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Gustavo Vidal. “Os refugiados sentem-se absolutamente perdidos”

Gustavo Vidal. “Os refugiados sentem-se absolutamente perdidos”

Maria Moreira Rato 15/09/2019 11:46

Nestes dois anos a lidar com refugiados tem presenciado dramas que não esquece. Como o caso de uma congolesa que o levou a chorar compulsivamente durante a consulta.

Deu os primeiros passos na Medicina antes de o saber: em criança, observava cuidadosamente a forma como o pai, médico de profissão, tratava e se relacionava com os pacientes. Passou pelos Centro Hospitalar do Algarve, Hospital Universitário de Coimbra e Hospital Pedro Hispano no Porto, contudo, a ambição de fazer parte de um grupo de resposta humanitária levou-o mais longe. “Um refugiado é alguém que deixou o seu país de origem por medo de ser perseguido devido à raça, religião, associação a determinado grupo social ou opinião política”: é desta forma que a Agência da ONU Para os Refugiados os descreve. Para Gustavo Vidal, jovem médico português de 31 anos, este conceito tornou-se comum há dois anos, quando se dedicou totalmente a uma causa: integrar a equipa dos Médicos Sem Fronteiras (MSF). Uma causa comum, mas não insignificante.

“Entre dois, entre três, entre muitos médicos bons, escolherei sempre aquele que tiver mais coração”. Acredita que esta citação do célebre neurologista italiano Paolo Mantegazza se adequa à Medicina, isto é, a sabedoria deve ser aliada à sensibilidade para que um médico concretize corretamente o seu trabalho?

Estou de acordo com a citação! A empatia é, a meu ver, essencial para um profissional de saúde que lide com pacientes. Muitas das vezes, mais do que máquinas de fazer diagnósticos, os doentes precisam de alguém que os ouça. A empatia é uma ferramenta essencial para estabelecer uma relação terapêutica.

Quando e como percebeu que abraçaria a Medicina como carreira? Constituiu uma decisão deliberada ou espontânea?

Foi uma mistura de ambas. Já desde pequeno que queria ser médico porque o meu pai também o era e tinha o consultório dele em nossa casa, portanto, desde cedo tive contacto com a Medicina. No entanto, pelo caminho surgiram dúvidas acerca se de facto era mesmo isto que queria fazer.

É médico de clínica geral no Centro Hospitalar do Algarve e coordenou as atividades dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) durante oito meses em Atenas e em Lesbos. Que outras experiências o marcaram mais?

É verdade que passei pelo Centro Hospitalar do Algarve, assim como pelo Hospital Universitário de Coimbra e pelo Hospital Pedro Hispano no Porto, mas desde há dois anos, estou dedicado a 100% a fazer missões com os MSF. Como médico, há sempre experiências que me marcam. Há doentes que me tocam, que nunca esquecerei.

“Quero falar com a Yasmin” é o código que as vítimas de violação usam para transmitir aos médicos aquilo que lhes acontece. Como aprendeu a lidar com este crime que se tornou tão comum em Lesbos?

Na verdade acho que nunca se aprende. A experiência na Grécia foi de facto bastante intensa no que toca a este tipo de casos. Casos de vítimas de tortura e de violações não são propriamente os clássicos de um médico em Portugal. “Quero falar com a Yasmin” não significa que as vítimas de abusos sexuais querem falar com uma médica: esta é uma espécie de palavra-chave que criámos para que quem sofreu não tivesse de dizer em voz alta “fui violada”. Deste modo, sabíamos de imediato que tínhamos de acionar ajudas médica e psicológica. Ouvir estas histórias é sempre árduo. E, na verdade, nunca se torna mais fácil. Aquilo que me ajuda é lembrar-me do motivo pelo qual estou a ouvir a história - porque posso ajudar. Até por vezes, para o doente, o simples facto de contar a sua história a um profissional que está disposto a ouvir, sem o julgar, constitui uma grande ajuda.

