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40 anos SNS. Costantino Sakellarides: “Nunca será um sistema perfeito, mas quem não viveu não sabe como era antes”

40 anos SNS. Costantino Sakellarides: “Nunca será um sistema perfeito, mas quem não viveu não sabe como era antes”

Marta F. Reis 15/09/2019 14:05

Este domingo assinalam-se 40 anos da criação do Serviço Nacional de Saúde. Como era a saúde em 1979? Como está hoje? O i reuniu testemunhos que ajudam a recordar uma história que começa a desenhar-se antes do 25 de Abril e falam das preocupações do presente. Mais financiamento não chega, é preciso reformar um SNS que surgiu quando o país era jovem e a saúde era mais barata do que é hoje. 

Constantino Sakellarides recorda o espírito de mudança e a mobilização de uma geração de jovens médicos que havia no país depois do 25 de Abril, que acredita que contribuiu para a criação improvável do SNS num momento de crise económica. O Serviço Médico à Periferia (SMP) e a perceção dos profissionais e da população de que havia muito por fazer criaram um terreno fértil em que a determinação de figuras como António Arnaut acabou por ser decisiva, acredita. Depois de ter rumado aos EUA para um doutoramento em Saúde Pública, regressa a Portugal em 1975 e é o primeiro coordenador do SMP na zona Sul. “Sensibilizou os médicos para que havia um país para além dos grandes centros onde se estudava medicina e as pessoas começaram a receber cuidados médicos que não tinham e que julgavam normal não terem, o que, hoje, ainda é mais difícil de perceber”, recorda. “Quando passa a haver alguma coisa e depois surge o SNS, muda por completo a realidade e, 40 anos depois, perante as limitações, há o risco de se perder esta memória. O princípio na base do SNS de que cada um contribui de acordo com as suas possibilidades através dos impostos para receber cuidados gratuitos quando precisa é sempre uma utopia tendencial. Nunca será um sistema perfeito, mas quem não viveu o que havia antes não sabe como era. Uma unidade de saúde familiar, uma unidade de cuidados continuados, havendo ainda caminho a fazer, eram coisas que não existiam”. 

Os desafios de alargar a resposta eram claros desde o início. “Os anos 60, com dois choques petrolíferos e a economia mundial em crise, marcam o fim de 30 anos gloriosos do pós-guerra. Enquanto os países mais avançados fizeram as suas construções de proteção social nesses 30 anos de abundância, nós fomos obrigados a fazê-lo já no fim desse período, em plena crise, num período de pós-revolução. Com tudo o que trouxe de positivo, era também de grande tensão política. Se hoje temos dificuldades em continuar a financiar o SNS, apesar de já existir e de estarmos em crescimento económico, imagine-se o que era em 1978. Se fosse hoje, há dez anos ou há 20 anos, aparecer alguém a dizer que era um bom dia para fazer o SNS, mandavam-no correr como se fosse um louco varrido”, ironiza o antigo diretor-geral da Saúde, professor jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública. 

Sakellarides recorda a oposição política (PSD e CDS votaram contra a proposta de lei) e da Ordem dos Médicos, que propunha antes um sistema convencionado em que o Estado pagaria aos médicos para receberem os doentes. O modelo existia em países como Alemanha e França mas, para Sakellarides, Portugal não estaria preparado para o implementar numa altura em que era preciso organizar rapidamente um sistema que chegasse à população de todo o país, e acredita que o modelo seguido foi vital para os resultados alcançados em áreas como a saúde materna e a saúde cardiovascular. Hoje é preciso pensar o “SNS do futuro”, mas ainda não vê uma grande base de apoio para o que implicará tirar recursos dos hospitais e colocá-los na comunidade, e mais parcerias com o setor social. “Todos os atores pedem mais dinheiro, mais recursos, mais financiamento, mas a base social de apoio para fazer o que é necessário ainda é pequena. Precisamos de transformar um SNS que foi pensado para o país que éramos há 20 anos, um país jovem, para um SNS para um país envelhecido, que precisa de outra integração de cuidados, de articulação com o setor social, de dar resposta a pessoas que têm muitos problemas de saúde. Pôr mais recursos no SNS de 2010 não é boa ideia, temos de pôr mais recursos no SNS de 2025”.

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