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Robert Frank. “Morreu talvez o maior fotógrafo do século XX”

Robert Frank. “Morreu talvez o maior fotógrafo do século XX”

José Cabrita Saraiva 11/09/2019 13:35

Amigo de Kerouac e dos poetas da geração beat, Robert Frank era uma figura mítica do meio artístico norte-americano. O seu livro The Americans gerou rejeição e abalou consciências nos EUA, mas trouxe um novo olhar para a fotografia. Ao i, Albano Silva Pereira, que trouxe Frank a Portugal, recorda uma amizade de três décadas e a personalidade única do grande fotógrafo que desapareceu esta segunda-feira.

Nos últimos anos estava já debilitado e com problemas de mobilidade. Mas gostava de descer as escadas, sair de casa e sentar-se numa cadeira de costas para a porta verde do n.º 7 de Bleecker Street. A sua vida dividia-se entre esse apartamento em Manhattan e uma casa de pescadores em Mabou, na ilha de Cap Breton, Canadá, que adquiriu em 1970. Foi num hospital dessa ilha que Robert Frank, unanimemente considerado um dos fotógrafos mais influentes do século XX, faleceu esta segunda-feira, aos 94 anos.

Albano Silva Pereira, fotógrafo e diretor do Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, privou com Frank ao longo de cerca de três décadas e não ficou surpreendido com a notícia. “Já esperava. A última vez que estive com ele já estava com perda de memória, muito debilitado, cheio de problemas de saúde”, recorda. Mas nem por isso a perda é sentida com menor intensidade. “É terrível, porque ele era seguramente o meu maior amigo. Devo dizer que o Frank me impressionava bastante mais como homem do que enquanto artista. Evidentemente estão ligados – e uma das qualidades dele é a unidade perfeita entre o homem e o artista – mas comigo foi de uma generosidade brutal”, refere o amigo.

Filho de um grande comerciante fascinado pela fotografia, Robert Frank nasceu a 9 de Novembro de 1924 em Zurique. Aos 22 anos, impaciente com aquilo que considerava ser a ‘tacanhez’ do seu país natal em matéria artística, trocou a Suíça pelos Estados Unidos. Passou pela revista Harper’s Bazaar (a fotografar sapatos e outros acessórios de moda) e trabalhou durante dez anos para revistas sobretudo femininas, não deixando ainda assim de viajar, quer na América quer na Europa. E acabaria por perceber que as suas aspirações eram outras. Recomendado por importantes figuras desse meio, recebeu em 1955 uma bolsa Guggenheim, que lhe permitiu fazer-se à estrada e explorar o grande continente norte-americano. Ao volante de um Ford, percorreu mais de 16 mil quilómetros e fez aproximadamente 27 mil disparos. Daí resultaria o mítico livro The Americans, de 1958, primeiro publicado em França com ensaios de autores franceses e só depois nos Estados Unidos. A edição americana (1959), embora fosse purgada dos textos, continha um prefácio de nada menos do que Jack Kerouac, que acabara de publicar Pela Estrada Fora dois anos antes.

Kerouac considerou-as “tremendas” mas as imagens a preto e branco de Frank provocaram fortes sentimentos de rejeição. De facto, ninguém estava habituado a ver imagens com aquele grau de crueza, sem retoques, tão espontâneas que quase pareciam improvisadas. A América não gostou de se ver ao espelho.

Ainda no final da década de 50 Frank fez o primeiro de vários filmes, a adaptação de uma peça de teatro de Kerouac, de quem entretanto se tornara amigo. E logo em 1960 formou, com vários realizadores ‘rebeldes’, o New American Cinema Group, dedicado ao cinema experimental.

Impressionados com o seu trabalho, em 1972, os Rolling Stones encomendaram-lhe um documentário sobre a digressão da banda nos EUA, dando-lhe acesso ilimitado aos bastidores e às festas. Mick Jagger achou o filme brilhante, mas impediu a sua exibição, pois mostrava momentos verdadeiramente comprometedores, como o vocalista a consumir cocaína ou um grupo de fãs a injetar-se.

Por essa altura, surgiu também a primeira tragédia na vida do fotógrafo e realizador, a morte da sua filha Andrea num acidente de avião na Guatemala em 1974. Vinte anos mais tarde seria a vez do seu outro filho, Pablo, morrer na sequência de problemas com drogas.

À medida que o interesse pela sua obra fotográfica e cinematográfica aumentava nas décadas de 70 e 80, Robert Frank tornava-se cada vez mais esquivo. Albano Silva Pereira, que o descobrira através de dois filmes, assim que começou a dirigir os Encontros de Fotografia, em Coimbra, quis mostrá-lo em Portugal. “Tenha o dinheiro que tiver, é muito complicado fazer uma exposição do Frank. Na altura, muita gente pensava que ele tinha morrido, o acesso a ele era muito complicado, e quase não havia material porque ele tinha uma filosofia relativamente restrita da edição das fotografias”, recorda o diretor do CAV. “Era uma, duas... três já era uma loucura”. Ainda assim, Albano obteve o número de telefone através de um amigo comum, o fotógrafo Duane Michals, e tentou a sua sorte. “Andei um ano a falar com ele ao telefone. E um dia recebo uma carta em que ele diz isto: ‘Não sei porque é que vou fazer esta exposição, mas tu soas-me bem. Vou-te mandar trinta e tal fotografias pelo correio. Tem cuidado que são as únicas que consegui reunir cá em casa’. Passados uns 15, 20 dias, o correio entrega-me uma caixa 50x60 da Kodak com 45 vintages dele. Sem seguro nem nada! Há fotografias que vieram nesse portfolio que foram licitadas na Christie’s por 624 mil dólares!”.

A exposição realizou-se em 1987, na Casa das Caldeiras, em Coimbra.

“Quando ele entrou, praticamente chorou”, recorda Albano. “‘Esta é a maior exposição que alguém fez do meu trabalho’. E ainda há pouco tempo, sempre que me apresentava a alguém, dizia: ‘O Albano fez a melhor exposição da minha vida’. Um homem que fez exposições no Metropolitan e em algumas das maiores instituições mundiais”.

Precisamente na exposição organizada pelo Metropolitan em 2010, Frank mostrou a sua personalidade peculiar. “Numa exposição destas, há sempre uma cerimónia de gala, com jantar. O Frank não foi ao jantar, preferiu ir jantar com os amigos”.

Embora tivesse as portas dos maiores museus abertas e fosse considerado quase um mito, Frank nunca procurou a celebridade nem o dinheiro. “Se ele quisesse podia ser multimilionário, bastava editar uma série de fotografias mais. Mas não queria. Vivia numa casa de madeira na Nova Escócia, e a de Bleecker Street é também austera”.

“Obviamente sinto uma grande tristeza”, continua Albano, “mas também uma grande felicidade porque tive o privilégio de ser um dos maiores amigos dele. Ele tratava-me como um filho, conhecia todos os meus problemas, e ligava-me, estávamos sistematicamente em contacto”.

Profundo conhecedor do panorama da fotografia contemporânea, Albano Silva Pereira vê em Frank um verdadeiro gigante desta arte. “É evidente que sou suspeito, mas, de uma forma muito fria, morreu talvez o maior fotógrafo do século XX. As fotografias dele estavam impregnadas de vida, de autenticidade, de verdade e de poesia. É um autor absolutamente único na história da fotografia contemporânea”, conclui.

 

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