22/9/19
 
 
Manuel J. Guerreiro 09/09/2019
Manuel J. Guerreiro

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A história do Capuchinho Laranja e o Coelho Mau

Era uma vez um “Capuchinho Laranja” que, tal como muitos outros dos seus amiguinhos, por nunca terem sido vermelhos nem por eles bem vistos ou aceites nos seus grupos políticos já constituídos antes do 25 de Abril de 1974, aderiu e ajudou a fundar aquele que viria a ser o maior e mais importante de todos os novos partidos políticos emergentes da era revolucionária. Inicialmente denominado Partido Popular Democrático (PPD) e pouco tempo depois renomeado Partido Social Democrata (PSD). Nele, o “Capuchinho Laranja” sempre militou, tendo trabalhado praticamente com todos os seus líderes históricos. Desde o seu mentor e referência máxima “São Carneiro”, passando naturalmente pelo eterno militante número um “Bolsa-na-Mão”, tal como pelo grande defensor do centralismo político socialista e social-democráticos “Motorizada Pinto” com quem trabalhou mais de perto, dando-lhe grande visibilidade política, ampliada posteriormente na era dourada de “Determinado Silva”, contra quem, o “Capuchinho Laranja” se bateu no histórico congresso de 1985 na Figueira da Foz…

O “Capuchinho Laranja” era esperto e audaz. Sabia que tinha mais a ganhar do que a perder mantendo-se ao lado de quem detinha o poder em cada momento. Foi assim que o “Capuchinho Laranja” conseguiu a proeza de exercer tantas e diversificadas funções de topo no partido e no Estado.

O “Capuchinho Laranja” era uma verdadeira referência da social-democracia. Respeitado por alguns dos seus directos adversários políticos, conseguiu ser líder da bancada parlamentar do seu partido por várias vezes, conferindo-lhe um record nacional (apenas batido por “Petiz Montenegro”) quanto ao tempo total no exercício dessa função que atravessou de forma contínua momentos e lideranças estratégica e programaticamente opostas e contraditórias.

A título de exemplo, o “Capuchinho Laranja” foi Ministro da qualidade de vida (e que qualidade…) entre 1983 e 1984 no Governo liderado pelo Primeiro-Ministro “Super Mário” e tendo como Vice PM “Motorizada Pinto”, resultante da grande coligação PS/PSD do chamado Bloco Central (BC) que conferiu a maior maioria parlamentar de sempre e de apoio a um Governo que alguma vez tivemos em democracia. Maior que esta, só mesmo a da União Nacional do Estado Novo…

Na mesma legislatura, imediatamente a seguir a essa passagem pelo Governo, o “Capuchinho Laranja” foi líder da bancada parlamentar do PSD, cargo que desempenhou entre 1984 e 1987. Ou seja, durante cerca de três anos consecutivos que abrangeram três legislaturas distintas, num período que vai do BC à primeira maioria absoluta do PSD de “Determinado Silva” que tinha chegado à liderança do partido em 1985 e consequentemente do Governo, apoiado entusiasticamente por uma corrente interna de jovens promissores denominada “Nova Esperança” - onde se destacavam “Martelo Reboliço de Sousa”, “Satanás Lopes”, “Duvidão Barroso” e “José Miguel Judiciário” – que, tal como “Determinado Silva”, eram contra a manutenção do BC corporizada pela anterior liderança tragicamente interrompida de “Motorizada Pinto”. Mas, acima de tudo, anti qualquer hipótese de regresso da corrente interna liderada por “Bolsa-na-Mão” e representada nesse histórico congresso por “João Salgueirada” que contava expressamente com o apoio do “Capuchinho Laranja”. Além de que, muitos deles eram apoiantes de primeira hora da “Fixe” candidatura presidencial do “Super Mário” e, porquanto, contrários à moção estratégica vencedora de “Determinado Silva” que apoiava a candidatura presidencial de “Fretes do Amaral” que acabou por perder nas urnas a eleição para o “Super Mário”… E, sabendo nós o que hoje sabemos, ainda bem!  