No campo de Moria deviam viver, no máximo, 3100 pessoas. No entanto acolhe, atualmente, 9500. Existe um duche para cada 200 pessoas ou uma sanita para cada 80. Que outras condições desumanas presenciou enquanto tentou auxiliar os refugiados?

O processo de asilo também é terrível. Os refugiados, por vezes, não têm informações sobre o funcionamento do mesmo - que é muito complexo - e sentem-se absolutamente perdidos. O facto de terem chegado à Grécia não significa que sejam aceites - há toda uma burocracia envolvida, que pode inclusive conduzir à deportação destas pessoas. E todo este processo pode levar mais de dois anos: dois anos naquele campo, naquelas condições, sem respostas (positivas ou negativas) leva qualquer ser humano ao desespero.

Os refugiados que chegam a Moria são oriundos, sobretudo, da Síria, do Afeganistão e do Iraque. Com eles, trazem histórias de vida marcantes mas, acima de tudo, pesadas. Que pessoas conheceu e nunca esquecerá?

Uma mulher afegã, viúva, vítima de guerra e violência e com cancro da mama avançado que conseguiu trazer as duas filhas por uma travessia extremamente difícil até à Europa para que estas possam ter uma vida melhor, passando por uma paciente congolesa - um dos piores casos psiquiátricos que vi - com uma das piores histórias de vida, que me levou a lágrimas compulsivas em plena consulta.

A Grécia superou o limite para receber refugiados. Qual será o futuro dos migrantes que tentam escapar para o país?

Infelizmente, para a grande parte dos migrantes que chegam à ilha, o futuro é uma grande incerteza. Há falta de informação a vários níveis: como se inicia o processo de asilo, como se desenrola o mesmo e quais as possibilidades de desfecho - muitos não fazem ideia e sentem-se completamente desamparados. Especialmente, aqueles que foram vítimas de violência e padecem de distúrbios psicológicos manifestam muita dificuldade em ter autonomia suficiente para o processo. Vimos, por exemplo, pessoas que ficaram mais de dois anos à espera de uma resposta, muitas das vezes, sendo deportados para o país onde foram vítimas de violência, tortura e abuso sexual.

De acordo com dados da ONU, divulgados em maio último, 450 venezuelanos entram no Brasil todos os dias. Desde 2017, 250 mil pediram asilo no país vizinho devido ao regime de Maduro. Boa Vista e Pacaraima, cidades do estado de Roraima, já acolheram mais de 6000 refugiados. Em que consistiu a sua missão no estado conhecido pela Floresta Amazónica?

A situação, com a migração venezuelana no Brasil está, de facto, a agravar-se. O primeiro passo foi realizar uma análise mais profunda das necessidades enquanto implementávamos algumas atividades relativas à promoção da saúde física e mental.

Quais foram os maiores obstáculos com que se deparou? 

Em retrospetiva, o maior obstáculo foi encontrar o lugar dos MSF na resposta humanitária. Ao implementar um projeto do zero, há que decidir, entre as muitas necessidades dos migrantes, quais destas são prioritárias definindo assim o espetro de ação da intervenção médica. E apesar de saturado, existia um sistema de saúde funcional, no Brasil, que responde e atende os migrantes e tivemos de o ter conta para a colaboração que acabou por funcionar como complementar.

O que aprendeu acerca do ser humano?

O que mais me marcou, em Roraima, foi a resiliência humana. Foi incrível conhecer e ouvir histórias de pessoas que, apesar das múltiplas dificuldades e obstáculos que enfrentaram (e continuam a enfrentar), seguem a lutar pela vida com uma força imensa. Passam fome, têm falta de medicamentos vitais básicos, sofrem com os laços familiares quebrados e veem o seu país, que lhes é muito querido, a deteriorar a cada dia, porém, continuam com esperança de que o panorama melhore.

O mundo está em constante crise humanitária. A guerra da Síria, o nível de fome incontrolável no Iémen ou a perseguição do povo rohingya na Birmânia são apenas exemplos dos flagelos vividos. Que papel devem os médicos desempenhar em momentos de conflito e tensão como estes?

