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Famalicão. Como se o céu não pudesse ficar demasiado azul...

Famalicão. Como se o céu não pudesse ficar demasiado azul...

Afonso De Melo 12/09/2019 19:28

No dia 30 de junho de 1946, o Famalicão bateu o Boavista por 3-2 na Póvoa de Varzim e tornou-se o segundo clube do Minho a atingir a i Divisão. Álvaro Pereira, Gita, Sansão e Tellechea eram os heróis da equipa de János Szabó

Admita-se: só estão decorridas quatro jornadas. Confirme-se: o Famalicão vai na frente, isolado, com três vitórias e um empate. Vale o que vale? Isso! Para as gentes de Famalicão, vale muito. Afinal, esperaram anos a fio por um momento de reconhecimento como este. É justo, o esquecimento? Talvez não seja. Há sempre um motivo para trazer os clubes menos vistosos para as páginas dos jornais, como agora acontece. E mereciam estar nelas mais vezes porque são eles, afinal, a base de um universo que depois conflui na intocabilidade dos grandes.

O Futebol Clube Famalicão é um clube que vem do início dos anos 30 – foi fundado a 21 de agosto de 1931 – e soma a sua sétima presença na i Divisão. Mas algo serve para dar patina à sua história: é que chegou ao topo do futebol português em 1946. Subiu e desceu: sete vitórias, três empates, 16 derrotas, penúltimo da geral, só acima da Sanjoanense. Mas o Campo do Freião, onde jogava na altura, foi palco de alguns momentos memoráveis, a rebentar pelas costuras com mais de cinco mil testemunhas. Um deles meteu mesmo uma vitória frente ao FC Porto, por 2-1. E o Sporting dos Cinco Violinos também não viveu em Famalicão momentos fáceis.

Mas eu queria ir um pouco mais atrás, se me dão licença. Queria ir até ao dia 30 de junho de 1946 e à Póvoa de Varzim. A esse dia mágico em que os famalicenses garantiram a primeira das subidas.

Cinco anos antes tinha chegado um jogador húngaro de nome János Szabó. Houve vários Szabó em Portugal, num tempo em que a ii Guerra Mundial os fazia fugir do centro da Europa e procurar a paz dos países marginais. Este foi especial. Era professor de ginástica, tal como Guttmann, por exemplo, foi professor de dança, e não tardou a perceber-se que teria também de tomar posição nas determinações técnicas da equipa. No dia 30 de junho estava no banco do Estádio Gomes de Amorim, na Póvoa, comandando o Famalicão contra o Boavista na luta pela subida à i Divisão.

O jogo foi de uma emoção extraordinária, mas não entremos em suspenses próprios de Alfred, Alfred Hitchcock.

O Famalicão ganhou por 3-2.

Mas isso já o paciente leitor sabia.

Heróis! Szabó alinhou assim a equipa: Sansão; Meireles e Cerqueira; Ferrão, Armando e Tellechea; Mendes, Pires, Álvaro Pereira, Sampaio e Gita.

Sansão! Mas alguém pode ter um guarda-redes mais sonoro do que Sansão?!

Com Sansão à baliza, tudo é possível! E Tellechea? Oscar Eduardo Tellechea, nascido em La Plata, na Argentina, vindo de França para o Porto, para o Académico, passando pelo Belenenses, o clube de todos os argentinos, mais tarde um treinador de truz, sobretudo em Coimbra, na Académica.

Há nervosismo de parte a parte.

Mas era o Famalicão que precisava da vitória.

O Boavista tinha o seu lugar garantido.

Aos 26 minutos de uma luta intensa, Mendes foge pela direita, tem um cruzamento bem medido, apanha Álvaro Pereira na frente de Oscar, keeper dos de xadrez. A cabeçada é forte, indefensável!

A festa fica azul.

Ninguém consegue tirar os olhos do retângulo do jogo.

Antes do intervalo, uma sucessão de passes desenhados à húngara, como era costume dizer-se, permite a Gita o 2-0. As equipas saem para o descanso. Os adeptos minhotos estão convencidos de que a vitória não lhes fugirá.

O Boavista tem uma linha avançada de qualidade: Zeca, Armando, Rui, Caiado e Barros.

Zeca, mal estão decorridos cinco minutos da segunda parte, reduz.

Há quem roa as unhas, exasperado.

Caiado, o grande Fernando Caiado, que se tornaria figura grada no Benfica, remata de muito longe. Sansão voa, mas os seus braços são apenas asas que um deus menor não completou. De nada serve o voo. O Boavista empata.

No minuto seguinte, Álvaro Pereira vai pelo campo fora, sozinho. Parece que ouviu uma voz que lhe ordenava o risco, a valentia. Passa por dois adversários, dribla Oscar, chuta para a baliza vazia. Golo! Golo! Golo!

O tempo corre para o minuto número 90.

O público famalicense esvai-se numa alegria imensa, total.

A sua equipa não tardará a bater-se com os melhores.

Depois do Vitória de Guimarães, o Famalicão tornava-se o segundo clube do Minho a chegar à i Divisão. Iria atingir igualmente as meias-finais da Taça de Portugal, perdidas para o Sporting por 0-11. Ah! Mas que ninguém se esqueça...

 

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