No segundo Governo de “Determinado Silva” apoiado no parlamento pela primeira maioria absoluta monopartidária da história da democracia portuguesa, o “Capuchinho Laranja”, já então vice-presidente do PSD (cargo que desempenhou de forma intercalar durante sete anos em três lideranças), torna-se de novo Ministro. Desta vez, dos assuntos parlamentares. 

Por esta altura, rendido aos encantos do chamado “cavaquismo”- período democrático que transformou Portugal num país moderno e civilizado -, o “Capuchinho Laranja” defende o seu partido e o seu líder incondicionalmente. Ao ponto de publicamente não se coibir de atacar ferozmente a sua própria cunhada “Helénica Roseta” pela intempestiva saída do partido rumo ao PS, onde por lá estacionou depois do confronto insanável com “Determinado Silva”.

O “Capuchinho Laranja” lá foi prosseguindo a sua brilhante carreira política que o PSD lhe proporcionou, tendo feito dois mandatos como deputado no Parlamento Europeu. É já com “Fernando Na-fogueira” na liderança que regressa à Assembleia da República como deputado. Com “Martelo Reboliço de Sousa” à frente do partido, volta a ter grande destaque ao ser de novo vice-presidente do PSD, enquanto “Rio Douro” - à data um dirigente sem grande estatuto pessoal e político - desempenha fugazmente a função de secretário-geral.

Com “Duvidão Barroso”, o “Capuchinho Laranja” mantém-se vice-presidente na direcção do partido, regressando em 1999 à liderança do grupo parlamentar. Porém, no final do ano de 2001, vencendo a eleição autárquica na qual fora candidato, zarpa para a Vila de Cascais onde ficará durante 10 anos consecutivos como Presidente da câmara municipal.

Ironia histórica sensacional, ao mesmo tempo em Lisboa, “Satanás Lopes” vence a “geringonça” autárquica liderada por “Micro Soares”, mas no poder da autarquia da capital desde 1989 quando “Jorge Sem-paio” foi eleito seu Presidente através de uma mais consistente coligação de esquerda que se formou e se apresentou a sufrágio eleitoral derrotando a direita também coligada e liderada por “Martelo Reboliço de Sousa”.

A nova vida autárquica do “Capuchinho Laranja” deu-lhe imenso jeito, nomeadamente durante os meses de liderança de “Satanás Lopes” de quem nunca escondeu ser crítico e adversário interno. Talvez por mero ciúme.

Entretanto, somam-se três lideranças no partido sem qualquer importância a registar, duas das quais, sem dignidade sequer para se revisitar na história…

Perante a bancarrota do país ocorrida anos mais tarde às mãos de um delinquente político que destruiu Portugal em meia dúzia de anos (cujo nome prescindo de mencionar) e que chegou ao poder com uma maioria absoluta muito fabricada pela opinião publicada e pela acção concreta do Presidente da República “Jorge Sem-paio” ao ter decidido dissolver a Assembleia da República que tinha uma maioria absoluta funcional legitimada pelo voto popular em eleições legislativas e que sustentava democraticamente o Governo de “Satanás Lopes”, empurrado pelos seus companheiros de partido a assumir o cargo de Primeiro-Ministro deixado vago pelo seu antecessor “Duvidão Barroso” que aceitou o prestigiadíssimo convite para ser Presidente da Comissão Europeia.

Eis então o momento da chegada à liderança do partido e posteriormente do Governo do “Coelho Mau”… É neste contexto que o “Capuchinho Laranja” começa a dar mostras de rompimento com o seu PSD de toda a vida. Não tanto por questões de política programática ou ideológica, mas sim, por questões de meros lugares a ocupar na nova legislatura que se avizinhava.

O “Capuchinho Laranja” tinha entretanto deixado a presidência da câmara municipal de Cascais e fora convidado pelo “Coelho Mau” para ser candidato a deputado por Lisboa, integrando a lista liderada por “Nobre Ami” que concorreu às eleições legislativas de 2011 pelo PSD como independente, depois de se ter candidatado meses antes às eleições presidenciais desse mesmo ano em que concorreu e perdeu contra “Determinado Silva” que venceu facilmente a reeleição. É este o ponto que levou o “Capuchinho Laranja” a assumir uma ruptura. Pois não aceitou ser o número dois de quem não tinha currículo político comparado com o seu, recusando ser candidato pelo PSD nessas eleições legislativas.