De facto, no mundo têm surgido crises humanitárias, cada vez mais complexas, influenciadas também por políticas cada vez mais complexas. Pelo quinto ano consecutivo, atingiu-se o recorde no número de migrantes circulantes. Os médicos dedicam as suas vidas a servir aqueles que mais necessitam - sendo que estas populações, por motivos óbvios, são especialmente vulneráveis.

O ciclone Idai afetou a África do Sul, Moçambique, o Malawi e o Zimbabué. De acordo com números oficiais, matou pelo menos 732 pessoas. No entanto, o que é que foi possível fazer por quem não perdeu a vida e tentava sobreviver à calamidade?

Depois da destruição de cerca de 90% da cidade, as necessidades dos sobreviventes eram imensas - desde abrigo, acesso a comida e água potável, itens básicos de higiene até cuidados de saúde. A resposta humanitária de socorro pós-ciclone tinha que ser multidisciplinar para cobrir todas as necessidades.

Segundo números divulgados pela UNICEF, até 30 de maio deste ano, quase dois milhões de pessoas necessitaram de ajuda humanitária, mais de 239 mil casas ficaram destruídas, quase 7000 casos de cólera foram detetados e 54 centros de saúde foram danificados. Quais foram as necessidades mais imediatas que detetou após o ciclone?

Todas as necessidades que punham em risco a vida das pessoas foram consideradas prioridade - a nutrição e acesso a cuidados de saúde foram talvez as mais urgentes. A resposta à epidemia de cólera foi considerada a prioridade no campo de ação dos MSF devido ao seu potencial enorme de mortalidade. Tratando-se de uma doença com risco de morte até 50% se não tratada, numa população de meio milhão de habitantes, a falta de intervenção a este nível poderia ser catastrófico.

Por outro lado, existem dados animadores: mais de um milhão receberam água potável, 980 mil crianças foram vacinadas e 95 mil estão a ter acesso a educação de qualidade...

Os MSF tiveram, na minha opinião, um papel crucial na resposta de emergência. O principal foco foi responder à epidemia de cólera, no entanto, responderam a variados níveis com estratégias preventivas de transmissão através de promoção da saúde nas comunidades, com a (re)construção de infraestruturas médicas e implementação de centros de tratamento de cólera especializados, suporte com pessoal de saúde, vacinação contra a cólera, implementação de estações de agua potável para servir a população, etc.

O que falta fazer em Moçambique para que os resquícios do Idai sejam mitigados?

Considerando que mesmo antes do ciclone, metade da população vivia abaixo do limite de pobreza, significa que já existiam varias carências que foram agravadas. O ciclone trouxe danos de bens materiais, habitações, infraestruturas de transportes, agricultura, de escolas, hospitais e centros de saúde. Continuará a ter um grande impacto na população da cidade da Beira. A ajuda humanitária deve continuar não somente após o estado de emergência, mas sim assumir um lugar fundamental naquilo que diz respeito ao apoio para a reconstrução e restabelecimento da cidade.

Para lá da Medicina, quem é o Gustavo Vidal?

O Gustavo Vidal, é bastante mais que um médico! Os ingleses têm uma citação com a qual me identifico bastante: “Jack of all trades, master of none”. De facto, tenho vários interesses que transcendem a Medicina, interesses que gosto de explorar nos meus tempos livres.

Qual é o seu próximo objetivo em termos profissionais?

Pretendo desenvolver as minhas capacidades em gestão e saúde pública. Desde que comecei a carreira com os MSF, fui colocado à prova com posições de gestão e liderança e, talvez, uma educação formal neste sentido poderá constituir uma mais-valia para a minha carreira no setor humanitário.

Na versão mais recente do célebre Juramento de Hipócrates, pode ler-se: “Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da humanidade”. Pode dizer-se que acima de uma promessa é, também, o seu lema de vida?

É um dos meus lemas. Mesmo quando não estou a exercer a minha atividade profissional, tento sempre ter consciência das minhas ações e empenho-me para que estas tenham um impacto positivo no mundo que me rodeia.

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