa viagem carregava consigo o sonho de um dia se tornar cantor. Naquela que ficou como a sua última entrevista recordou como, logo nos primeiros anos, ainda na aldeia onde nasceu, fazia até de um carro de bois um palco: “Subia para o carro de bois e chamava os meninos para assistirem: ‘Lá em cima está o tiro-liro-liro/ Cá em baixo está o tiro-liro-ló’”.

O nome artístico viria depois, nos anos em que, em São Paulo, trabalhou como sapateiro, vendedor de doces e feirante. Antes de, um dia, ter ganhado coragem para pedir um encontro com Chacrinha, numa viagem ao Rio de Janeiro em que, ao longo de uma semana, tentou, sem sucesso, promover as suas primeiras gravações. Explicou também à Band, na sua casa: “Roberto Leal foi [ideia d’] o meu professor de canto : ‘Você vai se chamar Leal’. Porque marcávamos à uma e eu chegava às 11 e meia e ficava dando volta para tocar na campainha da casa. ‘E Roberto porque você vai ser o Roberto Carlos dos portugueses. Roberto Leal, você aceita?’ Foi impressionante”, recordou, dias antes da sua morte. “O último resistente foi o meu pai: quando o meu pai me chamou de Roberto, acabou, morreu o António.”

Mais do que “dos portugueses”, Roberto Leal tornar-se-ia na voz de Portugal para muitos brasileiros. Logo depois da primeira participação no programa de Chacrinha, em 1973 editou o seu primeiro disco, Arrebita, e com ele teve o seu primeiro grande sucesso. Arrebenta a Festa, lançado em 2016, foi o último álbum de uma carreira com mais de três centenas de canções gravadas, 30 discos de ouro, cinco de platina e dois de diamante – e, ao todo, 17 milhões de discos vendidos.

A década de 1990 foi marcada por um outro pico de sucesso depois de os Mamonas Assassinas terem parodiado a sua canção A Festa Ainda Pode Ser Bonita no grande êxito Vira Vira. Roberto Leal não se zangou, viria aliás a cantar essa versão em homenagem à banda desaparecida num desastre de avião em 1996. “Quando os meninos estouraram com a música eu estava em Portugal. Todo mundo achava que ia ficar chateado, que [os] ia processar. Meus advogados falaram que ganharia um bom dinheiro”, contou à Caras brasileira. “Quando cheguei no Brasil vi o país todo cantando, meu próprio filho cantava. Eles me levaram para a nova geração, dando uma dimensão ainda maior do meu trabalho.” Tornaram-se amigos.

E ainda ontem, numa nota de pesar que partilhou nas redes sociais a propósito do desaparecimento de Roberto Leal, Bruno Nogueira recordava o que lhe disse um dia este “amigo que fez sem esperar” em Último a Sair: “Não imaginas a felicidade que é poder brincar com a imagem que as pessoas têm de mim”. E acrescentou, já nas suas palavras: “A mágoa do Roberto sempre foi sentir-se emigrante no Brasil e em Portugal. Hoje isso fica resolvido de uma vez por todas: o coração do Roberto Leal não cabe em dois países. E é uma pena ele não estar cá para ver isso”.

 

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