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Vespa-asiática. Não há adrenalina nas ambulâncias mais comuns

Vespa-asiática. Não há adrenalina nas ambulâncias mais comuns

Dreamstime Rita Pereira Carvalho 09/09/2019 20:13

A adrenalina microdoseada reverte os efeitos da alergia provocada pela picada da vespa-asiática ou das abelhas. No entanto, as ambulâncias dos bombeiros e de suporte básico de vida do INEM não têm adrenalina microdoseada.

A vespa-asiática está a espalhar-se pelo país e, com isso, as probabilidades de alguém ser picado aumentam. Caso uma pessoa seja picada por uma vespa-asiática, ou simplesmente por uma abelha, e seja alérgica, o cenário pode ser complicado, mesmo que chame uma ambulância. É que uma picada numa pessoa alérgica pode ser fatal e nem as ambulâncias dos bombeiros nem as do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) de suporte básico de vida dispõem de adrenalina microdoseada – a denúncia foi feita ao i pela Associação de Proteção e Socorro (Aprosoc).

João Paulo Saraiva, presidente da Aprosoc, explicou que “os meios que têm adrenalina a bordo são as ambulâncias de suporte imediato de vida do INEM e as viaturas médicas de reanimação”, acrescentando que “os meios que respondem às situações de picadas de vespa ou abelha, normalmente, são as ambulâncias dos bombeiros e as ambulâncias de emergência do INEM – não as de suporte imediato de vida, mas as de suporte básico de vida –, ou seja, os meios que estão em maior número e que não dispõem de adrenalina microdoseada”.

A alergia às picadas manifesta-se através de edema da epiglote – inchaço na garganta que dificulta a respiração – e essa situação só é revertida através da administração de adrenalina, só podendo a adrenalina ser administrada por um médico ou enfermeiro. “Contudo, existe uma formula de adrenalina microdoseada – a Anapen e a Edipen – que pode ser usada por qualquer pessoa, tanto que as pessoas que sabem que são alérgicas são, normalmente, portadoras dessa caneta injetora de adrenalina microdoseada”, explicou a Aprosoc. São essas canetas que faltam nas ambulâncias que mais vezes são chamadas.

No mês de agosto, um homem de 79 anos morreu, em Oliveira do Bairro, depois de várias picadas de vespa-asiática. Apesar de os bombeiros terem sido chamados ao local, o homem entrou em paragem cardiorrespiratória e acabou por não resistir, morrendo no local. No mês passado, no espaço de dois dias morreram duas pessoas devido à picada de insetos. O outro caso ocorreu em Cantanhede, mas não foi possível verificar se as picadas que provocaram a morte eram de abelha ou de vespa-asiática – ambas foram encontradas no local junto ao corpo.

Nos dois episódios, o socorro não foi suficiente e as vítimas não resistiram. João Paulo Saraiva falou deste dois casos e referiu que, na altura, se levantaram questões sobre o tipo de ambulância que chegou ao local. “Aparentemente, a ambulância que chegou ao local era uma ambulância de emergência médica e não uma ambulância de suporte imediato de vida”, referiu. Ou seja, não dispunha de adrenalina microdoseada.

“No interior do país, quando uma ambulância de suporte básico de vida identifica uma situação destas no local, não é fácil uma viatura médica e uma ambulância de suporte imediato de vida chegarem a tempo de salvar vidas”, acrescentou.

O i tentou contactar o INEM para mais esclarecimentos mas, até à hora de fecho desta edição, não foi possível obter qualquer resposta.

Vespa em expansão nas zonas urbanas A vespa-asiática, ou Vespa velutina, já chegou a Lisboa e obrigou ao fecho de dois jardins durante três dias para destruir um ninho. E, para mal dos apicultores algarvios, o sul do país poderá não escapar a este inseto carnívoro e predador das abelhas e de outros insetos que pode, além disso, colocar em causa o futuro da polinização e da produção de mel.

Em 2011, a Vespa velutina entrou em Portugal e foi avistada pela primeira vez no distrito de Viana do Castelo. Desde essa altura tem-se deslocado para sul e para agora em Lisboa. João Branco, da Quercus, explicou ao i que, neste momento, a vespa-asiática está por todo o lado e, “como tudo o que não é atacado no início, verificou-se uma expansão descontrolada”. Para o ambientalista, “há uma tendência para a Vespa velutina também começar a invadir áreas urbanas”. “Está a haver uma grande expansão de ninhos de vespas nas cidades maiores”, explicou João Branco, acrescentando que, normalmente, os ninhos são feitos nos beirais das casas, nas varandas ou até mesmo nas janelas, e as pessoas acabam por detetar os ninhos mais facilmente. Aliás, de acordo com os dados disponíveis no site do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), as vespas-asiáticas têm preferência por sítios mais altos para construir os seus ninhos, como árvores e edifícios. Um em cada dez ninhos é construído em edifícios e, em 73% das vezes, as vespas escolhem árvores com altura superior a dez metros.

João Branco defende que os planos de ação contra a vespa-asiática deveriam ter sido colocados em prática logo em 2011. Isso não aconteceu e o responsável da Quercus garantiu que até há relativamente “pouco tempo havia um plano de ação contra a Vespa velutina, mas que não tinha sido colocado em prática”. Para a Quercus, o sistema de combate tem sido feito pelos mínimos. Aliás, a associação ambientalista já denunciou vários casos em que “as pessoas alertam para a existência de vespas-asiáticas e a Proteção Civil cobra para ir lá tirar os ninhos”.