Na verdade, “Nobre Ami” aceitou ser candidato porque o “Coelho Mau” tinha-o convidado para ser a personalidade a apresentar oficialmente pelo PSD à Presidência da Assembleia da República, o que de resto acabou por acontecer, mas cuja eleição não se concretizou… Tendo sido aquela votação repetidamente perdedora um momento muito pouco nobre… Aliás, foi um dos maiores vexames políticos a que alguma vez se assistiu no parlamento português, tendo, em alternativa, sido eleita “A. Warhol Esteves”. De resto, a primeira mulher a exercer o cargo de Presidente da Assembleia da República.

Ora, a Presidência da AR, era precisamente a ambição que tinha o “Capuchinho Laranja” e que o “Coelho Mau” lhe negou… Imperdoável malvadez do “Coelho Mau” que não perdeu pela demora, culminando este episódio numa sucessão de actos vingativos do “Capuchinho Laranja” que passou a atacar diariamente o Governo do “Coelho Mau” e seu aliado “Irrevogável Portas”. Apoiando ainda candidaturas autárquicas independentes contra o seu próprio partido e acusando o “Coelho Mau” de ter desvirtuado ideológica e programaticamente o PSD que deixara, na sua óptica, de ser um partido social-democrata no qual tinha dificuldades em se rever (como se o PSD tivesse sido alguma vez um partido meramente social-democrata…). Consequência, aliás, pretendida de tão errática postura, o “Capuchinho Laranja” veio a ser expulso do partido liderado pelo “Coelho Mau”.

Mas o “Capuchinho Laranja” era um homem forte e determinado a destruir o “Coelho Mau”, resolvendo então participar, a convite de “Seguro por Arames”, na convenção socialista que lançou a candidatura do PS às eleições europeias liderada pelo “Santo Assis” que publicamente apoiou. E, não satisfeito com os resultados poucochinhos desta sua empenhada batalha para liquidar o “Coelho Mau”, o “Capuchinho Laranja”, resolveu apoiar o PS do “Equilíbrio Costa” nas eleições de 2015, participando noutra convenção socialista onde discursou e levantou a sala que o aplaudiu forte e entusiasticamente.  

Na mesma linha de posicionamento aberrante, “José Miguel Judiciário”, abandonara o PSD e rumara directamente ao apoio público e participado no PS do “Equilíbrio Costa”. Primeiro nas autárquicas de Lisboa e posteriormente nas legislativas.

Porém, o “Equilíbrio Costa” perdeu as eleições legislativas para o “Coelho Mau” e “Irrevogável Portas”, para enorme tristeza do “Capuchinho Laranja” e também de “José Miguel Judiciário”.

Mas, entretanto, o “Equilíbrio Costa” criou nesse Verão às escondidas dos portugueses e de muitos dos seus próprios camaradas e apoiantes, novas parcerias estratégicas com os “Amigos da Rua” que odiavam o “Coelho Mau” quase tanto quanto o odeia ainda hoje o “Capuchinho Laranja” e, nem de propósito, juntaram-se os três à esquina, fizeram um pacto diabólico que deu cabo do “Coelho Mau” e revogou definitivamente o “Irrevogável Portas” para regozijo e satisfação do “Capuchinho Laranja”!

Nesta matéria, é justo dizer que “José Miguel Judiciário” não apreciou o plano conspirativo do “Equilíbrio Costa” e dos seus “Amigos da Rua” com quem, apesar da deriva esquerdizante que o atingiu com força, não se mistura lá muito bem…  

Foi então que o “Coelho Mau” resolveu recolher à sua toca privada depois do PSD ter sido trucidado nas autárquicas seguintes, levando a uma nova e derradeira batalha pela liderança do partido disputada entre “Rio Douro” e “Satanás Lopes”. O “Capuchinho Laranja” já excomungado desta família desavinda e em declínio desde 1995, e tendo sido, entretanto, adoptado de forma calorosa, entusiástica e carinhosa pela família socialista, resolveu intrometer-se nessa luta interna, referindo que ponderava regressar ao partido se o “Rio Douro” ganhasse a eleição interna no PSD. Mas se pelo contrário, vencesse o “Satanás Lopes”, o deixaria para todo o sempre.

