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Leitor de BD. Negrume na linha clara

Leitor de BD. Negrume na linha clara

Ricardo António Alves 10/09/2019 00:03

Depois de Tintim, o outro grande ícone belga da BD é Spirou, um adolescente, groom do Moustic Hotel. Criado em 1938 por Rob Vel (1909-1991) para a revista que leva o seu nome e ainda hoje se publica, tem pontos de contacto com a personagem de Hergé: jovens que vão amadurecendo impercetivelmente, guiados por um sentido de justiça e pelo companheirismo. Há uma mascote, o esquilo Spip; um amigo dileto, Fantásio, jornalista; um sábio, o conde de Champignac; só não há Dupond & Dupont mas, em contrapartida, uma criatura igualmente esquipática: o Marsupilami. Enquanto Tintim, porém, não teve continuidade, por vontade de Hergé, para Spirou trabalharam muitos artistas, sendo o mais notável André Franquin (1924-1997). A série foi entretanto confiada a diversos autores; um deles, Émile Bravo (Paris, 1964), tem em curso de publicação uma extensa narrativa de quatro tomos, L’Espoir Malgré Tout / A Esperança Apesar de Tudo, continuando a inicial e brilhante incursão do autor nas aventuras do nosso herói, em Le Journal d’un Ingénu (2008).

O primeiro volume, Un Mauvais Départ, coloca-nos em Bruxelas, em janeiro de 1940, meses antes da invasão da Bélgica. Spirou, muito novo mas com uma experiência de vida difícil, é uma personalidade forte, com dúvidas, paixões e uma candura própria da idade, contornada pela inteligência. Um dos motores da narrativa é a sua paixão por uma jovem comunista judia-alemã do Komintern, de quem recebe uma carta inquietante – a História a desenrolar-se ao lado da vida, e a colher as suas vítimas.

Se Spirou representa a ética em tempos bárbaros, Fantásio aparece-nos como um indiferente e apatetado homem da rua, o que significa uma desvalorização da personagem como a conhecíamos. O jornalista, originalmente, é um obsessivo hiperativo, o complemento de Spirou, tal como Haddock o é de Tintim; mas, como Bravo de alguma forma refunda a série, é possível que Fantásio evolua com as provações da guerra. A trama é, de resto, muito rica e claramente escrita para os confusos dias de hoje.

Bravo tinha duas dificuldades de monta nesta abordagem vincadamente autoral: a primeira é a de se defrontar com um clássico; a outra, a compatibilização do fundo humorístico de Spirou com refugiados de guerra e crianças com fome. O que pareceria uma missão impossível é plenamente conseguido à custa, claro, do pobre Fantásio, a que se juntam, hilariantes, separatistas flamengos, vizinhos franceses, escuteiros católicos, colaboracionistas… estes, geralmente representados em tom cinzento, enquanto os nazis estão de negro carregado, em (im)pura linha clara.

 

Nota – Agradecemos ao leitor atento o alerta para um lapso sobre o Batman na última “BDteca”: onde está Neil Gaiman deve ler-se, obviamente, Neal Adams.

L’Espoir Malgré Tout - Vol. I

Texto e Desenho Émile Bravo

Editora Dupuis, Bruxelas, 2018

 

Oh, as casas

A nossa casa é, idealmente, o lugar por excelência onde melhor nos sentimos, refúgio, castelo, recinto privilegiado em que assistimos ao desenrolar das vidas dos que nos são próximos. Um edifício abandonado ou em ruínas confronta-nos desapiedadamente com vida vivida, para sempre desaparecida ali e, por consequência, com a melancolia da finitude. É sobre isto que nos fala The Building (O Edifício, na tradução brasileira), de Will Eisner (1917-2005), dos autores mais talentosos que a BD já conheceu, criador do Spirit e um dos pioneiros da graphic novel.

O Edifício é uma história sobre um prédio nova-iorquino, situado no cruzamento de duas avenidas, que albergou dezenas de famílias e indivíduos ao longo de décadas, silenciosa testemunha de outras tantas existências. Uma epígrafe inicial de John Ruskin dá o tom: “Os edifícios antigos não nos pertencem. Em parte são propriedade daqueles que os construíram; em parte das gerações que estão por vir. Os mortos ainda têm direitos sobre eles: aquilo por que se empenharam, não cabe a nós tomar”. 

Com o desenho singular que o caracteriza, o tratamento opulento da prancha como vinheta isolada ou superfície única para várias vinhetas, com ou sem cercadura, Eisner consegue o pleno na arte combinatória da novela gráfica. 

 

O Edifício

Texto e Desenhos Will Eisner

Editora Editora Abril, São Paulo, 1987

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