Os valores rondam entre 100 e 150 euros e, por serem elevados, normalmente existem duas opções, diz a Quercus: ou as pessoas tiram elas mesmas os ninhos – e aí não cumprem os requisitos de segurança nem eliminam todas as vespas-asiáticas – ou deixam os ninhos “até as vespas os abandonarem, conforme o seu ciclo normal”. Por ser uma espécie invasora, o combate devia ser prioritário, mas o facto “de as autoridades cobrarem aos cidadãos para ir tirar os ninhos não favorece o combate à vespa”.

Tirar os ninhos é sempre a opção mais económica e há cada vez mais quem use armadilhas feitas em casa para matar as vespas-asiáticas. Cerveja, quilos de açúcar ou néctar de pera dentro de uma garrafa de plástico são alguns exemplos. O procedimento é simples e basta uma rápida pesquisa pela internet para encontrar receitas e vídeos explicativos que ensinam a fazer uma armadilha: a Vespa velutina é atraída pelo cheiro das armadilhas e acaba por cair e morrer afogada. Mas este é também um grande problema, porque “essas armadilhas não são seletivas”, explicou João Branco. As armadilhas matam vespas-asiáticas, abelhas e todos os insetos que passarem por perto e sentirem o cheiro das garrafas de plástico.

Vespa-asiática não é muito perigosa? É uma espécie para eliminar, mas não deve ser encarada com medo. Dizem os apicultores que a Vespa velutina só é perigosa para as pessoas caso se sintam ameaçadas. Isto é, se alguém tentar destruir um ninho de vespas sem as devidas precauções, as vespas-asiáticas podem atacar – esta é a explicação que Alcides Martins, da Sociedade dos Apicultores de Portugal (SAP), deu ao i. A não ser que as vespas sejam provocadas, elas não se tornam agressivas sem motivo e não são mais agressivas do que as vespas europeias. Esta é, aliás, a explicação dada pelo ICNF: “Embora não sendo individualmente mais agressiva para o ser humano do que a vespa-europeia, reage de forma bastante agressiva às ameaças ao seu ninho”.

“O único perigo que há é quando mexemos no ninho e, por exemplo, se apertarmos o ninho, ela torna-se agressiva”, disse Alcides Martins, acrescentando que “para a vivência normal, não há qualquer tipo de perigo”.

Enquanto apicultor, Alcides Martins explicou também que a presença das vespas-asiáticas nas cidades pode representar um perigo maior, porque a probabilidade de alguém mexer nos ninhos é maior. “Instalam-se em sótãos, varandas e, nesses casos, as pessoas vão mexer e as vespas podem tornar-se agressivas”, adiantou o membro da Sociedade dos Apicultores de Portugal.

Tecnologia para acabar com a espécie predadora Objetivo: travar a ameaça. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) criou o projeto GoVespa, no âmbito do qual os investigadores estão a estudar “a aplicação de novas tecnologias que permitam seguir o voo das vespas até ao ninho” para o monitorizar e avaliar a melhor forma de o destruir, diz a universidade em comunicado.

Capturar as vespas vivas “sem as ferir” e colocar-lhes um microtransmissor no dorso são as primeiras etapas do procedimento. Depois, as vespas-asiáticas são devolvidas à natureza e é possível filmar, fotografar o ninho e conseguir saber se existem ninhos secundários – os mais difíceis de detetar até agora.

Além do microtransmissor no dorso da vespa, os investigadores querem utilizar também “uma câmara instalada a bordo de um veículo aéreo não tripulado”.

Como garantem os apicultores, esta não é uma espécie agressiva, mas está a preocupar a comunidade cientifica por causa da velocidade de propagação.

Estima-se que o projeto inovador da UTAD, ainda em fase de testes, precise de um investimento de mais de 20 mil euros – cada sensor, ou microtransmissor, tem o custo de cerca de um euro, mas o sistema de monitorização fica nos 20 mil euros.

A próxima fase do projeto será terminar a fase de testes e apresentar os resultados ao ICNF e a outras entidades para que seja possível conseguir financiamento.

Espécies Invasoras

Vespa-asiática

De patas amarelas, com uma faixa laranja na barriga, e predominantemente preta, a Vespa velutina chegou em 2011 a Portugal, mas a sua história no mundo começa muito antes. A espécie não indígena nasceu nas regiões tropicais e subtropicais do norte da Índia, do leste da China, do arquipélago da Indonésia e da Indochina. Há 15 anos chegou à Europa e foi avistada a voar em território francês. Em 2010, a vespa-asiática saltou para Espanha e logo depois foi detetada em Portugal e na Bélgica. Em 2012, já na reta final do ano, a vespa deslocou-se até Itália. É uma espécie invasora, carnívora e predadora para as abelhas e restantes insetos, já que a Vespa velutina se alimenta de pequenos insetos.

Escaravelho da palmeira

Além das vespas que ameaçam as abelhas, a polinização e a produção de mel, o escaravelho-vermelho, conhecido como escaravelho das palmeiras, chegou em 2007 a Portugal e já destruiu grande parte das palmeiras-das-canárias do país. Aliás, em 2014, a residência oficial de Passos Coelho foi invadida pelo escaravelho-vermelho e 13 palmeiras do Palácio Nacional de São Bento foram cortadas. De norte a sul, esta é uma praga que se revelou incontrolável. As palmeiras ficam com as folhas secas e acabam por morrer. Nem o Jardim Botânico de Lisboa ficou a salvo. O escaravelho-vermelho ataca 23 espécies de palmeiras, encontrando-se cinco delas em Portugal.Vespa-asiática

 

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