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40 anos SNS. Ana Jorge: "Havia uma enfermaria só dedicada às gastroenterites e desnutrição"

40 anos SNS. Ana Jorge: "Havia uma enfermaria só dedicada às gastroenterites e desnutrição"

Diana tInoco Marta F. Reis 15/09/2019 09:49

Este domingo assinalam-se 40 anos da criação do Serviço Nacional de Saúde. Como era a saúde em 1979? Como está hoje? O i reuniu testemunhos que ajudam a recordar uma história que começa a desenhar-se antes do 25 de Abril e falam das preocupações do presente. Mais financiamento não chega, é preciso reformar um SNS que surgiu quando o país era jovem e a saúde era mais barata do que é hoje. 
 

Em 1979, Ana Jorge estava no segundo ano do internato de pediatria no Hospital Dona Estefânia e trabalhava também na saúde escolar, num centro de saúde em Caneças. “Era uma grande esperança podermos ter um SNS. Na altura sentia que muitas das crianças que via no hospital não tinham acesso a tudo o que necessitavam. Quando era preciso fazer exames complementares de diagnóstico ou medicamentos, quem não tinha acesso à Caixa de Previdência tinha de os pagar do seu bolso”. 

As carências eram grandes, recorda a médica e ex-ministra da Saúde. “Em Caneças via crianças que nunca tinham sido observadas por um médico, muitas não eram vacinadas, com problemas de higiene graves, muitas cáries, mal alimentadas”. Depois dos esforços nos anos anteriores, a mortalidade materna e infantil começava a baixar - o Programa Nacional de Vacinação foi criado em 1965 e em 1974 foi incluída a vacina do sarampo - mas Portugal continuava a ter piores indicadores do que a maioria dos países europeu. Ana Jorge sublinha que a redução das mortes e a eliminação de doenças como o sarampo, com grande surtos no final dos anos 80, são das maiores conquistas. ”Quando entrei na Estefânia, em 1978, ainda havia uma enfermaria só dedicada a gastroenterites e desnutrição, que fechou uns anos depois. Havia claramente um problema que estava relacionado com as más condições de vida, com a má alimentação, mas também com a falta de assistência. Se a realidade começou a mudar com os centros de saúde de primeira geração, mudou decisivamente com a criação do SNS”. 

Como todos os médicos da sua geração, o Serviço Médico à Periferia permitiu-lhe ter noção direta dos problemas do país. Ana Jorge tinha passado por Alcácer do Sal. “Pela primeira vez havia gente que tinha alguém que lhe medisse a tensão, que auscultasse, que tinha um médico a quem contar as suas maleitas. Aquele ditado do ‘vão-se os anéis, ficam os dedos’ era bem verdade. As pessoas que não tinham acesso à Caixa de Previdência tinham as suas economias e, quando não as tinham, tinham de vender bens para ter consultas. Não havia programas de saúde, não havia vigilância maternoinfantil”. 

Passados 40 anos, vê desafios, mas acredita que é preciso não esquecer o que se avançou. “Passados 40 anos, quem não viveu esses anos acha que isto foi sempre assim. Claro que as coisas podiam estar melhor mas, do ponto de vista dos cuidados primários, está muito melhor e a reforma das Unidades de Saúde Familiar veio trazer um novo impulso”. O principal desafio, acredita, é manter o investimento e conseguir reter e motivar os profissionais de saúde. “Hoje, a saúde é muito cara e exige uma permanente atualização, quer em recursos humanos quer em tecnologia. O grande setor privado investe muito na área hospitalar e de uma forma cada vez mais diferenciada, e veio desequilibrar o sistema. Sem regulação, retira profissionais, diferenciação, capacidade de intervenção, e um serviço público, para ser forte, não pode ficar só com as coisas de ponta e complexas que o privado não faz”.

 

 

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