Pois bem, venceu “Rio Douro” e “Satanás Lopes” foi quem acabou mesmo por sair do partido pelo seu próprio pé e fundou um novo partido político (ALIANÇA) porque é um homem que os tem no sítio, contrariamente ao “Capuchinho Laranja” que sempre foi um queque mimado que não quis saber do país, nem prestou a solidariedade no partido a quem teve de resolver os desmandos daquela gente com quem tem estado nos últimos anos…

Depois disto, o “Capuchinho Laranja” fez mais uma das suas mimadas birras ao impor publicamente a condição de só regressar ao PSD se mantivesse a antiguidade e o número de militante. Revelando uma vez mais só pensar em si mesmo e nada mais do que isso. Pois, regressar ao partido que há 45 anos ajudou a fundar depois de tudo lhe ter feito desde 2011 para o ajudar a afundar, pretendendo que esses anos - em que passou descarada e militantemente para o lado adversário, combatendo de forma miserável a sua família política de toda uma vida - contem como militância no PSD, é simplesmente de gritos e de quem perdeu completamente o juízo!

Por outro lado, a aceitação destas condições por parte de “Rio Douro” revelam bem uma falta de respeito e de consideração pela história do PSD e do país que, só pode ter como justificação, um qualquer benefício que esteja na calha para o “Capuchinho Laranja”.

Posto isto, a história termina com o bonito gesto protagonizado pela concelhia de Cascais do PSD ao chumbar violentamente a pretensão de regresso do “Capuchinho Laranja”, atitude a que este apelidou de “cobardia política”… 

Em jeito de nota de rodapé à margem desta bonita história, creio que o tal benefício a que aludi como justificação para esta imbecilidade em vésperas de eleições legislativas que se esperam dolorosas para o PSD, poderá passar pela composição do próximo Governo do “Equilíbrio Costa”. Pois caso precise de uma coligação parlamentar que lhe garanta a maioria para governar, irá, com certeza contar com o apoio do amigo “Rui Douro” e do seu partido, a quem estenderá a mão, prescindindo nesta nova legislatura de uma reedição geringonçada ou outra qualquer solução experimentalista com o PAN ou o BE.

Isto por quatro motivos essenciais:

1 - Para ter um Governo forte de base social alargada que só o Bloco Central garante numa altura que se prevê de novas convulsões económicas e, ao mesmo tempo para que possa partilhar com o PSD as dores provocadas por eventuais medidas duras de austeridade, em virtude dessa nova crise económica que está a rebentar na Europa. Evitando, por outro lado, que o PSD fique livre na oposição ao Governo como ficou o PS na última legislatura da troika.

2 - Para satisfazer o desígnio Presidencial de “Martelo Reboliço de Sousa” que tudo o que mais deseja é conseguir um consenso de regime entre PS e PSD que possa servir para se fazerem as grandes reformas do Estado. E já agora, para que possa recandidatar-se e vencer a reeleição em 2021 com uma esmagadora maioria garantida pelo apoio formal dos partidos do BC e eventualmente do CDS, entre outros apoios dos mais novos e pequenos partidos da direita.

3 - Para demonstrar ao país, e de certa forma com ele conciliar-se, relativamente às razões que o levaram a tomar a decisão muito pouco ortodoxa de 2015 quando se aliou aos “Amigos da Rua” e fez cair um Governo de maioria relativa que venceu democraticamente eleições. Isto é, que apenas o fez para que o país se livrasse do “Coelho Mau” e do “Irrevogável Portas,” pretendendo com isso assumir esta coisa extraordinária que é a de “ajudar” a reerguer o PSD como grande partido do sistema democrático nacional.

4 - Por último, mas não de somenos importância, por forma a ficar devidamente registado na história política contemporânea da democracia portuguesa, a sua brilhante capacidade em criar consensos - qualidades que já lhe são devidamente reconhecidas - mas que ganharão uma nova expressão e toda uma outra dimensão por verificadas e concretizadas à esquerda e à direita. E com isso estará desde já encontrado o sucessor de “Martelo Reboliço de Sousa” na Presidência da República em 2026…

Nota final:

Esta história é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida política real, serão mera coincidência.

 

 

              

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